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Na mata ao anoitecer, um velhinho careca e descalço serve uma panela de barro fumegante a três viajantes com cajados; uma moça loira olha da porta do casebre.

A Lenda da Erva-Mate

Juan Bautista Ambrosetti

4 min de leitura a partir dos 7 anos

Um velhinho pobre, que mora no meio de uma mata fechada, serve a três forasteiros a única galinha que tem. Os visitantes são Deus, São João e São Pedro, e Deus pergunta aos dois santos o que eles fariam se fossem Deus.


Certa vez, Deus desceu à terra para andar pelo mundo, e São João e São Pedro foram com ele. Um dia, depois de uma caminhada muito puxada, os três chegaram cansados ao casebre de um velhinho.

O velhinho morava no meio de uma mata fechada, onde nenhum homem tinha posto os pés. Tinha uma filha jovem e bonita, que ele amava mais do que tudo. Queria que ela continuasse inocente para sempre, e por isso tinha ido morar ali com a filha e a mulher, longe de todo mundo.

Era pobre, muito pobre, o velhinho. Mesmo assim, como os visitantes eram forasteiros, fez questão de receber os três da melhor maneira que pôde. Só tinha uma galinha, e foi essa galinha que ele matou e serviu no jantar.

Deus viu tudo aquilo. Quando ficou sozinho com os companheiros, perguntou:

— O que vocês fariam no meu lugar?

— Eu daria ao velhinho uma grande recompensa — respondeu São Pedro.

— Eu também, Senhor — disse São João. — Ele merece ser muito bem recompensado.

Então Deus mandou chamar o velhinho e disse:

— Tu, que és pobre, foste generoso, e eu te recompensarei por isso. Tens uma filha pura e inocente, que amas muito. Eu a farei imortal, para que nunca desapareça da terra.

E Deus transformou a moça num pé de erva-mate. Desde então a erva-mate existe no mundo, e por mais que a cortem, ela sempre torna a brotar.

Deus, de longa barba grisalha, ergue as mãos para a moça loira de vestido branco, que vira árvore, com galhos no lugar dos braços. O velhinho olha de joelhos.

Os ervateiros, porém, contam a história de outro jeito. Ervateiro é o peão que entra no mato para cortar os galhos da erva. Eles dizem que Deus não transformou a moça em erva, mas a fez dona da erva, a Caá-Yari, e que ela vive até hoje nos ervais e ajuda quem faz um pacto com ela.

O ervateiro que quer fazer o pacto espera a Semana Santa. Se mora perto de algum povoado, entra na igreja e promete solenemente que vai viver para sempre no mato e ser companheiro da Caá-Yari, e jura que nunca vai ter nada com outra mulher.

Feita a promessa, ele vai para o mato e deixa, numa moita de erva, um papel com o próprio nome e a hora em que vai voltar para se encontrar com a Caá-Yari.

No dia do encontro, o ervateiro precisa ter muito sangue-frio. Antes de se mostrar, a Caá-Yari solta em cima dele cobras, sapos, feras e outros bichos do mato, só para pôr à prova a coragem dele. E ele não pode perder a calma.

Na mata ao luar, o ervateiro de chapéu de palha e facão está calmo entre uma onça-pintada, uma onça-parda, dois sapos e duas cobras; há um papel numa moita.

Se não perde a calma, ganha a recompensa: a Caá-Yari aparece diante dele, jovem, bonita e loira. Então o ervateiro renova o juramento de que vai ser fiel a ela.

Daí em diante, toda vez que vai cortar erva, o ervateiro cai num sono gostoso. Enquanto ele dorme, a Caá-Yari prepara o raído dele, o fardo de folhas amarrado numa rede de couro, com dezoito a vinte arrobas. Quando ele acorda, a Caá-Yari o acompanha e vai segurando a carga por trás até a balança.

Curvado sob um fardo de galhos de erva, o ervateiro segue pela trilha; atrás, a Caá-Yari loira e meio transparente toca a carga. Ao longe se vê a balança.

Ninguém enxerga a dona da erva, só ele. Na hora da pesagem, ela sobe no raído, e o fardo pesa mais. Como o ervateiro ganha por arroba, recebe mais do que os outros.

Mas ai do ervateiro que trair a Caá-Yari com outra mulher! Ofendida, a Caá-Yari não perdoa. Mata.

Por isso, quando um ervateiro valente e trabalhador, desses que falam pouco, morre nos ervais de uma doença qualquer, os companheiros cochicham no ouvido uns dos outros:

— Ele traiu a Caá-Yari! A Caá-Yari se vingou!

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Recontado pela Talerie, fonte: Materiales para el estudio del Folk-lore misionero (abre em uma nova janela) Domínio público