OriginalA Lenda do Fio Vermelho
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Wei Gu perdeu os pais ainda pequeno e quer se casar logo, mas nenhum pedido dá certo. Ao chegar cedo demais a um encontro, ele acha nos degraus de um templo um velho encostado numa sacola cheia de fios vermelhos, lendo à luz da lua um livro que nenhum letrado sabe ler.
Wei Gu, um rapaz de Duling, tinha perdido o pai e a mãe ainda pequeno, e por isso queria se casar cedo, para que a família dele não se acabasse. Pediu a mão de muitas moças, mas nenhum desses pedidos deu certo.
No segundo ano da era Yuanhe, Wei Gu estava de viagem para Qinghe e parou numa estalagem ao sul da cidade de Songcheng. Lá, um hóspede lhe falou da filha de Pan Fang, que tinha sido assistente do governador de Qinghe, e ficou de acertar o casamento na manhã seguinte, antes de clarear, na porta do templo Longxing, a oeste da estalagem.
Wei Gu queria tanto aquele casamento que saiu cedo demais, quando a lua, já inclinada no céu, ainda brilhava.

Nos degraus do templo estava sentado um velho, encostado numa sacola de pano, lendo um livro que segurava virado para a luz da lua. Wei Gu chegou perto para espiar, mas não reconheceu as letras. Não era a escrita dos selos antigos, nem a escrita de girino, nem a das tabuletas, e também não era sânscrito. Então ele perguntou:
— Que livro é esse que o senhor está lendo? Desde menino eu estudo com muito esforço, e achava que não havia escrita no mundo que eu não soubesse ler. Leio até o sânscrito que vem da Índia. Só este livro eu nunca tinha visto. O que é?
O velho riu.
— Este livro não é deste mundo. Como é que você poderia conhecê-lo?
— Se não é deste mundo, então é de onde?
— É um livro do mundo dos mortos.
— E o que um homem do mundo dos mortos está fazendo aqui?
— Foi você que saiu cedo demais, não fui eu que vim fora de hora — respondeu o velho. — Todos os funcionários do mundo dos mortos cuidam da vida dos vivos. Como poderiam cuidar dos vivos sem andar no meio deles? Hoje, de cada duas pessoas que você encontra na estrada, uma é gente e a outra é fantasma. Você é que não sabe distinguir.
— E o senhor cuida de quê?
— Dos registros de casamento de todo mundo que vive debaixo do céu.
Wei Gu ficou contente.
— Eu perdi meus pais cedo e sempre quis me casar logo, para ter filhos e continuar a família. Faz dez anos que tento de todo jeito, e nunca deu certo. Hoje marcaram um encontro comigo aqui, para acertar o casamento com a filha do assistente Pan. Será que desta vez vai dar certo?
— Não vai — disse o velho. — Quando o destino não juntou duas pessoas, nada as junta. Mesmo que um nobre de alta família se rebaixasse a pedir a mão da filha de um açougueiro, esse casamento não sairia. Que dirá com a filha de um funcionário de província! A sua esposa acabou de fazer três anos. Quando tiver dezessete, ela vai entrar na sua casa.
Wei Gu perguntou o que havia na sacola.
— Fios vermelhos — respondeu o velho. — Servem para amarrar os pés do marido e da mulher. Quando os dois nascem, eu os amarro em segredo. Podem ser de famílias inimigas, um rico e o outro pobre, podem viver nas pontas opostas do mundo ou servir como funcionários em províncias distantes: depois que o fio está amarrado, ninguém escapa dele. O seu pé já está amarrado ao da sua futura esposa. De que adianta procurar em outro lugar?
— E onde está essa esposa? O que faz a família dela?
— É a filha da velha Chen, que vende verduras ao norte desta estalagem.
— Posso vê-la?
— A velha Chen costuma levá-la no colo quando vai vender verduras no mercado. Se você vier comigo, eu mostro.
O dia clareou, e ninguém apareceu para o encontro. O velho enrolou o livro, pôs a sacola nas costas e começou a andar. Wei Gu foi atrás dele até o mercado de verduras. Ali vinha uma velha cega de um olho, carregando no colo uma menina de três anos, magrinha e malvestida. O velho apontou para a criança e disse:
— Aquela é a sua esposa.

Wei Gu ficou furioso.
— E se eu mandar matá-la?
— Essa menina nasceu para viver com as bênçãos do céu, e um dia vai receber terras e honras por causa do filho dela. Como alguém poderia matá-la?
Dito isso, o velho sumiu.
Wei Gu começou a xingar:
— Velho fantasma, que mentira mais absurda! Eu sou de família de funcionários e letrados. Tenho que me casar com uma moça do meu nível. E, se não puder, posso ao menos escolher uma cantora bonita e fazer dela minha esposa. Como é que eu vou me casar com a filha feia de uma velha cega de um olho?
Então Wei Gu afiou uma faca pequena e a entregou ao criado.
— Você sempre foi um homem de confiança. Se matar aquela menina para mim, eu te dou dez mil moedas.
— Sim, patrão — respondeu o criado.
No dia seguinte, o criado escondeu a faca na manga, foi para o meio das bancas de verdura e, no meio da multidão, golpeou a menina com a faca e saiu correndo. O mercado inteiro virou uma confusão. Wei Gu e o criado fugiram, e ninguém os pegou.
— Acertou? — perguntou Wei Gu.
— Mirei o coração, patrão, mas por azar só acertei entre as sobrancelhas.
Depois disso, Wei Gu continuou pedindo moças em casamento, e nenhum pedido deu certo.
Passaram-se mais catorze anos. Graças aos méritos do pai, Wei Gu conseguiu um cargo em Xiangzhou. O prefeito de lá, Wang Tai, o pôs para cuidar dos processos e dos julgamentos e gostou tanto do trabalho dele que lhe deu a filha em casamento. A moça tinha uns dezesseis ou dezessete anos e era belíssima. Wei Gu não podia estar mais satisfeito.
Mas a esposa dele usava sempre uma florzinha pintada, colada entre as sobrancelhas, e nunca a tirava, nem para tomar banho, nem quando estava à vontade em casa. Passou-se mais de um ano. Wei Gu estranhava aquilo cada vez mais, até que de repente se lembrou do que o criado tinha dito, tantos anos antes, sobre o golpe entre as sobrancelhas. Então insistiu com ela até ela contar a verdade.

Ela começou a chorar.
— Eu sou sobrinha do prefeito, não filha dele. Meu pai foi magistrado de Songcheng e morreu no cargo, quando eu ainda era bebê de colo. Depois morreram minha mãe e meu irmão. Só nos restou um sítio ao sul de Songcheng, perto da estalagem, e lá eu vivi com a minha ama de leite, a velha Chen. Ela vendia verduras para nos sustentar. Tinha tanta pena de mim que não me deixava sozinha nem por um instante. Um dia, quando eu tinha três anos e ela me levava no colo pelo mercado, um louco me feriu com uma faca. A cicatriz ficou, e por isso eu a cubro com a flor. Faz uns sete ou oito anos, meu tio foi servir em Lulong, e eu passei a viver com ele. Ele foi bondoso comigo, me criou como filha e me casou com você.
— A velha Chen era cega de um olho? — perguntou Wei Gu.
— Era. Como você sabe?
— Fui eu que mandei ferir você.
Os dois disseram que aquilo era muito estranho e que só podia ser o destino. Wei Gu contou a ela a história inteira, do começo ao fim, e desde então um passou a respeitar o outro ainda mais.
Mais tarde, tiveram um filho, Kun, que se tornou prefeito de Yanmen, e a mãe dele recebeu o título de Grande Senhora de Taiyuan. Assim se soube que ninguém pode mudar o que o céu decide em segredo.

Quando o magistrado de Songcheng ouviu essa história, deu um novo nome à estalagem: Estalagem do Casamento Selado.
Recontado pela Talerie, fonte: Xu Youguai lu (續幽怪錄) (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
