
Momotaro, o Menino Pêssego
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Uma velhinha pega no rio um pêssego enorme, e de dentro da fruta sai um menino, que ela e o marido criam como o filho da velhice. Aos quinze anos, Momotaro parte para a ilha dos ogros com um cachorro, um macaco e um faisão, e volta com o tesouro do castelo e o chefe dos ogros como prisioneiro.
Era uma vez, muito tempo atrás, um velhinho e uma velhinha que moravam numa casa pequena, no pé da montanha. Eram lavradores e trabalhavam de sol a sol para ter o arroz de cada dia.
Filhos, não tinham. E essa era a tristeza dos dois. De dia e de noite eles choravam baixinho por não ter uma criança para alegrar a casa e amparar a velhice.
Numa manhã de quase verão, o velhinho pegou a foice e subiu o morro para cortar capim. A velhinha juntou a roupa numa cesta de bambu e desceu até o rio.
A água corria tão limpa que dava para ver as pedrinhas do fundo. Ela se ajoelhou na margem e foi esfregando as peças nas pedras, uma a uma.
De repente, um pêssego enorme veio boiando rio abaixo, batendo de leve nas pedras. A velhinha tinha sessenta anos e nunca na vida tinha visto um pêssego daquele tamanho.
— Que pêssego lindo! — disse ela consigo mesma. — Vou pegar e levar para o meu velho.
Esticou o braço, mas a fruta passava longe demais. Procurou um galho pela beirada e não achou nenhum, e se fosse buscar, perdia o pêssego de vista.

Então se lembrou de um versinho antigo. Começou a bater palmas no compasso da fruta que rolava na correnteza e cantou:
Água de longe é amarga,água de perto é doce.Passa ao largo da amargae vem para a doce.
Pois não é que o pêssego foi chegando mais e mais perto da margem, até parar bem na frente dela, quietinho, para que ela o pegasse com as duas mãos.
A velhinha ficou tão contente que nem terminou o serviço. Guardou tudo na cesta e voltou depressa para casa, com o pêssego no colo.
A espera pareceu não ter fim. O velhinho só chegou quando o sol se punha, com um feixe de capim tão grande nas costas que quase não dava para vê-lo.
— Que demora! — chamou ela da porta. — Esperei o dia inteiro para te mostrar uma coisa.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou o velhinho, estranhando aquela pressa.
— Nada de mau. É que eu achei um presente para você.
A velhinha correu para dentro e voltou com o pêssego nos braços. Parecia ainda mais pesado do que de manhã.
— Olha só isto! Você já viu um pêssego desse tamanho na sua vida?
— Nunca — disse o velhinho, de olhos arregalados. — Onde foi que você comprou?
— Não comprei — respondeu a velhinha. — Achei no rio, enquanto lavava.
E contou a história inteira.
— Que sorte a nossa. Vamos comer agora, que eu estou com fome — disse ele.
O velhinho pegou a faca da cozinha, pôs o pêssego na tábua e já ia cortar quando a fruta se abriu sozinha, em duas metades certinhas, e uma voz clara falou lá de dentro:
— Espere um pouquinho, vovô!
E do pêssego saiu um menino lindo de se ver.
Os dois se assustaram tanto que caíram sentados no chão. Mas o menino falou de novo, com uma voz mansa:
— Não tenham medo. Não sou assombração nem coisa de outro mundo. O Céu teve compaixão de vocês: todas as noites vocês choraram por não ter um filho, e esse choro foi ouvido. Eu fui mandado para ser o filho da velhice de vocês.

Os velhinhos não cabiam em si de alegria. Cada um pegou o menino no colo, e deram a ele o nome de Momotaro, que quer dizer Filho do Pêssego, porque de um pêssego ele tinha saído.
Os anos passaram depressa e o menino chegou aos quinze. Era mais alto e muito mais forte do que qualquer rapaz da idade dele, e tinha um juízo que ninguém esperava de alguém tão novo. Os velhinhos olhavam para ele e viam um herói.
Um dia Momotaro procurou o pai adotivo e falou com muita seriedade:
— Pai, foi um acaso estranho que fez de nós pai e filho. A bondade do senhor comigo é mais alta que o capim da montanha e mais funda que o rio onde a minha mãe lava a roupa. Não sei como agradecer.
— Ora essa — respondeu o velhinho, meio sem jeito. — Criar um filho é obrigação de pai. Quando você for grande, cuida da gente, e ficamos quites.
— Então tenha paciência comigo. Antes de pagar essa bondade, eu tenho um pedido, e é o que eu mais quero no mundo: me deixe partir hoje mesmo.
— Partir? Você quer deixar o seu pai e a sua mãe e sair de casa?
— Eu volto, prometo. Só me deixe ir agora.
— E para onde?
— O senhor deve achar estranho, mas é que eu ainda não contei o motivo. Longe daqui, para o nordeste, há uma ilha no meio do mar, e é ali que se esconde um bando de ogros. Eles atravessam a água, invadem as nossas terras, roubam, matam e devoram os que caem nas mãos deles, e não respeitam ninguém, nem as leis do Imperador. Eu vou lá, vou vencer esses ogros e trazer de volta tudo o que eles tiraram desta terra.
O velhinho se espantou de ouvir aquilo de um rapaz de quinze anos, mas pensou bem e resolveu deixar. O filho era forte, não conhecia o medo e tinha chegado como um presente do Céu.
— Vá, meu filho — disse o velhinho. — Não vou atrapalhar a sua decisão. Vá para a ilha, acabe com essa praga e traga paz para a nossa terra.
Naquele mesmo dia os dois velhinhos socaram arroz no pilão da cozinha e fizeram bolinhos para a viagem. Momotaro guardou tudo na sacola.
Despedida é sempre triste. Os olhos dos velhinhos se encheram de água e a voz tremeu:
— Vá com cuidado e volte logo. A gente espera você vitorioso.

— Cuidem-se bem enquanto eu estiver fora. Até logo!
E saiu. Na porta, os três se olharam em silêncio, e isso foi a despedida.
Momotaro andou a manhã inteira. Ao meio-dia sentiu fome, sentou-se debaixo de uma árvore na beira da estrada e tirou um bolinho de arroz da sacola.
Nisso, do meio do capim alto, saiu um cachorro do tamanho de um potro. Veio direto nele, mostrando os dentes:
— Que atrevimento, passar pelo meu campo sem pedir licença. Me deixe todos os bolinhos que você tem aí e siga o seu caminho. Se não deixar, você vai se ver comigo.

Momotaro riu sem se abalar.
— Você sabe com quem está falando? Eu sou Momotaro, e estou a caminho da Ilha dos Ogros, para acabar com o bando que se esconde lá. Se tentar me segurar, vai se arrepender.
O cachorro mudou na mesma hora. O rabo desceu entre as pernas, ele chegou perto devagar e abaixou a cabeça até encostar a testa no chão.
— Momotaro? O senhor é mesmo o Momotaro? Já ouvi falar tanto da sua força, e me comportei feito bobo porque não sabia quem era. Me leve com o senhor, mesmo sendo um sujeito rude como eu.
— Pode vir comigo, se é isso que você quer — disse Momotaro.
— Obrigado! Mas eu estou com muita fome. O senhor me dá um daqueles bolinhos?
— Este é o melhor bolinho de arroz do Japão — respondeu Momotaro. — Um inteiro eu não posso dar. Dou metade.
— Metade está ótimo — disse o cachorro, e abocanhou o pedaço no ar.
Seguiram juntos por morros e vales. Um pouco adiante, um bicho desceu de uma árvore e veio saltando até eles.
— Bom dia, Momotaro! Seja bem-vindo por estas bandas. O senhor me deixa ir junto?
O cachorro respondeu na frente, com ciúme:
— Momotaro já tem um cachorro. Para que serve um macaco numa batalha? Nós vamos lutar com os ogros! Suma daqui.
E os dois partiram um para cima do outro, rosnando e mordendo, porque cachorro e macaco nunca se deram bem.
— Chega de briga! — disse Momotaro, metendo-se entre os dois. — Espere aí, cachorro.
— Não fica bem para o senhor andar com um bicho desses atrás — resmungou o cachorro.
— E você entende disso? — respondeu Momotaro, afastando o cachorro com o braço. Depois se virou para o macaco.
— Quem é você?
— Sou um macaco que mora nestes morros. Fiquei sabendo da sua viagem até a Ilha dos Ogros e vim me oferecer.
— Você quer mesmo ir até lá e lutar do meu lado?
— Quero, sim, senhor.
— Gosto dessa coragem — disse Momotaro. — Tome um pedaço do meu bolinho de arroz e venha com a gente.
Mas cachorro e macaco não se entenderam pelo caminho: iam rosnando um para o outro, sempre a um passo de nova briga. Para acabar com aquilo, Momotaro mandou o cachorro na frente, com a bandeira, pôs o macaco atrás, com a espada, e ficou ele no meio, com um leque de guerra feito de ferro.
Mais adiante, num campo aberto, um pássaro desceu e pousou bem na frente do grupo: tinha cinco mantos de penas de cores diferentes e uma crista vermelha.
O cachorro avançou na mesma hora para pegar o pássaro. Mas o bicho se defendeu com as esporas e voou em cima dele, e a briga ficou dura para os dois.
Momotaro não conseguia deixar de admirar aquela ave, que lutava com uma bravura de dar gosto. Ia dar um bom guerreiro.
Ele chegou perto dos dois, segurou o cachorro e disse:
— Seu atrevido! Você está atrapalhando a minha viagem. Renda-se agora e eu levo você comigo. Se não se render, solto o cachorro em cima de você.
O pássaro se rendeu na mesma hora e pediu para entrar no grupo.
— Não tenho desculpa por ter brigado com o cachorro, mas eu não tinha visto o senhor. Sou apenas um faisão, um bicho à toa. Deixe eu seguir atrás do cachorro e do macaco.
— Parabéns por se render tão depressa — disse Momotaro, sorrindo. — Venha com a gente atacar os ogros.
Então ele parou e deu uma ordem:
— Escutem bem, os três. A primeira coisa que um exército precisa ter é harmonia. De hoje em diante, cachorro, macaco e faisão são amigos e pensam com uma cabeça só. O primeiro que começar uma briga é dispensado ali mesmo.
Os três prometeram. O faisão entrou para o grupo e recebeu meio bolinho de arroz. E tal era a autoridade de Momotaro que dali em diante os três foram bons companheiros.
Dia após dia caminharam, até chegar à praia do Mar do Nordeste. Até onde a vista alcançava não havia sinal de ilha nenhuma, só as ondas quebrando na areia.
Os três tinham atravessado vales e montanhas com muita valentia, mas nunca tinham visto o mar. Ficaram olhando um para a cara do outro, calados.
Momotaro viu que estavam acuados e falou alto, com aspereza:
— Estão com medo da água? Que bando de covardes! Não dá para levar uns fracos desses para enfrentar os ogros. Melhor eu ir sozinho: estão todos dispensados.
Os três levaram um susto com a bronca e se agarraram na manga do quimono dele.
— Por favor, Momotaro! — pediu o cachorro.
— A gente veio de tão longe — disse o macaco.
— Do mar a gente não tem medo nenhum. Leve a gente junto — pediu o faisão.
Como já tinham recobrado um pouco da coragem, Momotaro cedeu.
— Está bem, eu levo vocês. Mas juízo!
Ele arranjou um barco pequeno e todos embarcaram. O vento soprou a favor e o barco voou por cima do mar como uma flecha. No começo os três se assustaram com as ondas, mas foram se acostumando e logo passavam os dias no convés, de olho no horizonte, contando uns para os outros as façanhas de que mais se orgulhavam.

Numa manhã de sol, os quatro que vigiavam na proa avistaram terra.
Momotaro reconheceu na hora a fortaleza dos ogros: no alto de uma costa de pedra havia um castelo enorme, olhando para o mar. Ele ficou calado um bom tempo, pensando em como começar o ataque. Por fim chamou o faisão.
— Ter você conosco é uma grande vantagem — disse a ele. — Você tem asas boas. Voe até o castelo e desafie os ogros para a luta. Nós vamos logo atrás.
O faisão obedeceu na mesma hora. Alcançou a ilha depressa e pousou no meio do telhado do castelo. De lá gritou:
— Ogros, escutem todos! O grande general Momotaro chegou para lutar com vocês e tomar esta fortaleza. Se querem salvar a vida, rendam-se agora, e como prova da rendição quebrem os chifres da própria testa. Se escolherem a luta, nós três, o faisão, o cachorro e o macaco, damos conta de vocês.
Os ogros olharam para cima, viram só um faisão e caíram na gargalhada.
— Um faisão do mato! Que ridículo ouvir uma conversa dessas de um bichinho à toa. Espere só levar uma pancada da nossa barra de ferro!
E estavam furiosos de verdade. Sacudiram os chifres e as cabeleiras vermelhas, vestiram às pressas as calças de pele de tigre para ficarem mais assustadores, pegaram as barras de ferro e correram para derrubar o pássaro que voava por cima das cabeças deles.
Mas o faisão se jogava para o lado a cada golpe e voltava, bicando a cabeça de um, depois a de outro. Voava em roda deles sem parar, até os ogros começarem a se perguntar se era um pássaro só ou um bando inteiro.
Enquanto isso, Momotaro encostou o barco na praia. De perto viu que a costa era um paredão e que o castelo tinha muros altos e portões de ferro, tudo muito bem guardado.
Ele desembarcou e subiu a trilha com o macaco e o cachorro, procurando algum jeito de entrar. No caminho encontraram duas moças lavando roupa num riacho. A roupa estava manchada de sangue e as lágrimas escorriam pelo rosto das duas.
— Quem são vocês? Por que estão chorando? — perguntou ele.
— Somos prisioneiras do rei dos ogros. Fomos tiradas das nossas casas e trazidas para esta ilha. Somos filhas de daimiôs, que são grandes senhores, mas aqui servimos a ele, e um dia ele vai nos matar e nos devorar. E não há ninguém que nos socorra.
E o choro voltou, mais forte.
— Eu tiro vocês daqui — disse Momotaro. — Não chorem mais. Só me mostrem como se entra no castelo.
As duas foram na frente e mostraram uma portinha nos fundos, na parte mais baixa do muro, tão estreita que Momotaro mal conseguiu entrar, rastejando.
O faisão, que até ali não tinha parado de lutar, viu o pequeno bando entrar por trás.

O ataque foi tão forte que os ogros não aguentaram. Antes tinham um pássaro pela frente, e agora eram quatro inimigos que lutavam como se fossem cem. Muitos ogros caíram do alto do muro, outros foram parar no mar, e os três bichos deram conta do resto. Quando a luta acabou, só o chefe continuava de pé.
Ele sabia que estava diante de uma força maior do que a de qualquer homem e resolveu se render. Jogou a barra de ferro no chão, ajoelhou-se aos pés do vencedor e quebrou os próprios chifres, que eram o sinal da sua força.

— Eu tenho medo do senhor — disse ele, manso. — Não consigo enfrentá-lo. Dou todo o tesouro escondido neste castelo, se o senhor me poupar a vida.
Momotaro riu.
— Não combina com você, ogro grande, pedir misericórdia. Por mais que peça, eu não posso poupar a sua vida: faz muitos anos que você mata, maltrata e rouba o povo da nossa terra.
Então Momotaro amarrou o chefe dos ogros e o deixou aos cuidados do macaco.
Depois disso, percorreu todos os cômodos do castelo, soltou os prisioneiros e juntou todo o tesouro que encontrou. O cachorro e o faisão carregaram a carga até o barco, e assim Momotaro voltou vitorioso para casa, levando o chefe dos ogros como prisioneiro.
As duas moças, filhas de daimiôs, e todos os outros que os ogros tinham arrastado para a ilha foram levados em segurança e entregues às suas famílias.
O país inteiro fez de Momotaro um herói. Fazia muitos anos que aquele bando era o terror da região, e agora, enfim, a terra estava livre.
E a alegria dos dois velhinhos foi maior do que nunca. Com o tesouro que o filho trouxe, eles viveram em paz e com fartura até o fim dos seus dias.
Recontado pela Talerie, Fonte: Japanese Fairy Tales (abre em uma nova janela)
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