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Uma galinha de avental branco ergue um pão redondo e fumegante ao entardecer; quatro pintinhos aos seus pés e, atrás da cerca, um porco, uma gata e um rato.

A Galinha Ruiva

Autor desconhecido

7 min de leituraa partir dos 3 anos

Uma galinha ruiva acha um grão de trigo no terreiro e faz sozinha todo o trabalho, do plantio ao pão, porque ninguém na fazenda quer ajudar. Quando os pães saem do forno, douradinhos, o porco, a gata e o rato querem comer, mas a galinha ruiva responde que quem come o pão é ela.


Numa fazenda sossegada morava uma galinha ruiva. Passava o dia inteiro indo de um lado para o outro no seu passinho miúdo, ciscando o terreiro atrás de minhocas.

Gostava de minhocas gordas e achava que não havia nada melhor para a saúde dos filhotes. Toda vez que achava uma, chamava a ninhada:

— Có, có, có!

Os pintinhos vinham correndo de todos os cantos, e ela repartia o achado em pedacinhos, um para cada bico. Não parava um minuto, aquela galinha.

A gata, essa cochilava na porta do celeiro e nem se dava ao trabalho de espantar o rato, que corria por onde bem entendia. E o porco, no chiqueiro, não queria saber de nada: para ele bastava comer e engordar.

Curvada no terreiro de terra batida, a galinha de avental bica o chão diante de quatro pintinhos amarelos; ao fundo, uma gata malhada dorme na palha.

Uma manhã, a galinha ruiva achou uma sementinha no chão. Era um grão de trigo, mas ela vivia tão acostumada com minhocas e bichinhos que imaginou ter encontrado algum petisco novo.

Bicou o grão de leve. Não tinha gosto de minhoca nenhuma, embora fosse comprido e fininho igualzinho a uma.

Levou o grão de um canto a outro, perguntando a todo mundo o que seria aquilo. Foi assim que ficou sabendo: era trigo. Plantado, cresce; quando amadurece, é moído no moinho e vira farinha; e da farinha se faz o pão.

Se era assim, o grão precisava ser plantado. Só que a galinha ruiva vivia ocupada procurando comida para ela e para os filhotes, e não podia parar justo agora.

Pensou então no porco, que tinha o dia inteiro para não fazer nada, na gata, que também não fazia nada, e no rato gordo, que só sabia passear. Aí chamou bem alto:

— Quem vai plantar o grão de trigo?

— Eu não — disse o porco.

— Eu não — disse a gata.

— Eu não — disse o rato.

No terreiro, a galinha ergue um grãozinho na ponta da asa; à frente, o porco deitado de barriga para cima, o rato sentado ao lado e a gata dormindo na cerca.

— Pois então eu mesma faço — disse a galinha ruiva.

E foi o que ela fez.

Depois voltou à lida de sempre, ciscando atrás de minhocas e cuidando da ninhada, enquanto o verão passava comprido e quente. O porco engordava, a gata engordava, o rato engordava, e o trigo crescia alto e dourado.

Numa dessas manhãs, a galinha ruiva reparou no tamanho do trigo e viu que os grãos já estavam maduros. Saiu correndo pelo terreiro, chamando:

— Quem vai colher o trigo?

— Eu não — disse o porco.

— Eu não — disse a gata.

— Eu não — disse o rato.

— Pois então eu mesma faço — disse a galinha ruiva.

E foi o que ela fez.

Entrou no celeiro, achou a foice entre as ferramentas do fazendeiro e cortou o pé de trigo inteirinho, talo por talo.

Em pé no trigal maduro, a galinha segura uma foice numa asa e um punhado de talos na outra; ao longe, um celeiro de madeira entre árvores.

O trigo ficou deitado no chão, pronto para ser recolhido e debulhado. Só que, bem nessa hora, os pintinhos mais novos, aqueles amarelinhos de penugem macia, começaram um piu-piu-piu daqueles, anunciando ao mundo e principalmente à mãe que estavam largados.

Coitada da galinha ruiva. Ficou sem saber para que lado correr, dividida entre os filhos e o trigo, pelo qual também se sentia responsável.

Mesmo assim, ainda cheia de esperança, chamou outra vez:

— Quem vai debulhar o trigo?

— Eu não — grunhiu o porco.

— Eu não — miou a gata.

— Eu não — guinchou o rato.

A galinha ruiva olhou para o trigo, olhou para os pintinhos e suspirou.

— Pois então eu mesma faço — disse a galinha ruiva.

E foi o que ela fez.

Antes, é claro, deu comida aos filhotes e esperou que todos pegassem no sono para a soneca da tarde. Só depois foi debulhar o trigo. Quando terminou, chamou de novo:

— Quem vai levar o trigo ao moinho?

Os três viraram as costas, achando a maior graça.

— Eu não — disse o porco.

— Eu não — disse a gata.

— Eu não — disse o rato.

— Pois então eu mesma faço — disse a galinha ruiva.

E foi o que ela fez.

Pôs o saco de trigo nas costas e foi andando até o moinho, que ficava longe. Lá pediu ao moleiro que moesse tudo, e o trigo virou uma farinha branca e macia. Na volta, a galinha ruiva veio devagarinho pelo mesmo caminho, no seu passinho miúdo.

Mesmo carregada, ainda bicou uma minhoca ou outra pelo caminho e guardou uma inteira para os filhotes. Aquelas bolinhas de penugem ficaram contentíssimas ao ver a mãe chegando. Pela primeira vez, deram valor a ela.

Depois de um dia daqueles, a galinha ruiva foi dormir mais cedo que de costume, antes mesmo de o céu se pintar de laranja, que era a hora em que ela sempre se recolhia.

De manhã bem que queria ficar na cama, mas os pintinhos começaram a piar todos juntos e acabaram com qualquer esperança de dormir até mais tarde.

Ainda com um olho aberto e outro fechado, lembrou-se: hoje aquele trigo precisava virar pão, de um jeito ou de outro.

Nunca tinha feito pão na vida. Mas pão qualquer um faz, desde que siga a receita com cuidado, e ela sabia muito bem que daria conta.

Assim que os filhotes comeram e ficaram limpinhos para o dia, ela foi procurar o porco, a gata e o rato. Como ainda confiava que aqueles três um dia iam ajudá-la, chamou:

— Quem vai fazer o pão?

— Eu não — disse o porco.

— Eu não — disse a gata.

— Eu não — disse o rato.

Mais uma vez a esperança da galinha ruiva foi por água abaixo.

— Pois então eu mesma faço — disse a galinha ruiva.

E foi o que ela fez.

Vestiu um avental limpo e uma touca de cozinheira sem uma mancha. Primeiro preparou a massa e deixou crescer, como manda a receita. Na hora certa, trouxe a tábua, sovou a massa, dividiu em pães e levou tudo ao forno.

Enquanto isso, a gata ficava ali sentadinha, dando risadinhas.

Pertinho dali, o rato, todo vaidoso, passava pó de arroz no focinho e se admirava no espelho.

De touca de cozinheira, a galinha sova a massa numa mesa enfarinhada, à luz de um lampião; perto dela, a gata ri e o rato se admira num espelho de mão.

E, mais longe, ouviam-se os roncos compridos do porco dormindo.

Até que chegou o grande momento. Um cheiro delicioso saiu pela janela e se espalhou com a brisa de outono. No terreiro inteiro, cada bicho parou o que estava fazendo e farejou o ar, de água na boca.

A galinha ruiva veio no seu passinho miúdo até o terreiro, ver aquele alvoroço. Por fora parecia calma, mas por dentro mal se segurava para não cantar e dançar, porque o trabalho daquele pão tinha sido todinho dela.

Não é de espantar que fosse a mais animada do terreiro.

E olha que ela nem sabia se o pão ia ficar bom de comer. E que alegria: quando os pães saíram do forno, douradinhos, estavam perfeitos.

Então, mais por costume do que por outra coisa, a galinha ruiva chamou:

— Quem vai comer o pão?

Os bichos do terreiro olhavam com fome, lambendo os beiços.

— Eu sim! — disse o porco.

— Eu sim! — disse a gata.

— Eu sim! — disse o rato.

Mas a galinha ruiva respondeu:

— Não, vocês não. Eu sim.

E foi o que ela fez.

Recontado pela Talerie, Fonte: The Little Red Hen (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público