OriginalJoão Felizardo
11 min de leitura a partir dos 4 anos talerie.com/pt/contos/joao-felizardo-original
Depois de sete anos de serviço, João ganha do patrão um pedaço de ouro tão grande quanto a própria cabeça. O ouro aperta o ombro, e na estrada passa um cavaleiro disposto a trocar o cavalo pelo embrulho. João aceita todo contente, e a cada encontro no caminho surge uma troca que parece ainda melhor.
Era uma vez um rapaz chamado João que tinha servido sete anos na casa de um patrão. Quando os sete anos se completaram, foi falar com ele:
— Patrão, meu tempo acabou. Agora eu queria voltar para casa, para junto da minha mãe. O senhor me dá o meu pagamento?
— Você me serviu com lealdade e honestidade — respondeu o patrão. — Como foi o serviço, assim vai ser o pagamento.
E deu a ele um pedaço de ouro tão grande quanto a cabeça de João. João tirou o lenço do bolso, embrulhou o ouro, pôs o embrulho no ombro e pegou a estrada de casa. Ia andando assim, um pé depois do outro, quando viu um cavaleiro que passava trotando, alegre e bem-disposto, num cavalo cheio de vida.
— Ah — disse João em voz alta —, que coisa boa é andar a cavalo! A pessoa vai sentada como numa cadeira, não tropeça em pedra nenhuma, poupa os sapatos e chega aonde quer sem nem saber como.
O cavaleiro, que tinha ouvido tudo, parou e gritou:
— Ei, João, por que você está indo a pé?
— Porque não tem outro jeito — respondeu João. — Tenho que levar este pedaço para casa. É ouro, é verdade, mas com ele não consigo manter a cabeça reta, e ainda por cima ele me aperta o ombro.
— Sabe de uma coisa? — disse o cavaleiro. — Vamos fazer uma troca: eu te dou o meu cavalo, e você me dá o seu pedaço de ouro.
— De todo o coração — disse João. — Mas já vou avisando: o senhor vai penar para carregar isso.
O cavaleiro desceu, pegou o ouro e ajudou João a montar. Pôs as rédeas bem firmes nas mãos dele e disse:
— Se quiser que ele corra mais depressa, é só estalar a língua e gritar “eia, eia!”.
João ficou feliz da vida quando se viu montado, cavalgando solto e à vontade pela estrada. Depois de um tempo, achou que podia ir mais depressa ainda: começou a estalar a língua e a gritar “eia, eia!”. O cavalo disparou num trote forte e, antes que João percebesse, já o tinha jogado longe. Lá estava ele, caído numa vala que separava os campos da estrada.
O cavalo teria fugido, se não fosse um camponês que vinha pelo caminho tocando uma vaca e o segurou. João se recompôs como pôde e ficou de pé outra vez. Mas estava de mau humor e disse ao camponês:
— Que brincadeira sem graça, essa de andar a cavalo! Ainda mais quando a gente pega uma égua como esta, que dá pinote e joga a pessoa no chão, capaz de quebrar o pescoço de alguém. Nunca mais monto nisso, nunca mais. Bom mesmo é uma vaca como a do senhor: a pessoa vai atrás dela com toda a calma e ainda tem leite, manteiga e queijo garantidos todo santo dia. O que eu não daria para ter uma vaca assim!

— Pois bem — disse o camponês —, se isso agrada tanto ao senhor, eu troco a vaca pelo cavalo.
João aceitou na hora, todo contente. O camponês pulou no cavalo e foi embora a galope.
João seguiu tocando a vaca com toda a calma, pensando no bom negócio que tinha feito.
“Se eu tiver um pedaço de pão, e pão não vai me faltar, posso comer manteiga e queijo com ele sempre que tiver vontade. Se tiver sede, tiro leite da minha vaca e bebo. O que mais eu posso querer?”, pensava.
Quando chegou a uma estalagem, parou e, de tanta alegria, comeu tudo o que levava, o almoço e o jantar, sem deixar nada. Com as últimas moedinhas que tinha, pediu meio copo de cerveja. Depois seguiu tocando a vaca, sempre na direção da aldeia da mãe.
Perto do meio-dia, o calor foi ficando cada vez mais abafado, e João estava num descampado que ainda ia levar uma boa hora para atravessar. Estava com tanto calor e tanta sede que a língua grudava no céu da boca.
“Isso tem jeito”, pensou João. “Vou tirar leite da minha vaca e matar a sede.”
Amarrou a vaca numa árvore seca e, como não tinha balde, pôs o boné de couro embaixo dela. Mas, por mais que se esforçasse, não saía uma gota de leite. E como ele era muito desajeitado, o bicho, sem paciência, acabou dando um coice com uma das patas de trás bem na cabeça dele, tão forte que João cambaleou, caiu no chão e ficou um bom tempo sem saber onde estava.
Por sorte, vinha passando bem nessa hora um açougueiro que levava um porquinho deitado num carrinho de mão.
— Mas que história é essa? — exclamou o açougueiro, e ajudou João a se levantar.
João contou o que tinha acontecido. O açougueiro lhe passou a garrafa e disse:
— Tome um gole e se recupere. Essa vaca não vai dar leite nenhum, é um animal velho. No máximo serve para puxar carroça ou para o abate.

— Ora, ora — disse João, passando a mão pelos cabelos —, quem diria! É claro que é bom ter um bicho desses para matar em casa, quanta carne ele dá! Mas eu não ligo muito para carne de vaca, acho pouco suculenta. Agora, um porquinho novo como esse, sim! Tem outro gosto, e ainda dá linguiça.
— Escute, João — disse então o açougueiro —, só para agradar o senhor, eu faço a troca: fico com a vaca e lhe deixo o porquinho.
— Deus lhe pague pela amizade — disse João.
Entregou a vaca, pediu ao açougueiro que soltasse o porquinho do carrinho e pegou na mão a corda em que o bicho estava amarrado.
João seguiu em frente pensando em como tudo dava certo para ele: se aparecia algum aborrecimento, logo tudo se ajeitava de novo. Pouco depois, um rapaz se juntou a ele na estrada. Levava debaixo do braço um belo ganso branco. Os dois se cumprimentaram, e João começou a falar da própria sorte e de como sempre tinha feito trocas vantajosas. O rapaz contou que estava levando o ganso para a festa de um batizado.
— Experimente levantar — continuou o rapaz, pegando o ganso pelas asas. — Veja como é pesado! Também, passou oito semanas sendo engordado. Quem morder esse assado vai ter que limpar a gordura dos dois lados da boca.
— É mesmo — disse João, pesando o ganso numa das mãos —, ele tem o seu peso. Mas o meu porquinho também não é de se jogar fora.
Enquanto isso, o rapaz olhava para todos os lados, muito desconfiado, e de vez em quando balançava a cabeça.
— Escute — começou ele por fim —, acho que tem alguma coisa errada com esse seu porquinho. Na aldeia por onde eu passei, acabaram de roubar um porco do chiqueiro do prefeito. Tenho medo, tenho muito medo de que seja justamente esse que o senhor leva na mão. Mandaram gente atrás do ladrão, e seria um mau negócio se pegassem o senhor com ele. O mínimo que pode acontecer é jogarem o senhor numa cela escura.
O bom João ficou com medo.
— Ai, meu Deus — disse ele —, me tire dessa enrascada! Você conhece estas bandas melhor do que eu. Fique com o meu porquinho e me dê o seu ganso.
— Vou ter que correr um risco — respondeu o rapaz —, mas não quero ter culpa de o senhor se dar mal.
Então pegou a corda e tocou o porquinho depressa por uma trilha que saía da estrada. O bom João, livre das preocupações, seguiu para casa com o ganso debaixo do braço.
— Pensando bem — disse ele consigo mesmo —, ainda saí ganhando nessa troca. Primeiro, o assado gostoso. Depois, toda a gordura que vai escorrer dele, que dá para passar no pão por três meses. E por fim, as lindas penas brancas: vou mandar pôr no meu travesseiro, e nele vou dormir sem precisar de ninguém para me ninar. Que alegria a minha mãe vai ter!
Quando atravessou a última aldeia, deu com um amolador parado junto do carrinho de amolar. A roda zunia, e ele cantava junto:
Amolo a tesoura e giro sem parar, e viro a capinha pra onde o vento soprar.

João parou e ficou olhando. Por fim, puxou conversa:
— O senhor deve estar bem de vida, para amolar assim tão alegre.
— Estou, sim — respondeu o amolador. — Este ofício é uma mina de ouro. Um bom amolador é um homem que, toda vez que enfia a mão no bolso, encontra dinheiro lá dentro. Mas onde foi que o senhor comprou esse ganso tão bonito?
— Não comprei, troquei pelo meu porquinho.
— E o porquinho?
— Ganhei em troca de uma vaca.
— E a vaca?
— Peguei em troca de um cavalo.
— E o cavalo?
— Por ele eu dei um pedaço de ouro do tamanho da minha cabeça.
— E o ouro?
— Ah, era o meu pagamento por sete anos de serviço.
— O senhor sempre soube se virar — disse o amolador. — Agora, se conseguir ouvir o dinheiro pulando no bolso toda vez que se levantar, sua sorte está feita.
— E como é que eu faço isso? — perguntou João.
— O senhor tem que virar amolador, como eu. Para isso não precisa de quase nada, só de uma pedra de amolar; o resto vem sozinho. Eu tenho uma aqui. Está meio gasta, é verdade, mas em troca o senhor não precisa me dar nada além do seu ganso. Quer?
— E o senhor ainda pergunta? — respondeu João. — Vou ser o homem mais feliz da terra! Se eu encontrar dinheiro toda vez que puser a mão no bolso, por que vou me preocupar com mais alguma coisa?
Entregou o ganso e recebeu a pedra de amolar.
— Pois bem — disse o amolador, levantando do chão uma pedra do campo, comum e pesada, que estava ali ao lado —, leve também esta aqui, que é bem firme: serve para bater em cima, e nela o senhor pode endireitar os seus pregos velhos. Tome, e guarde direitinho.
João pôs as pedras nas costas e seguiu adiante, de coração contente. Os olhos dele brilhavam de alegria.
— Eu devo ter nascido virado para a lua! — exclamou. — Tudo o que eu desejo se realiza!
Mas, como estava de pé desde o raiar do dia, começou a se cansar. A fome também o atormentava, porque, de tanta alegria com a vaca, tinha comido de uma vez toda a comida que levava. No fim, só conseguia andar com muito custo e precisava parar a todo instante, e as pedras pesavam que dava dó. Não parava de pensar em como seria bom não ter que carregá-las justo agora.
Devagar como uma lesma, chegou a um poço no meio do campo. Queria descansar ali e beber um gole de água fresca. Para não estragar as pedras quando se sentasse, pôs as duas com cuidado na beirada do poço, bem ao lado de onde ia se sentar. Depois se sentou e se curvou para beber, mas se distraiu, esbarrou nelas de leve, e as duas pedras despencaram lá para o fundo.

Quando viu com os próprios olhos as pedras afundarem, João deu um pulo de alegria. Depois se ajoelhou e, com lágrimas nos olhos, agradeceu a Deus por lhe ter feito também essa graça e por tê-lo livrado, de um jeito tão bom e sem que ele tivesse culpa nenhuma, das pedras pesadas, a única coisa que ainda o atrapalhava.
— Não existe debaixo do sol ninguém com tanta sorte quanto eu! — exclamou.
E, com o coração leve e livre de todo peso, saiu correndo até chegar em casa, junto da mãe.
Recontado pela Talerie, fonte: Kinder- und Hausmärchen (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)

