OriginalA Lenda da Iara
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Na fonte de um igarapé, uma moça tapuia de cabelos negros canta à sombra das palmeiras jauari. O jovem tapuio que passa por ali ouve a canção e foge, repetindo que ela é bela, mas é a morte. Até que a piracema o leva para longe de casa e a noite o pega perdido no igapó.
Deitada na areia branca da fonte de um igarapé, uma linda moça tapuia cantava à sombra das palmeiras jauari. Brincava com os matupiris, peixinhos que andam em bando pela beira dos rios, e eles passavam por cima do corpo dela, meio escondido pela correnteza que descia para o igapó, a mata alagada. Ela sacudia os cabelos longos e negros, tão negros quanto os olhos grandes que tinha.
Uma coroa de flores lilases de mururé enfeitava a testa dela e realçava o sorriso provocante dos lábios finos e rosados. Ela cantava uma canção de exílio, e os ecos a levavam pela floresta; quando a noite chegava, a canção ressoava nas águas do maior de todos os rios.

A tarde caía, o horizonte se enchia de cor, como se uma cornucópia dourada derramasse rosas e jasmins pelo céu, e ela cantava, cantava sempre. Mas o jovem tapuio que passava por ali não tinha coragem de procurar a fonte do igarapé. Ela cantava e ele ouvia; comovido, fugia, repetindo:
— É bela, mas é a morte… É a Iara.
Uma vez, a piracema, a subida dos peixes pelos igarapés para desovar, o levou para longe de casa, e a noite o pegou de surpresa. Os igarapés se cruzavam por toda parte, e ele seguia por eles, ora remando com mão firme, ora empurrando a canoa apoiado nos troncos das árvores. Assim atravessou a floresta, o igapó e o buritizal.
De repente, um canto o surpreendeu. Uma cabeça surgiu da água, e o sorriso e a beleza daquela moça o deixaram deslumbrado. O tapuio ficou olhando, deixou cair o remo e esqueceu até a palhoça onde morava. Só ouvia as batidas do próprio coração.
Perdido nos pensamentos, ele deixou a canoa ir à deriva, levada pela corrente, e só despertou quando sentiu a brisa fresca do Amazonas soprar sobre a fonte.
Despertou tarde demais. A tristeza tomou o lugar da alegria; a palhoça virou um tormento, a família, um peso. Só as águas o chamavam, só a solidão dos igarapés o encantava. Iara hupycycana! O moço tinha sido pego pela Iara.
Todas as manhãs, quando clareava no nascente e os japiins cantavam no alto das sumaúmas, uma canoa de vela escura, tingida de muruci, seguia para o igarapé. Levava o pescador tapuio, ansioso por ouvir o canto do aracuã, o pássaro que canta depois do anoitecer.
Para passar o tempo, o moço procurava o lugar onde as tartarugas vêm boiar, mas a flecha lhe caía da mão e o arco ficava encostado. As horas passavam em pensamentos, enquanto a canoa ia à deriva.

As garças já tinham coberto de branco as árvores onde dormem, mas o aracuã ainda não tinha cantado. Era então que a tristeza sumia e a alegria voltava, porque o sol já se escondia atrás das embaúbas da margem distante do Amazonas: era a hora da Iara.
O tapuio ia remando devagar. A capivara que saía do capinzal da margem o assustava; a jaçanã que levantava voo de uma ilhota de juncos lhe dava esperança; o pirarucu que subia à tona o enganava.
De repente, um canto o perturbou: era a Iara, que se queixava da frieza do tapuio.
O moço deixou cair o remo outra vez. A Iara lhe apareceu mais encantadora do que nunca, e o coração dele saltou no peito. Mas o conselho da mãe lhe voltou à memória:
— Meu filho, não se deixe seduzir pela Iara. Fuja dos braços dela. Ela é a morte.
O aracuã já não cantava, e do fundo da floresta veio a risada aguda do urutau, o pássaro da noite que anuncia desgraça.
A noite cobriu tudo, e o tapuio voltou para casa mais triste do que nunca, dividido entre o coração e o conselho da mãe. Os dias foram passando, e ele fugia dos amigos e já não pescava.
Um dia, viram uma canoa vazia descendo o Amazonas à deriva, sozinha, porque o pescador tinha se deixado seduzir pelos cantos da Iara.

Mais tarde, num matupá, uma dessas ilhotas de capim, galhos e barro que se soltam das margens e descem o rio, apareceu o corpo de um afogado. Os lábios dele traziam as marcas recentes dos beijos da Iara. Estavam dilacerados pelos dentes das piranhas.
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