Saltar para o conteúdo
Talerie
O Isqueiro

O Isqueiro

Hans Christian Andersen

11 min de leitura8–14 anos

Um soldado que voltava da guerra encontra uma bruxa e desce a uma árvore oca para buscar ouro em troca de um mágico isqueiro que ela havia deixado para trás. Quando o soldado fica pobre novamente, descobre que o isqueiro invoca três poderosos cães que o ajudam a recuperar sua riqueza e conquistar o coração da princesa que ninguém poderia conhecer.


Pela estrada vinha marchando um soldado: um, dois! um, dois! Trazia a mochila nas costas e uma espada no cinto, pois tinha voltado da guerra e agora só queria chegar em casa.

No caminho, encontrou uma velha bruxa. Era bem feia, com o beiço de baixo caído quase até o peito. — Boa noite, soldado — disse ela. — Que espada bonita você tem, e que mochila tão grande! Você é um soldado e tanto. Por isso vou te dar todo o dinheiro que você conseguir carregar.

— Muito obrigado, velha bruxa — respondeu o soldado.

— Está vendo aquela árvore grande ali? — disse ela, apontando. — É oca por dentro. Suba até o topo, lá tem um buraco por onde você pode descer, bem no fundo do tronco. Eu amarro uma corda na sua cintura e, quando você chamar, eu te puxo para fora de novo.

— E o que eu faço lá dentro? — perguntou o soldado.

— Vai buscar dinheiro! — disse a bruxa. — Lá embaixo você vai encontrar um grande salão iluminado, com mais de trezentas lamparinas acesas. Vai ver três portas, todas com as chaves na fechadura. No primeiro quarto, sentado sobre um baú enorme, tem um cão com olhos do tamanho de xícaras — mas não precisa ter medo dele. Eu te dou meu avental azul de quadrinhos; estenda-o no chão, sente o cão em cima, e pegue do baú quantas moedas de cobre quiser. Se preferir prata, vá ao segundo quarto. Lá tem um cão com olhos do tamanho de rodas de moinho, mas faça a mesma coisa e ele não vai te fazer nada. E se quiser ouro, vá ao terceiro quarto. O cão de lá tem olhos do tamanho de torres — este é um cão e tanto! Mas não tenha medo, sente-o no meu avental, e ele também não vai te fazer mal nenhum. Pode levar todo o ouro que conseguir carregar.

— Isso não parece nada mau — disse o soldado. — Mas o que você quer em troca, velha bruxa? Duvido que faça isso de graça.

— Não quero nem uma moedinha — disse ela. — Só quero que me traga um isqueiro velho que minha avó esqueceu lá dentro da última vez.

— Então amarre a corda na minha cintura — disse o soldado.

A bruxa amarrou a corda, deu-lhe o avental azul de quadrinhos, e ele subiu na árvore, desceu pelo buraco e foi descendo, descendo, até chegar ao grande salão iluminado, exatamente como ela tinha dito.

Abriu a primeira porta. Lá estava o cão de olhos como xícaras, olhando fixamente para ele.

— Ora, você é um bom rapaz — disse o soldado, sentou o cão no avental e enfiou os bolsos de moedas de cobre até não caber mais nada. Depois fechou o baú, sentou o cão de volta e seguiu adiante.

No segundo quarto estava o cão de olhos como rodas de moinho. — Não fique me encarando assim — disse o soldado, sentou-o no avental — e, ao ver a prata, jogou fora o cobre e enfiou tudo de prata que pôde.

No terceiro quarto, porém, estava o cão de olhos do tamanho de torres, e os olhos giravam na cabeça como rodas. — Boa noite — disse o soldado, tocando educadamente no boné, pois nunca tinha visto um cão daqueles. Ergueu-o com cuidado até o avental e abriu o baú. Minha nossa, que ouro! Dava para comprar a cidade inteira com aquilo. Jogou fora a prata e enfiou ouro nos bolsos, na mochila, no boné e nas botas, até quase não conseguir andar. Depois sentou o cão de volta no baú, fechou a porta e gritou para cima:

— Agora me puxe, velha bruxa!

— Você trouxe o isqueiro? — perguntou ela.

— Quase esqueci! — disse o soldado, voltou e o pegou. Então a bruxa o puxou para fora, e ele se viu de novo na estrada, os bolsos, as botas e a mochila cheios de ouro.

— Para que você quer esse isqueiro? — perguntou ele.

— Isso não é da sua conta — disse a bruxa. — Você já tem seu dinheiro, agora me dê o isqueiro.

— Então me diga pelo menos o que vai fazer com ele — disse o soldado.

— Não — disse a bruxa.

Então o soldado simplesmente guardou o isqueiro para si. Amarrou o ouro no avental de quadrinhos azuis, pôs a trouxa nas costas, meteu o isqueiro no bolso, e deixou a velha bruxa junto à árvore oca. Quando olhou para trás, ela já tinha desaparecido. E ele foi direto para a cidade.

Era uma cidade linda, e na melhor hospedaria ele tomou os melhores quartos e pediu seus pratos favoritos, pois agora era rico. As botas velhas pareceram estranhas ao criado, para um cavalheiro tão elegante — mas no dia seguinte ele comprou botas novas, e roupas finas também. De soldado, tornou-se um verdadeiro nobre, e as pessoas lhe contaram sobre as maravilhas da cidade, sobre o rei, e sobre sua filha, a princesa, que dizia-se ser extremamente encantadora.

— Onde posso vê-la? — perguntou o soldado.

— Em lugar nenhum — disseram-lhe. — Ela vive num grande castelo de cobre, cercado de muros e torres. Ninguém pode se aproximar dela, pois foi profetizado que ela se casaria um dia com um simples soldado, e o rei não quer isso de jeito nenhum.

O soldado seguiu vivendo alegremente, ia ao teatro, passeava pelo jardim do rei e dava muito dinheiro aos pobres, pois sabia bem como era ruim não ter nem uma moeda. Fez muitos amigos, que o chamavam de cavalheiro exemplar, e isso lhe agradava. Mas, como gastava dinheiro todos os dias sem que entrasse mais nenhum, acabou ficando apenas com duas moedas. Teve de deixar os belos quartos e subir para um quartinho no sótão, onde ele mesmo limpava as botas e as costurava com agulha. E nenhum dos amigos veio mais vê-lo, pois eram muitas escadas para subir.

Numa noite escura, quando nem sequer podia comprar uma vela, ele se lembrou de que dentro do isqueiro trazido da árvore oca ainda havia um pedacinho de vela. Tirou-o e bateu o isqueiro para fazer fogo — e, no instante em que a chama surgiu, a porta se abriu, e ali estava o cão de olhos como xícaras.

— O que o meu senhor deseja? — perguntou o cão.

— O que é isso? — disse o soldado, espantado. — Que isqueiro maravilhoso, se com ele consigo tudo o que quero! Traga-me dinheiro! — Num piscar de olhos o cão desapareceu, e num piscar de olhos voltou, com um saco de moedas na boca.

Agora o soldado sabia que isqueiro precioso tinha em suas mãos. Uma batida, e vinha o cão do cobre; duas batidas, o da prata; três batidas, o do ouro. Voltou aos belos quartos, vestiu roupas finas de novo, e seus amigos o reconheceram na hora e voltaram a admirá-lo.

Um dia, pensou: é curioso que ninguém consiga ver a princesa. Pegou o isqueiro e bateu uma vez. O cão apareceu.

— Sei que é bem tarde da noite — disse o soldado — mas eu gostaria tanto de ver a princesa, só por um instante.

O cão saiu porta afora num instante e voltou com a princesa, adormecida em suas costas, tão encantadora que qualquer um veria logo que era mesmo uma princesa. O soldado não resistiu e beijou-a de leve. Depois o cão a levou de volta ao castelo.

De manhã, a princesa contou, tomando chá, que sonhara com um cão que a carregara e um soldado que a beijara. — Que história curiosa — disse a rainha, e resolveu que, na noite seguinte, poria uma dama de companhia junto à cama da princesa, para descobrir se era só um sonho.

Mas o soldado sentia tanta saudade da princesa que o cão foi buscá-la de novo na noite seguinte. Desta vez, porém, a dama de companhia calçou as botas e seguiu atrás. Quando viu a casa onde os dois desapareceram, marcou a porta com uma cruz de giz e voltou para dormir.

Quando o cão trouxe a princesa de volta, viu a cruz — e, como era esperto, pegou também um pedaço de giz e marcou cruzes em todas as portas da cidade. Assim, na manhã seguinte, a dama de companhia não conseguiu mais encontrar a porta certa, pois havia cruzes por todo lado.

Mas a rainha era mulher sábia. Costurou uma pequena bolsa de seda, enchendo-a de fina sêmola, amarrou-a nas costas da princesa e fez um pequeno furo, de modo que a sêmola fosse caindo pelo caminho todo. E assim aconteceu: na noite seguinte, um rastro levou exatamente até a janela por onde o cão subira o muro com a princesa. De manhã, o rei e a rainha souberam exatamente onde a filha estivera, e mandaram prender o soldado.

Ali ficou ele, no escuro, e disseram-lhe: — Amanhã você será enforcado. — O isqueiro tinha ficado na hospedaria. De manhã, através da pequena janela com grades, viu o povo correndo para a forca, ouviu os tambores, viu os soldados marchando. Passou correndo um menino sapateiro, com tanta pressa que um chinelo saltou do pé dele e bateu na parede.

— Ei, menino sapateiro! — gritou o soldado. — Não vão começar sem eu chegar! Corra até meu antigo quarto e me traga meu isqueiro, que eu te dou quatro moedas! — O menino correu o mais rápido que pôde e trouxe o isqueiro.

Fora da cidade estava a forca. Ao redor, os soldados e milhares de pessoas, o rei e a rainha em seus tronos, e diante deles os juízes e todo o conselho. Quando o soldado já estava no alto da escada, pediu, como é costume para um condenado, um último cachimbo de tabaco. O rei permitiu.

O soldado bateu o isqueiro — uma vez, duas, três — e os três cães apareceram de uma só vez: o de olhos como xícaras, o de olhos como rodas de moinho, e o de olhos como torres.

— Ajudem-me a não ser enforcado! — gritou o soldado.

Os três grandes cães saltaram para a frente, os olhos brilhando e o latido ressoando tão forte que os juízes e todo o conselho fugiram em todas as direções. O rei gritou: — Eu não quero isso! — mas o maior dos cães olhou para ele e para a rainha com seus olhos enormes como torres, e os dois fugiram da cidade o mais rápido que puderam, e nunca mais voltaram a aparecer. Os soldados se assustaram, e o povo começou a gritar: — Bom soldado, seja o nosso rei, e case-se com a linda princesa!

Puseram-no na carruagem do rei, e os três cães dançavam na frente gritando de alegria, as crianças assobiavam com os dedos, e os soldados apresentavam armas. A princesa saiu do castelo de cobre, e o casamento foi festejado por oito dias, e os três cães sentaram-se à mesa também, fazendo os olhos mais redondos e espantados que já se viu.