Pular para o conteúdo
Um velho pescador chama, da beira de um mar que escurece, um linguado encantado que surge entre as ondas.Original

O Pescador e Sua Mulher

Irmãos Grimm

18 min de leitura6–11 anos

Um pescador liberta um linguado encantado que diz ser um príncipe enfeitiçado, e a mulher dele manda o marido voltar ao mar sem parar, querendo casa, castelo, coroa e trono. Quando ela exige fazer nascer o sol e a lua, o mar se ergue numa tempestade negra e os dois voltam ao casebre imundo, onde estão até hoje.


Era uma vez um pescador e sua mulher, que moravam juntos num penico velho, bem pertinho do mar, e o pescador ia todo dia até a beira da água e pescava; e pescava, e pescava.

Um dia estava ele assim, sentado com a linha na mão, olhando sem parar para a água clara; e ficou sentado, e ficou.

De repente a linha desceu, foi fundo, bem lá para baixo, e quando ele puxou, trouxe para fora um linguado enorme. E o linguado lhe disse:

— Escute aqui, pescador, eu lhe peço: deixe-me viver. Eu não sou um linguado de verdade, sou um príncipe enfeitiçado. De que lhe serve me matar? Eu não teria gosto bom nenhum para você. Ponha-me de volta na água e me deixe nadar.

Debruçado no barco, um pescador surpreso, com a boca aberta, ergue um linguado grande e reluzente, dourado e azulado, sob um céu claro de manhã.

— Ora — disse o homem —, não precisa gastar tantas palavras. Um linguado que sabe falar eu ia deixar nadar de qualquer jeito.

E com isso tornou a pô-lo na água clara. O linguado desceu para o fundo e deixou atrás de si um longo rastro de sangue. Então o pescador se levantou e voltou para junto da mulher, no penico.

— Homem — disse a mulher —, você não pegou nada hoje?

— Não — disse o homem. — Peguei um linguado; ele disse que era um príncipe enfeitiçado, e eu o deixei nadar de novo.

— E você não desejou nada? — disse a mulher.

— Não — disse o homem. — O que é que eu haveria de desejar?

— Ah — disse a mulher —, é bem ruim viver sempre aqui neste penico, que fede e é tão nojento. Você bem que podia ter desejado uma casinha para nós. Volte lá e chame por ele. Diga que a gente quer ter uma casinha. Ele faz isso, com certeza.

— Ah — disse o homem —, por que é que eu haveria de ir lá de novo?

— Ora essa — disse a mulher —, você o pegou e o deixou nadar outra vez. Ele faz isso, com certeza. Vá agora mesmo.

O homem ainda estava sem vontade de ir, mas também não queria contrariar a mulher, e foi até o mar.

Quando chegou lá, o mar estava todo verde e amarelo, e já não tão claro. Ele parou na beira e disse:

Linguado, linguado do mar,vem à tona me escutar:Isabel, a minha mulher,quer o que eu não quero ter.

Aí veio o linguado nadando e disse:

— E então, o que é que ela quer?

— Ah — disse o homem —, eu peguei você, não foi? Agora minha mulher diz que eu bem que devia ter desejado alguma coisa. Ela não quer mais morar no penico, queria uma casinha.

— Pode ir — disse o linguado —, ela já a tem.

O homem foi, e sua mulher já não estava no penico: no lugar dele havia uma casinha, e ela estava sentada num banco diante da porta. Então a mulher o tomou pela mão e lhe disse:

— Entre, venha ver. Agora sim, está bem melhor.

Entraram, e na casinha havia um vestíbulo pequeno, uma salinha muito bonita e um quarto com a cama dos dois, e cozinha e despensa, tudo com os melhores utensílios e arrumado do jeito mais caprichado, as peças de estanho e de latão, cada coisa no seu lugar. E atrás havia também um quintalzinho com galinhas e patos, e uma hortinha com verduras e frutas.

A mulher do pescador está sentada num banco diante de uma casinha de telhado de palha, cercada de galinhas e patos, com vasos de plantas ao redor.

— Viu? — disse a mulher. — Não é uma graça?

— É — disse o homem. — Que fique assim. Agora vamos viver bem contentes.

— A gente ainda vai pensar nisso — disse a mulher.

Depois disso comeram alguma coisa e foram para a cama.

Assim se passaram uma ou duas semanas, e então a mulher disse:

— Escute, homem, a casinha é apertada demais, e o quintal e a horta são pequenos demais. O linguado bem que podia ter nos dado uma casa maior. Eu queria morar num castelo grande, de pedra. Vá até o linguado, ele que nos dê um castelo.

— Ah, mulher — disse o homem —, a casinha é boa o bastante. Para que a gente vai morar num castelo?

— Que nada — disse a mulher. — Vá você, o linguado faz isso muito bem.

— Não, mulher — disse o homem. — O linguado acabou de nos dar a casinha; não quero voltar lá tão cedo, isso pode aborrecer o linguado.

— Vá logo — disse a mulher. — Ele consegue muito bem e faz de bom grado. Vá você.

O coração do homem ficou pesado, e ele não queria ir. Disse consigo mesmo: “Isso não está certo.” Mas foi assim mesmo.

Quando chegou ao mar, a água estava toda roxa e azul-escura e cinzenta e espessa, e já não verde e amarela, mas ainda estava quieta. Ele parou na beira e disse:

Linguado, linguado do mar,vem à tona me escutar:Isabel, a minha mulher,quer o que eu não quero ter.

— E então, o que é que ela quer? — disse o linguado.

— Ah — disse o homem, meio triste —, ela quer morar num castelo grande, de pedra.

— Pode ir, ela já está diante da porta — disse o linguado.

O homem foi e pensava que ia para casa, mas quando chegou lá havia um grande palácio de pedra, e sua mulher estava justamente na escadaria, prestes a entrar. Ela o tomou pela mão e disse:

— Venha, entre comigo.

E com isso ele entrou com ela, e no castelo havia um salão enorme com o chão de mármore, e tantos criados que escancaravam as portas grandes; e as paredes eram todas reluzentes, forradas de tapeçarias bonitas, e nos aposentos só cadeiras e mesas de ouro, e lustres de cristal pendurados no teto, e em todas as salas e quartos havia tapetes. Nas mesas estavam postos a comida e o melhor vinho de todos, tanto que as mesas quase quebravam. Atrás da casa havia também um pátio grande com cavalariça e estábulo, e carruagens das melhores; e havia ainda um jardim maravilhoso, com as flores mais bonitas e árvores frutíferas finas, e um bosque de caça de quase meia légua de comprimento, com veados, corças e lebres, e tudo o que uma pessoa possa desejar.

A mulher, vestida como uma grande dama, leva o pescador pela mão por um salão de mármore com cadeiras e mesas douradas, iluminado por tochas.

— Então — disse a mulher —, agora não está bonito?

— Ah, está sim — disse o homem. — Que fique assim mesmo. Agora vamos morar neste castelo bonito e vamos ficar satisfeitos.

— A gente ainda vai pensar nisso — disse a mulher. — Vamos dormir sobre o assunto.

E com isso foram para a cama.

Na manhã seguinte a mulher acordou primeiro, bem na hora em que o dia clareava, e viu da cama a terra maravilhosa que se estendia diante dela. O homem ainda se espreguiçava, e ela lhe deu uma cotovelada nas costelas e disse:

— Homem, levante-se e olhe pela janela. Veja: será que a gente não podia reinar sobre toda esta terra? Vá até o linguado, a gente quer reinar.

— Ah, mulher — disse o homem —, para que a gente vai reinar! Eu não quero ser rei.

— Pois então — disse a mulher —, se você não quer ser rei, eu quero ser rainha. Vá até o linguado, eu quero ser rainha.

— Ah, mulher — disse o homem —, para que você quer ser rainha? Não tenho coragem de dizer isso a ele.

— Por que não? — disse a mulher. — Vá agora mesmo, eu preciso ser rainha.

Então o homem foi, e ficou muito triste porque sua mulher queria ser rainha. “Isso não está certo, não está nada certo”, pensou ele. Não queria ir, mas foi assim mesmo.

E quando chegou ao mar, o mar estava todo cinza-escuro, e a água fervilhava lá do fundo e cheirava a podre. Ele parou na beira e disse:

Linguado, linguado do mar,vem à tona me escutar:Isabel, a minha mulher,quer o que eu não quero ter.

— E então, o que é que ela quer? — disse o linguado.

— Ah — disse o homem —, ela quer ser rainha.

— Pode ir, ela já é — disse o linguado.

O homem foi, e quando chegou ao palácio, o castelo tinha ficado muito maior, com uma torre alta e enfeites magníficos; e havia uma sentinela diante da porta, e tantos soldados, e tambores e trombetas. Quando entrou na casa, tudo era de mármore puro com ouro, e havia cortinas de veludo e grandes borlas douradas. Então as portas do salão se abriram, e lá estava a corte inteira, e sua mulher estava sentada num trono alto de ouro e diamante, com uma coroa de ouro enorme na cabeça e o cetro na mão, de ouro puro e pedras preciosas; e dos dois lados dela havia seis donzelas enfileiradas, cada uma delas uma cabeça mais baixa que a anterior. Ele ficou parado ali e disse:

— Ah, mulher, agora você é rainha?

— Sou — disse a mulher. — Agora eu sou rainha.

Ele ficou de pé, olhando para ela, e depois de olhar assim um bom tempo, disse:

— Ah, mulher, como fica bonito você ser rainha! Agora a gente não vai desejar mais nada.

— Não, homem — disse a mulher, e estava toda inquieta. — O tempo custa a passar, eu não aguento mais. Vá até o linguado: rainha eu já sou, agora preciso ser imperatriz também.

— Ah, mulher — disse o homem —, para que você quer ser imperatriz?

— Homem — disse ela —, vá até o linguado, eu quero ser imperatriz.

— Ah, mulher — disse o homem —, imperatriz ele não pode fazer, eu não tenho coragem de dizer isso ao linguado. Imperador só existe um em todo o império; imperatriz o linguado não pode fazer, isso ele não pode fazer de jeito nenhum.

— O quê? — disse a mulher. — Eu sou rainha e você é apenas o meu marido. Vai já ou não vai? Vá agora mesmo: se ele pode fazer rainha, pode fazer imperatriz também. Eu quero ser imperatriz e vou ser. Vá já.

Então ele teve de ir. Mas enquanto caminhava, ficou com muito medo, e ia pensando consigo mesmo: “Isso não vai dar certo. Imperatriz é atrevimento demais, o linguado vai acabar se cansando.”

Nisso chegou ao mar, e o mar estava preto e espesso, e já começava a ferver lá do fundo, jogando bolhas para cima, e soprava sobre ele um vento tão rodopiante que a água toda se revolvia; e o homem ficou arrepiado de pavor. Ele parou na beira e disse:

Linguado, linguado do mar,vem à tona me escutar:Isabel, a minha mulher,quer o que eu não quero ter.

— E então, o que é que ela quer? — disse o linguado.

— Ah, linguado — disse ele —, minha mulher quer ser imperatriz.

— Pode ir — disse o linguado —, ela já é.

O homem foi, e quando chegou lá, o castelo inteiro era de mármore polido, com figuras de alabastro e enfeites de ouro. Diante da porta marchavam os soldados, e sopravam trombetas e batiam tímbales e tambores; dentro da casa, porém, barões e condes e duques andavam de um lado para o outro como se fossem criados. Foram eles que abriram para ele as portas, que eram de ouro maciço. E quando ele entrou, lá estava sua mulher sentada num trono feito de um só bloco de ouro, com umas boas duas léguas de altura; trazia na cabeça uma coroa de ouro enorme, de três côvados de altura, cravejada de brilhantes e rubis; numa das mãos segurava o cetro e na outra o globo imperial, e dos dois lados dela os guardas estavam em duas fileiras, cada um menor que o anterior, desde o maior gigante de todos, que tinha duas léguas de altura, até o menor dos anões, que era só do tamanho de um dedo mindinho. E diante dela havia príncipes e duques sem conta. O homem foi se colocar no meio deles e disse:

— Mulher, agora você é imperatriz?

— Sou — disse ela. — Eu sou imperatriz.

Então ele ficou de pé e olhou bem para ela, e depois de olhar assim um bom tempo, disse:

— Ah, mulher, como fica bonito você ser imperatriz.

— Homem — disse ela —, o que você está fazendo aí parado? Agora eu sou imperatriz, mas agora eu quero ser papa também. Vá até o linguado.

— Ah, mulher — disse o homem —, o que é que você não quer? Papa você não pode ser, papa só existe um em toda a cristandade, isso ele não pode fazer.

— Homem — disse ela —, eu quero ser papa. Vá agora mesmo, eu preciso ser papa ainda hoje.

— Não, mulher — disse o homem —, isso eu não posso dizer a ele, isso não vai acabar bem, é grosseiro demais. Papa o linguado não pode fazer.

— Homem, que conversa é essa! — disse a mulher. — Se ele pode fazer imperatriz, pode fazer papa também. Vá já: eu sou imperatriz e você é apenas o meu marido. Vai ou não vai?

Então ele ficou com medo e foi; mas sentia-se fraco, tremia e batia queixo, e os joelhos e as panturrilhas bambeavam. E soprava um vento tal sobre a terra, e as nuvens corriam, e escurecia como se caísse a noite: as folhas voavam das árvores, e a água rolava e bramia como se fervesse, e se atirava contra a praia, e ao longe ele via os navios, que disparavam tiros de socorro e dançavam e saltavam sobre as ondas. O céu ainda tinha um pedacinho azul no meio, mas nas beiradas subia um vermelho carregado, como numa grande tempestade. Ele parou ali, desanimado, tomado de medo, e disse:

Linguado, linguado do mar,vem à tona me escutar:Isabel, a minha mulher,quer o que eu não quero ter.

— E então, o que é que ela quer? — disse o linguado.

— Ah — disse o homem —, ela quer ser papa.

— Pode ir, ela já é — disse o linguado.

O homem foi, e quando chegou lá havia como que uma igreja imensa, cercada só de palácios. Ele abriu caminho no meio do povo; e por dentro tudo estava iluminado por milhares e milhares de velas, e sua mulher estava vestida de ouro da cabeça aos pés, sentada num trono ainda muito mais alto, com três grandes coroas de ouro na cabeça, e em volta dela toda a pompa da Igreja; e dos dois lados dela havia duas fileiras de velas, desde a maior, grossa e alta como a mais alta das torres, até a menor velinha de cozinha; e todos os imperadores e todos os reis estavam ajoelhados diante dela e lhe beijavam a sandália.

A mulher, vestida de ouro com três coroas sobrepostas, está sentada num trono alto numa igreja cheia de velas, com reis ajoelhados diante dela.

— Mulher — disse o homem, olhando bem para ela —, agora você é papa?

— Sou — disse ela. — Eu sou papa.

Então ele ficou parado, olhando bem para ela, e era como se olhasse dentro do sol claro. Depois de olhar assim um bom tempo, disse:

— Ah, mulher, como fica bonito você ser papa!

Mas ela continuou sentada, dura feito um tronco, e não se mexia nem se remexia. Então ele disse:

— Mulher, agora fique satisfeita. Agora que você é papa, não pode mais virar coisa nenhuma.

— Vou pensar no assunto — disse a mulher.

E com isso os dois foram para a cama; mas ela não estava satisfeita, e a cobiça não a deixava dormir: ficava pensando o tempo todo no que ainda queria ser.

O homem dormiu bem e pesado, tinha andado muito naquele dia; a mulher, porém, não conseguia pegar no sono de jeito nenhum e virava de um lado para o outro a noite inteira, pensando sempre no que ainda poderia vir a ser, e não lhe ocorria mais nada. Nisso o sol começou a nascer, e quando ela viu a luz vermelha da manhã, sentou-se na cama e ficou olhando para lá; e quando viu pela janela o sol subindo assim, pensou: “Ah, será que eu também não podia fazer o sol e a lua nascerem?”

— Homem — disse ela, e lhe deu uma cotovelada nas costelas —, acorde, vá até o linguado: eu quero ser como o bom Deus.

O homem ainda estava quase todo no sono, mas levou um susto tão grande que caiu da cama. Achou que tinha entendido mal, esfregou os olhos e disse:

— Ah, mulher, o que foi que você disse?

— Homem — disse ela —, se eu não puder fazer o sol e a lua nascerem, e tiver de ficar olhando o sol e a lua nascerem por conta própria, eu não aguento, e não tenho mais uma hora de sossego, só porque não posso fazê-los nascer eu mesma.

Aí ela olhou para ele de um jeito tão medonho que um arrepio percorreu o corpo dele.

— Vá agora mesmo. Eu quero ser como o bom Deus.

— Ah, mulher — disse o homem, e caiu de joelhos diante dela —, isso o linguado não pode fazer. Imperatriz e papa ele pode fazer; eu lhe peço, tenha juízo e continue papa.

Então ela ficou furiosa, os cabelos voavam soltos em volta da cabeça, ela rasgou o corpete, deu-lhe um pontapé e gritou:

— Eu não aguento, não aguento mais um minuto! Vai ou não vai?!

Então ele vestiu as calças às pressas e saiu correndo feito louco.

Lá fora, porém, a tempestade rugia, e uivava de tal modo que ele mal conseguia ficar de pé: as casas e as árvores tombavam, as montanhas tremiam, pedaços de rocha rolavam para dentro do mar, e o céu estava preto feito breu, e trovejava e relampejava, e o mar erguia ondas negras tão altas quanto torres de igreja e quanto montanhas, e todas elas traziam no alto uma coroa branca de espuma. Então ele gritou, e não conseguia ouvir a própria voz:

Linguado, linguado do mar,vem à tona me escutar:Isabel, a minha mulher,quer o que eu não quero ter.

O pescador avança sozinho pela praia numa tempestade violenta, com pedras caindo, árvores tombando e o mar negro agitado atrás dele.

— E então, o que é que ela quer? — disse o linguado.

— Ah — disse ele —, ela quer ser como o bom Deus.

— Pode ir, ela já está sentada de novo dentro do velho penico.

O pescador entra pela porta baixa do velho casebre e encontra a mulher já sentada dentro, simples e pobre outra vez, à luz de uma única vela.

E lá estão os dois sentados até o dia de hoje.

Recontado pela Talerie, Fonte: Kinder- und Hausmärchen (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público