
O Soldadinho de Chumbo
6 min de leituraa partir dos 6 anostalerie.com/pt/contos/o-soldadinho-de-chumbo
Um soldadinho de chumbo de uma perna só se encanta com a bailarina de papel, cai da janela, navega na sarjeta num barco de jornal e é engolido por um peixe. Na mesma sala de antes, um menino o joga no fogão; nas cinzas a empregada encontra um coraçãozinho de chumbo, e da bailarina resta a rosa de lantejoulas queimada.
Era uma vez vinte e cinco soldadinhos de chumbo, todos irmãos, nascidos da mesma colher velha. Traziam o fuzil ao ombro e o uniforme era vermelho e azul. A primeira palavra que ouviram neste mundo, quando tiraram a tampa da caixa, foi esta:
— Soldadinhos de chumbo!
Quem gritou foi um menino, batendo palmas: os soldadinhos eram o presente do seu aniversário. Um era igualzinho ao outro, só o último tinha saído com uma perna só, porque o chumbo acabou antes da hora. Mesmo assim se equilibrava tão firme quanto os irmãos, e foi justamente ele que teve uma história para contar.
Na mesa havia muitos brinquedos, mas o mais bonito era um castelinho de papel. No meio da porta aberta estava uma mocinha recortada em papel, de saia de linho claro, com uma rosa de lantejoulas quase do tamanho do rosto. Ela abria os dois braços, porque era bailarina, e levantava uma perna tão alto que o soldadinho ficou achando que ela também só tinha uma, como ele.
“Essa é que seria a esposa para mim”, pensou ele. “Mas é muito fina, mora num castelo, e eu só tenho uma caixa cheia de irmãos. Mesmo assim, preciso conhecê-la.”
Então se deitou atrás de uma caixinha de rapé, para olhar a mocinha à vontade.
Quando anoiteceu, a casa foi dormir e os brinquedos começaram a brincar. Só dois não saíram do lugar: a bailarina, na ponta do pé, de braços abertos, e o soldadinho, firme na sua única perna, sem tirar os olhos dela.
O relógio bateu meia-noite e, num estalo, a tampa da caixinha de rapé saltou. Lá dentro não havia rapé: havia um duende preto e pequeno.
— Soldadinho de chumbo! — disse o duende. — Não fique olhando o que não é da sua conta!
O soldadinho fingiu que não tinha ouvido.
— Está bem. Espere só até amanhã! — disse o duende.
De manhã puseram o soldadinho no parapeito da janela. E, fosse coisa do duende ou fosse a corrente de ar, a janela se abriu e ele despencou do terceiro andar. Caiu de cabeça para baixo, com a perna apontando para o céu e a baioneta fincada entre as pedras da calçada.

A empregada e o menino desceram para procurá-lo e quase pisaram nele, mas não o viram. Se ele tivesse gritado “estou aqui!”, os dois o teriam encontrado na certa, mas ele achou que não ficava bem gritar, estando de uniforme.
Aí começou a chover forte. Quando a chuva passou, apareceram dois garotos na rua.
— Olha só! — disse um deles. — Um soldadinho de chumbo! Esse aí tem que sair para navegar!
Fizeram um barquinho de jornal, puseram o soldadinho no meio e o soltaram na sarjeta, cheia de água depois da chuva. O barquinho rodopiava tão depressa que o soldadinho tremia por dentro, mas ele ficou firme, com o fuzil ao ombro. De repente o barco entrou por baixo de uma ponte comprida, e ficou tão escuro quanto dentro da caixa.
“Onde é que eu vou parar?”, pensou ele. “A culpa é do duende! Ah, se a mocinha estivesse aqui comigo, podia estar duas vezes mais escuro. Eu não me importaria.”
Nisso apareceu uma ratazana que morava debaixo da ponte.
— Cadê o seu passaporte? — perguntou a ratazana. — Passaporte aqui!

O soldadinho não disse nada e segurou o fuzil com mais força. O barco seguiu, e a ratazana atrás, gritando para as palhas e as lascas de madeira:
— Segurem ele! Segurem ele! Não pagou pedágio! Não mostrou passaporte!
A correnteza ficava cada vez mais forte, e onde a ponte acabava havia um ronco de água: ali a sarjeta despencava dentro de um canal grande.
O soldadinho se manteve o mais duro que pôde: ninguém ia poder dizer que ele tinha piscado. O barquinho rodou três, quatro vezes, encheu de água e o papel se desmanchou, até a água passar por cima da cabeça dele. Então ele pensou na bailarina, que nunca mais ia ver, e ouviu soar nos seus ouvidos:
Adeus, soldado valente!A morte já vem à frente.
Aí o papel se rasgou de vez, e no mesmo instante um peixe grande engoliu o soldadinho.

Ai, como era escuro e apertado dentro do peixe! Mas o soldadinho continuou firme, com o fuzil ao ombro. O peixe nadava de um lado para o outro, até que ficou quieto. Então tudo clareou, e uma voz gritou:
— O soldadinho de chumbo!
O peixe tinha sido pescado, vendido na feira e levado para uma cozinha, onde uma empregada o abriu com uma faca grande. Ela levou o soldadinho para a sala, e todos quiseram ver o viajante que tinha andado dentro de um peixe. E, veja só como o mundo é esquisito, era a mesma sala de antes, com o mesmo menino, o mesmo castelo e a mesma bailarina. Ela continuava numa perna só, com a outra bem alta no ar; também tinha sido firme. Aquilo comoveu o soldadinho, que quase chorou lágrimas de chumbo, mas achou que não ficava bem. Olhou para ela, e ela não disse nada.
De repente o menino pegou o soldadinho e o jogou dentro do fogão, sem dar explicação nenhuma. Com certeza foi coisa do duende da caixinha.

O soldadinho ficou ali, todo iluminado, sentindo um calor terrível, e não sabia se aquilo vinha do fogo ou do amor. Ele olhou para a mocinha, ela olhou para ele, e ele sentiu que estava derretendo, mas continuou firme, com o fuzil ao ombro. Nisso uma porta se abriu, o vento pegou a bailarina e ela voou para dentro do fogão como uma fadinha do ar, acendeu-se numa chama e desapareceu. O soldadinho derreteu e virou um caroço de chumbo. No dia seguinte, quando a empregada tirou as cinzas, encontrou o soldadinho transformado num coraçãozinho. Da bailarina só restou a rosa de lantejoulas, queimada e preta como carvão.
Recontado pela Talerie, Fonte: Sämmtliche Märchen (abre em uma nova janela)
Licença: Domínio públicoCopie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório.CC0 1.0 (abre em uma nova janela)

