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Uma jovem de vestido reluzente está ao anoitecer sob uma aveleira em flor enquanto duas pombas brancas voam sobre ela.Original

Cinderela

Irmãos Grimm

14 min de leitura8–12 anos

Órfã de mãe, maltratada pela madrasta e pelas irmãs, Cinderela ganha do passarinho da aveleira um vestido de ouro e dança com o filho do rei. As irmãs cortam o dedo e o calcanhar para o pé caber no sapato de ouro, mas o sangue as denuncia, e as pombas bicam os olhos das duas, e elas ficam cegas para o resto da vida.


Era uma vez um homem rico cuja mulher adoeceu. Quando ela sentiu que o seu fim estava chegando, chamou a sua única filhinha para perto da cama e disse:

— Minha filha querida, continue boa e obediente, e o bom Deus há de estar sempre com você. Eu vou olhar por você lá do céu e vou ficar sempre ao seu lado.

Depois fechou os olhos e morreu. Todos os dias a menina ia até o túmulo da mãe e chorava, e continuou boa e obediente. Quando chegou o inverno, a neve estendeu um lencinho branco sobre o túmulo, e quando o sol da primavera puxou aquele lencinho de volta, o homem tomou outra mulher.

A nova mulher trouxe consigo para dentro da casa duas filhas, bonitas e de rosto claro, mas de coração feio e negro. Começou então um tempo ruim para a pobre enteada.

— Essa boba vai ficar sentada na sala com a gente? — disseram elas. — Quem quiser comer pão tem que ganhar o pão. Para a cozinha com a criada!

Tiraram dela as roupas bonitas, vestiram nela um vestido velho e cinzento e deram a ela um par de tamancos de madeira.

— Olhem só a princesa orgulhosa, como está enfeitada! — gritaram, rindo, e a levaram para a cozinha.

Lá ela tinha que fazer trabalho pesado da manhã até a noite, levantar antes de o dia clarear, carregar água, acender o fogo, cozinhar e lavar. Além de tudo isso, as irmãs lhe faziam todas as maldades que conseguiam inventar, zombavam dela e jogavam as ervilhas e as lentilhas nas cinzas, para que ela tivesse que sentar e catar tudo de novo. À noite, quando estava cansada de tanto trabalhar, não tinha cama nenhuma: precisava se deitar nas cinzas, ao lado do fogão. E como por isso andava sempre empoeirada e suja de cinza, passaram a chamá-la de Cinderela.

Cinderela, com cinza no rosto, esfrega uma panela de cobre à lareira enquanto as duas irmãs, vestidas de vermelho e verde, observam da porta com desdém.

Aconteceu que um dia o pai quis ir à feira e perguntou às duas enteadas o que deveria trazer para elas.

— Vestidos bonitos — disse uma.

— Pérolas e pedras preciosas — disse a outra.

— E você, Cinderela? — perguntou ele. — O que você quer?

— Pai, o primeiro galho que bater no seu chapéu na volta para casa, quebre esse galho para mim.

Ele comprou então vestidos bonitos, pérolas e pedras preciosas para as duas enteadas e, na volta, quando passava a cavalo por um mato verde, um galho de aveleira roçou nele e derrubou o seu chapéu. Ele quebrou aquele galho e o levou consigo. Quando chegou em casa, deu às enteadas o que elas tinham pedido, e a Cinderela deu o galho da aveleira. Cinderela agradeceu, foi até o túmulo da mãe e plantou o galho ali, e chorou tanto que as lágrimas caíram sobre ele e o regaram. E o galho cresceu e virou uma árvore bonita. Cinderela ia até ela três vezes por dia, chorava e rezava, e todas as vezes um passarinho branco pousava na árvore. Se ela dizia um desejo em voz alta, o passarinho jogava lá de cima aquilo que ela tinha desejado.

Ora, aconteceu que o rei mandou preparar uma festa que devia durar três dias, e para ela foram convidadas todas as moças bonitas do reino, para que o filho do rei escolhesse uma noiva. Quando souberam que também deviam aparecer na festa, as duas irmãs ficaram animadas, chamaram Cinderela e disseram:

— Penteie o nosso cabelo, escove os nossos sapatos e aperte bem as nossas fivelas. Vamos à festa no castelo do rei.

Cinderela obedeceu, mas chorou, porque também teria gostado de ir ao baile, e pediu à madrasta que a deixasse ir junto.

— Você, Cinderela? — disse a madrasta. — Você está cheia de pó e de sujeira e quer ir à festa? Não tem vestido nem sapatos e quer dançar!

Como a menina não parava de pedir, a madrasta acabou dizendo:

— Joguei uma tigela de lentilhas nas cinzas. Se você catar essas lentilhas todas em duas horas, pode ir junto.

A menina saiu pela porta dos fundos até o quintal e chamou:

Ó pombinhas mansas, ó rolinhas,todos os passarinhos do céu,venham me ajudar a catar:as boas na tigelinha,as ruins no papinho.

Pela janela da cozinha entraram duas pombinhas brancas, depois as rolinhas, e por fim todos os passarinhos que voam sob o céu entraram zunindo e rodopiando e pousaram em volta das cinzas. As pombinhas balançaram a cabecinha e começaram: pic, pic, pic, pic. E os outros começaram também: pic, pic, pic, pic, e foram catando todos os grãos bons para dentro da tigela. Não tinha passado nem uma hora e já estavam prontos, e todos voaram de volta para fora. A menina levou a tigela para a madrasta, contente, achando que agora ia poder ir à festa. Mas a madrasta disse:

— Não, Cinderela, você não tem vestido e não sabe dançar. Só vão rir de você.

Cinderela, ajoelhada junto à lareira, estende uma tigela de madeira enquanto pombas entram voando pela janela para catar as lentilhas boas no monte de cinzas.

E, como a menina não parava de chorar, ela disse:

— Se você conseguir catar duas tigelas cheias de lentilhas das cinzas em uma hora, pode ir junto.

E pensou: “Isso ela não consegue nunca.”

Quando a madrasta jogou as duas tigelas de lentilhas nas cinzas, a menina saiu pela porta dos fundos até o quintal e chamou:

Ó pombinhas mansas, ó rolinhas,todos os passarinhos do céu,venham me ajudar a catar:as boas na tigelinha,as ruins no papinho.

Pela janela da cozinha entraram duas pombinhas brancas, depois as rolinhas, e por fim todos os passarinhos que voam sob o céu entraram zunindo e rodopiando e pousaram em volta das cinzas. As pombinhas balançaram a cabecinha e começaram: pic, pic, pic, pic. E os outros começaram também: pic, pic, pic, pic, e foram catando todos os grãos bons para dentro das tigelas. Não tinha passado nem meia hora e já estavam prontos, e todos voaram de volta para fora. A menina levou as tigelas para a madrasta, contente, achando que agora ia poder ir à festa. Mas a madrasta disse:

— Não adianta nada. Você não vai com a gente, porque não tem vestido e não sabe dançar. Nós teríamos vergonha de você.

Depois virou as costas para ela e saiu depressa com as suas duas filhas orgulhosas.

Quando não havia mais ninguém em casa, Cinderela foi até o túmulo da mãe, debaixo da aveleira, e chamou:

Arvorezinha, sacode a rama,joga ouro e prata em quem te chama.

Então o passarinho jogou lá de cima um vestido de ouro e prata e um par de sapatinhos bordados de seda e de prata. Bem depressa ela vestiu aquele vestido e foi para a festa. As irmãs e a madrasta não a reconheceram e acharam que devia ser a filha de algum rei de outra terra, de tão bonita que ela estava no vestido de ouro. Em Cinderela ninguém pensou; imaginavam que ela estava em casa, na sujeira, catando as lentilhas das cinzas. O filho do rei veio ao encontro dela, tomou a sua mão e dançou com ela. Não quis dançar com mais ninguém e não largou a mão dela, e quando outro chegava para convidá-la, ele dizia:

— Esta é a minha dama.

Cinderela, de vestido azul e dourado, dança de mãos dadas com o filho do rei num salão de castelo iluminado por velas, cercada por casais que dançam ao redor.

Ela dançou até anoitecer e então quis ir para casa. Mas o filho do rei disse:

— Eu vou junto e acompanho você.

Ele queria ver de que casa era aquela moça bonita. Ela, porém, escapou dele e pulou para dentro do pombal. O filho do rei esperou até o pai dela chegar e contou a ele que a moça desconhecida tinha pulado para dentro do pombal. O velho pensou: “Será que é a Cinderela?” Tiveram que trazer para ele um machado e uma enxada, para que pudesse derrubar o pombal, mas não havia ninguém lá dentro. E quando entraram em casa, Cinderela estava deitada nas cinzas com a sua roupa suja, e uma lamparina fraca ardia na chaminé. É que Cinderela tinha pulado depressa pelos fundos do pombal e tinha corrido até a aveleira: ali tirou as roupas bonitas e as deixou sobre o túmulo, o passarinho as levou de volta, e ela então foi sentar nas cinzas da cozinha com o seu vestidinho cinzento.

No dia seguinte, quando a festa recomeçou e os pais e as irmãs já tinham saído, Cinderela foi até a aveleira e disse:

Arvorezinha, sacode a rama,joga ouro e prata em quem te chama.

Dessa vez o passarinho jogou lá de cima um vestido ainda mais imponente que o do dia anterior. E quando ela apareceu na festa com aquele vestido, todo mundo ficou espantado com a sua beleza. O filho do rei tinha esperado até ela chegar, tomou logo a sua mão e dançou só com ela. Quando os outros vinham convidá-la, ele dizia:

— Esta é a minha dama.

Quando anoiteceu, ela quis ir embora, e o filho do rei foi atrás dela para ver em que casa ela entrava. Mas ela escapou dele e correu para o quintal atrás da casa. Ali havia uma árvore grande e bonita, carregada das peras mais lindas, e ela subiu por entre os galhos ágil como um esquilo, e o filho do rei não soube para onde ela tinha ido. Ele esperou até o pai dela chegar e disse a ele:

— A moça desconhecida me escapou, e eu acho que ela pulou para cima da pereira.

O pai pensou: “Será que é a Cinderela?” Mandou buscar o machado e derrubou a árvore, mas não havia ninguém nela. E quando foram até a cozinha, Cinderela estava deitada nas cinzas como sempre, porque tinha pulado do outro lado da árvore, tinha devolvido as roupas bonitas ao passarinho da aveleira e tinha vestido de novo o seu vestidinho cinzento.

No terceiro dia, quando os pais e as irmãs saíram, Cinderela foi outra vez até o túmulo da mãe e disse à arvorezinha:

Arvorezinha, sacode a rama,joga ouro e prata em quem te chama.

Dessa vez o passarinho jogou lá de cima um vestido mais magnífico e brilhante do que qualquer outro que ela já tivesse usado, e os sapatinhos eram todos de ouro. Quando ela chegou à festa com aquele vestido, ninguém sabia o que dizer, de tanta admiração. O filho do rei dançou só com ela, e quando alguém a convidava, ele dizia:

— Esta é a minha dama.

Quando anoiteceu, Cinderela quis ir embora, e o filho do rei quis acompanhá-la, mas ela fugiu tão depressa que ele não conseguiu segui-la. Só que o filho do rei tinha usado uma astúcia: tinha mandado passar piche na escada inteira. Assim, na hora em que ela desceu correndo, o sapatinho esquerdo da moça ficou grudado ali. O filho do rei pegou o sapatinho, que era pequeno, delicado e todo de ouro. Na manhã seguinte foi com ele até o homem e disse:

— Nenhuma outra vai ser minha esposa a não ser aquela em cujo pé este sapato de ouro servir.

Cinderela foge com um pé descalço por uma escada de pedra à noite, deixando um sapatinho dourado preso numa mancha escura de piche no degrau.

As duas irmãs ficaram contentes, porque tinham pés bonitos. A mais velha levou o sapato para o quarto para experimentá-lo, e a mãe ficou ali do lado. Mas o dedão não entrava de jeito nenhum, e o sapato era pequeno demais para ela. Então a mãe lhe estendeu uma faca e disse:

— Corte o dedo fora. Quando você for rainha, não vai mais precisar andar a pé.

A moça cortou o dedo fora, forçou o pé para dentro do sapato, engoliu a dor e saiu para se apresentar ao filho do rei. Ele a levou consigo no cavalo como sua noiva e partiu com ela. Mas eles tiveram que passar pelo túmulo, e ali estavam as duas pombinhas na aveleira, que chamaram:

Rucu, rucu, rucu, olha lá,sangue no sapato está.O pé no sapato não passa,a noiva certa está lá em casa.

Ele olhou para o pé dela e viu o sangue escorrendo. Virou o cavalo, levou a noiva falsa de volta para casa e disse que aquela não era a certa: a outra irmã é que devia calçar o sapato. Essa foi para o quarto e conseguiu enfiar os dedos no sapato, mas o calcanhar era grande demais. Então a mãe lhe estendeu uma faca e disse:

— Corte um pedaço do calcanhar. Quando você for rainha, não vai mais precisar andar a pé.

A moça cortou um pedaço do calcanhar, forçou o pé para dentro do sapato, engoliu a dor e saiu para se apresentar ao filho do rei. Ele a levou consigo no cavalo como sua noiva e partiu com ela. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas estavam lá em cima e chamaram:

Rucu, rucu, rucu, olha lá,sangue no sapato está.O pé no sapato não passa,a noiva certa está lá em casa.

Ele baixou os olhos para o pé dela e viu o sangue escorrendo do sapato e subindo todo vermelho pela meia branca. Então virou o cavalo e levou a noiva falsa de volta para casa.

— Esta também não é a certa — disse ele. — Vocês não têm outra filha?

— Não — disse o homem. — Só ficou por aí uma Cinderela pequena e mirrada, filha da minha falecida mulher. Essa não pode de jeito nenhum ser a noiva.

O filho do rei mandou que a chamassem, mas a mãe respondeu:

— Ah, não, ela é suja demais, não pode nem se mostrar.

Ele fez questão de vê-la, e Cinderela teve que ser chamada. Ela primeiro lavou bem as mãos e o rosto, depois foi até lá e se curvou diante do filho do rei, que lhe estendeu o sapato de ouro. Então ela sentou num banquinho, tirou o pé do tamanco pesado de madeira e o enfiou no sapatinho, que ficou como se tivesse sido feito para ela. E quando ela se levantou e o filho do rei olhou o seu rosto, reconheceu a moça bonita que tinha dançado com ele e exclamou:

— Esta é a noiva certa!

Cinderela, sentada, calça sozinha o sapatinho dourado; o filho do rei observa de pé ao lado, e as duas irmãs olham pálidas pela porta.

A madrasta e as duas irmãs levaram um susto e ficaram pálidas de raiva. Ele, porém, levou Cinderela no cavalo e partiu com ela. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas brancas chamaram:

Rucu, rucu, rucu, olha lá,sangue no sapato não está.O pé no sapato bem passa,a noiva certa ele leva pra casa.

E, depois de chamarem assim, as duas desceram voando e pousaram nos ombros de Cinderela, uma à direita, a outra à esquerda, e ali ficaram.

Quando chegou o dia do casamento com o filho do rei, as irmãs falsas apareceram, querendo bajular Cinderela e ter a sua parte naquela felicidade. Na hora em que os noivos entraram na igreja, a mais velha ia à direita e a mais nova à esquerda: então as pombas bicaram um olho de cada uma. Depois, quando eles saíram, a mais velha ia à esquerda e a mais nova à direita: então as pombas bicaram o outro olho de cada uma. E assim, pela sua maldade e pela sua falsidade, as duas foram castigadas com a cegueira para o resto da vida.

Recontado pela Talerie, Fonte: Kinder- und Hausmärchen (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público