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Um rapaz de faixa branca na testa ergue um leque de ferro na estrada; o cão leva uma bandeira na boca, o macaco uma espada e um faisão voa acima dos arrozais.Original

Momotaro, o Menino Pêssego

Autor desconhecido

23 min de leituraa partir dos 6 anos

Uma velha tira do rio um pêssego enorme, e de dentro da fruta sai um menino que ela e o marido criam como filho. Aos quinze anos Momotaro navega até a ilha dos ogros com um cachorro, um macaco e um faisão, vence o chefe deles, solta os prisioneiros e volta com o tesouro para os dois velhos.


Há muito, muito tempo, viviam num vilarejo do Japão um velho e uma velha. Eram lavradores e trabalhavam duro para ganhar o arroz de cada dia. O velho saía para cortar capim nas terras dos fazendeiros da redondeza e, enquanto ele estava fora, a velha cuidava da casa e do arrozal pequenininho que era dos dois.

Certa manhã, o velho subiu o morro como sempre, para cortar capim, e a velha juntou umas roupas e desceu até o rio, para lavar.

O verão já estava chegando e o campo era uma beleza de se ver, todo verde e novo, enquanto os dois seguiam para o trabalho. O capim das margens parecia veludo cor de esmeralda, e os salgueiros da beira d’água sacudiam seus botões felpudos.

A brisa soprava e encrespava a superfície lisa do rio em ondinhas e, de passagem, roçava o rosto dos dois velhos, que naquela manhã, sem saber explicar por quê, se sentiam muito felizes.

A velha achou enfim um bom lugar na margem e pousou o cesto. Depois começou o serviço: tirava as roupas do cesto uma a uma, molhava no rio e esfregava nas pedras. A água era tão clara que dava para ver os peixinhos indo e vindo e os seixos lá no fundo.

Estava ela ocupada com a lavagem quando um pêssego enorme veio descendo a correnteza, batendo de leve nas pedras. A velha levantou os olhos do serviço e viu aquela fruta imensa. Tinha sessenta anos e, em toda a vida, nunca tinha visto um pêssego daquele tamanho.

— Que pêssego gostoso deve ser este! — disse ela consigo mesma. — Tenho que pegar e levar para o meu velho.

Esticou o braço para alcançar a fruta, mas ela vinha longe demais. Procurou um galho com os olhos e não achou nenhum; e, se fosse buscar um, perdia o pêssego.

Ajoelhada na margem, uma velha de quimono azul estende as duas mãos para um pêssego gigante que boia na água clara; ao lado dela, um cesto de roupa.

Parou um instante para pensar no que fazer e se lembrou de uma cantiga antiga, dessas que servem para encantar. Começou a bater palmas no compasso da fruta que rolava rio abaixo e, batendo palmas, cantou assim:

Água de longe é amarga,água de perto é doce.Passa ao largo da amargae vem para a doce.

E não é que, mal ela começou a repetir a cantiga, o pêssego foi chegando mais perto, e mais perto, da margem onde a velha estava, até parar bem na frente dela, quietinho, de jeito que ela pôde pegá-lo com as duas mãos. A velha ficou radiante. Estava tão contente e tão agitada que não conseguiu continuar o serviço: guardou as roupas todas no cesto de bambu e, com o cesto nas costas e o pêssego no colo, voltou depressa para casa.

A espera pelo marido pareceu não ter fim. O velho só chegou quando o sol se punha, com um feixe de capim tão grande nas costas que quase sumia atrás dele e mal dava para enxergá-lo. Vinha cansado e usava a foice de bengala, apoiando-se nela a cada passo.

Assim que o viu, a velha chamou da porta:

— Meu velho! Faz um tempão que eu espero você chegar!

— O que foi? Por que essa pressa toda? — perguntou ele, estranhando aquela agitação. — Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava fora?

— Ah, não! — respondeu a velha. — Não aconteceu nada. É que eu achei um presente bonito para você.

— Ótimo — disse o velho. Lavou os pés numa bacia de água e subiu para a varanda.

A velha correu para o quartinho e trouxe do armário o pêssego enorme. Parecia até mais pesado do que de manhã. Ela ergueu a fruta na frente dele e disse:

— Olha só isto! Você já viu um pêssego desse tamanho em toda a sua vida?

Quando o velho olhou para a fruta, ficou pasmo.

— É o maior pêssego que eu já vi! Onde foi que você comprou uma coisa dessas?

— Não comprei — respondeu a velha. — Achei no rio, no lugar onde eu estava lavando.

E contou a história inteira.

— Que bom que você achou. Vamos comer agora, que eu estou com fome — disse o velho.

Ele pegou a faca da cozinha, pôs o pêssego numa tábua e já ia cortar quando, veja só, a fruta se abriu sozinha em duas metades e uma voz bem clara disse:

— Espere um pouco, vovô!

E de dentro saiu uma criança linda.

Os dois se assustaram tanto com o que viram que caíram sentados no chão. A criança falou de novo:

— Não tenham medo. Não sou assombração nem fada. Vou contar a verdade. O Céu teve compaixão de vocês. Todo dia e toda noite vocês se lamentaram por não ter um filho. O choro de vocês foi ouvido, e eu fui mandado para ser o filho da velhice de vocês!

Dentro de um pêssego aberto em duas metades sobre uma tábua, uma criança pequena sentada; de cada lado, o velho e a velha erguem as mãos, de boca aberta.

Ao ouvir aquilo, o velho e a velha ficaram felizes demais. De dia e de noite eles tinham chorado de tristeza por não ter um filho que os amparasse na velhice solitária, e agora que a prece tinha sido atendida não sabiam mais o que fazer de tanta alegria. Primeiro o velho pegou a criança no colo, depois a velha fez o mesmo; e deram a ele o nome de Momotaro, que quer dizer Filho do Pêssego, porque de um pêssego ele tinha saído.

Os anos passaram depressa e o menino chegou aos quinze. Era mais alto e muito mais forte do que qualquer rapaz da idade dele, tinha um rosto bonito e um coração cheio de coragem, e era sensato demais para a idade que tinha. A alegria dos dois velhos era enorme quando olhavam para ele, porque era assim mesmo que os dois imaginavam que devia ser um herói.

Um dia Momotaro procurou o pai adotivo e disse com muita seriedade:

— Pai, por um acaso estranho nós dois viramos pai e filho. A bondade do senhor comigo foi mais alta do que o capim da montanha que o senhor corta todo dia, e mais funda do que o rio onde a minha mãe lava a roupa. Eu não sei como agradecer.

— Ora essa — respondeu o velho. — É obrigação de pai criar o filho. Quando você for mais velho, vai chegar a sua vez de cuidar da gente; no fim das contas ninguém sai ganhando nem perdendo, fica tudo certo entre nós. Para dizer a verdade, até me espanta você me agradecer desse jeito.

E o velho ficou sem jeito.

— Espero que o senhor tenha paciência comigo — disse Momotaro. — Antes de começar a pagar essa bondade toda, eu tenho um pedido a fazer, e é o que eu mais quero no mundo.

— Eu deixo você fazer o que quiser, porque você não é como os outros rapazes.

— Então me deixe partir agora mesmo!

— O que é que você está dizendo? Você quer deixar o seu pai e a sua mãe, já velhos, e ir embora de casa?

— Eu volto, com certeza, se o senhor me deixar ir agora!

— E para onde você vai?

— O senhor deve achar estranho eu querer ir embora — disse Momotaro —, porque eu ainda não contei o motivo. Bem longe daqui, a nordeste do Japão, existe uma ilha no meio do mar. Essa ilha é o esconderijo de um bando de ogros. Já ouvi falar muitas vezes de como eles invadem estas terras, matam e roubam a nossa gente e carregam tudo o que encontram. Não são só malvados: também desobedecem ao Imperador e às leis dele. E são comedores de gente, porque matam e devoram os coitados que têm o azar de cair nas mãos deles. São seres odiosos. Eu preciso ir até lá, vencer esses ogros e trazer de volta tudo o que eles roubaram desta terra. É por isso que eu quero ir embora por um tempo!

O velho se espantou muito de ouvir tudo aquilo de um rapaz de apenas quinze anos, mas achou melhor deixar o menino ir. Momotaro era forte e destemido; e, além disso, o velho sabia que não era uma criança comum, porque tinha chegado a eles como um presente do Céu, e tinha certeza de que os ogros não teriam força para lhe fazer mal.

— Tudo o que você diz é muito sério, Momotaro — falou o velho. — Não vou atrapalhar a sua decisão. Você pode ir. Vá para a ilha assim que quiser, acabe com os ogros e traga paz para a nossa terra.

— Obrigado por toda a sua bondade — disse Momotaro, que começou a se aprontar naquele mesmo dia. Estava cheio de coragem e não sabia o que era medo.

O velho e a velha trataram logo de socar arroz no pilão da cozinha para fazer bolinhos, para Momotaro levar na viagem.

Enfim os bolinhos ficaram prontos e Momotaro estava pronto para começar a longa jornada.

Despedida é sempre triste, e aquela não foi diferente. Os olhos dos dois velhos se encheram de lágrimas e a voz tremeu quando eles disseram:

— Vá com todo o cuidado e volte logo. A gente espera você de volta vitorioso!

Na porta da casa de palha, o velho e a velha, com lágrimas no rosto, entregam uma trouxa branca ao rapaz, que segura o leque de ferro na outra mão.

Momotaro sentiu muito deixar os pais velhos, ainda que soubesse que voltaria assim que pudesse, porque pensava na solidão dos dois enquanto ele estivesse longe. Mesmo assim deu o adeus com coragem:

— Eu vou agora. Cuidem-se bem enquanto eu estiver fora. Até logo!

E saiu depressa de casa. Em silêncio, os olhos de Momotaro encontraram os olhos dos pais, e essa foi a despedida.

Momotaro seguiu caminho depressa até o meio-dia. Começou a sentir fome, abriu a sacola, tirou um dos bolinhos de arroz e sentou-se debaixo de uma árvore na beira da estrada para comer. Estava ele ali almoçando quando um cachorro quase do tamanho de um potro saiu correndo do capim alto. Veio direto até Momotaro e, mostrando os dentes, rosnou com fúria:

— Que atrevimento passar pelo meu campo sem pedir licença primeiro. Se deixar comigo todos os bolinhos que tem nessa sacola, pode seguir; se não deixar, eu mordo você até matar!

Um cachorro grande, de pelo creme e rabo enrolado, mostra os dentes para o rapaz, que come um bolinho de arroz sentado debaixo de um pinheiro.

Momotaro apenas riu com desprezo.

— O que é isso que você está dizendo? Você sabe quem eu sou? Eu sou Momotaro, e estou a caminho da ilha a nordeste do Japão, para dominar os ogros na fortaleza deles. Se tentar me barrar no caminho, eu corto você ao meio, de alto a baixo!

O jeito do cachorro mudou na mesma hora. O rabo desceu entre as pernas e, chegando perto, ele abaixou tanto a cabeça que a testa encostou no chão.

— O que foi que eu ouvi? O nome de Momotaro? O senhor é mesmo o Momotaro? Já ouvi falar muitas vezes da sua força. Sem saber quem o senhor era, eu me comportei feito um bobo. O senhor me perdoa a grosseria? É verdade que o senhor vai invadir a Ilha dos Ogros? Se o senhor aceitar um sujeito rude como eu entre os seus companheiros, eu fico muito agradecido.

— Acho que posso levar você, se é isso que você quer — disse Momotaro.

— Obrigado! — disse o cachorro. — Por falar nisso, eu estou com muita, muita fome. O senhor me dá um dos bolinhos que está levando?

— Este é o melhor bolinho de arroz que existe no Japão — disse Momotaro. — Um inteiro eu não posso dar. Dou metade.

— Muito obrigado — disse o cachorro, e abocanhou no ar o pedaço que Momotaro jogou.

Então Momotaro levantou-se e o cachorro foi atrás. Andaram um bom tempo por morros e vales. Iam caminhando quando um bicho desceu de uma árvore um pouco à frente deles. A criatura logo alcançou Momotaro e disse:

— Bom dia, Momotaro! O senhor é bem-vindo nestas bandas. O senhor me deixa ir junto?

O cachorro respondeu com ciúme:

— Momotaro já tem um cachorro para acompanhar ele. Para que serve um macaco como você numa batalha? Nós vamos lutar com os ogros! Some daqui!

E o cachorro e o macaco começaram a brigar e a se morder, porque esses dois animais nunca se deram bem.

— Chega de briga! — disse Momotaro, metendo-se entre os dois. — Espere um pouco, cachorro!

— Não fica nada bem para o senhor andar com um bicho desses atrás! — disse o cachorro.

— E o que é que você entende disso? — perguntou Momotaro; e, afastando o cachorro, falou com o macaco:

— Quem é você?

— Sou um macaco que mora nestes morros — respondeu o macaco. — Fiquei sabendo da sua viagem até a Ilha dos Ogros e vim para ir com o senhor. Nada me daria mais alegria do que seguir o senhor!

— Você quer mesmo ir até a Ilha dos Ogros e lutar do meu lado?

— Quero, sim, senhor — respondeu o macaco.

— Admiro a sua coragem — disse Momotaro. — Aqui está um pedaço de um dos meus bolinhos de arroz. Venha com a gente!

E assim o macaco se juntou a Momotaro. Só que o cachorro e o macaco não se davam nada bem. Iam pelo caminho rosnando um para o outro, sempre querendo brigar. Aquilo deixou Momotaro muito aborrecido, e afinal ele mandou o cachorro na frente, com uma bandeira, pôs o macaco atrás, com uma espada, e ficou no meio dos dois com um leque de guerra, que é feito de ferro.

Pouco depois chegaram a um campo grande. Ali um pássaro desceu e pousou no chão bem na frente do pequeno grupo. Era o pássaro mais bonito que Momotaro já tinha visto. No corpo ele trazia cinco mantos de penas de cores diferentes, e na cabeça, uma crista vermelha.

O cachorro avançou na mesma hora para agarrar e matar o pássaro. Mas o pássaro atacou com as esporas e voou no rabo do cachorro, e a briga ficou feia para os dois.

Olhando aquilo, Momotaro não conseguiu deixar de admirar o pássaro, de tanta bravura que ele mostrava na briga. Com certeza ia dar um bom guerreiro.

Momotaro chegou perto dos dois brigões e, segurando o cachorro, disse ao pássaro:

— Seu atrevido! Você está atrapalhando a minha viagem. Renda-se já, e eu levo você comigo. Se não se render, eu solto este cachorro para arrancar a sua cabeça a mordidas!

O pássaro rendeu-se na mesma hora e pediu para entrar na companhia de Momotaro.

— Não sei que desculpa dar por ter brigado com o cachorro, seu criado, mas é que eu não tinha visto o senhor. Sou um pássaro à toa, um faisão. É muita generosidade do senhor perdoar a minha grosseria e me levar junto. Por favor, deixe eu seguir atrás do cachorro e do macaco!

— Parabéns por se render tão depressa — disse Momotaro, sorrindo. — Venha com a gente atacar os ogros.

— O senhor vai levar este pássaro também? — perguntou o cachorro, interrompendo.

— Por que essa pergunta desnecessária? Você não ouviu o que eu disse? Eu levo o pássaro porque eu quero!

— Hunf! — fez o cachorro.

Então Momotaro ficou de pé e deu esta ordem:

— Agora todos vocês têm que me escutar. A primeira coisa que um exército precisa ter é harmonia. Já diz o ditado sábio: mais vale a vantagem da terra do que a vantagem do céu. A união entre nós vale mais do que qualquer ganho deste mundo. Quando não temos paz entre nós, não é coisa fácil vencer um inimigo. De agora em diante, vocês três, o cachorro, o macaco e o faisão, têm que ser amigos e pensar com uma cabeça só. O primeiro que começar uma briga é dispensado na hora!

Os três prometeram não brigar. O faisão passou a fazer parte da comitiva de Momotaro e recebeu meio bolinho.

A autoridade de Momotaro era tanta que os três viraram bons companheiros e seguiram depressa com ele na frente.

Andando depressa, dia após dia, chegaram enfim à praia do Mar do Nordeste. Até onde a vista alcançava não havia nada para ver, nem sinal de ilha nenhuma. O único barulho que quebrava aquele silêncio era o das ondas rolando na areia.

Ora, o cachorro, o macaco e o faisão tinham feito todo o caminho pelos vales compridos e pelos morros com muita valentia, mas nunca tinham visto o mar, e pela primeira vez desde a partida ficaram sem saber o que fazer e se entreolharam calados. Como é que iam atravessar a água e chegar à Ilha dos Ogros?

Momotaro logo viu que a visão do mar tinha assustado os três e, para pô-los à prova, falou alto e com aspereza:

— Por que essa hesitação? Estão com medo do mar? Ah, que bando de covardes! Não dá para levar comigo umas criaturas tão fracas para lutar com os ogros. É muito melhor eu ir sozinho. Dispenso vocês todos agora mesmo!

Os três levaram um susto com a bronca e se agarraram na manga de Momotaro, pedindo para não serem mandados embora.

— Por favor, Momotaro! — disse o cachorro.

— Nós viemos até aqui! — disse o macaco.

— É desumano deixar a gente aqui! — disse o faisão.

— Não temos medo nenhum do mar — disse o macaco outra vez.

— Leve a gente com o senhor, por favor — disse o faisão.

— Por favor, leve — disse o cachorro.

Como os três já tinham recobrado um pouco da coragem, Momotaro disse:

— Está bem, então eu levo vocês comigo. Mas tomem cuidado!

Momotaro arranjou um barco pequeno e todos embarcaram. O vento e o tempo estavam bons, e o barco corria pelo mar como uma flecha. Era a primeira vez que eles andavam de barco, e no começo o cachorro, o macaco e o faisão ficaram com medo das ondas e do balanço do barco, mas aos poucos foram se acostumando e voltaram a ficar contentes. Todo dia andavam de um lado para o outro no convés, com os olhos bem abertos, procurando a ilha dos ogros.

Na proa de um barco a vela em mar aberto, o rapaz segura uma corda e o leque; atrás dele, o macaco com a espada, o cachorro sentado e o faisão no convés.

Quando cansavam disso, contavam uns aos outros as façanhas de que mais se orgulhavam, e depois brincavam juntos; e Momotaro se divertia muito ouvindo os três animais e vendo as palhaçadas deles, e assim esquecia que o caminho era longo e que estava farto da viagem e de não ter o que fazer. Ele queria mesmo era estar trabalhando, acabando com os monstros que tinham feito tanto mal ao seu país.

Como o vento soprou a favor e eles não pegaram nenhuma tempestade, o barco fez uma travessia rápida, e um dia, com o sol brilhando forte, os quatro que vigiavam na proa tiveram a sua recompensa: terra à vista.

Momotaro soube na hora que aquilo era a fortaleza dos ogros. No alto da costa de pedra, olhando para o mar, havia um castelo enorme. Agora que a empreitada estava ao alcance da mão, ele ficou pensativo, com a cabeça apoiada nas mãos, se perguntando como devia começar o ataque. Os três companheiros olhavam para ele, esperando ordens. Por fim ele chamou o faisão:

— É uma grande vantagem para nós ter você conosco — disse Momotaro ao pássaro —, porque você tem asas boas. Voe já até o castelo e chame os ogros para a luta. Nós vamos logo atrás de você.

O faisão obedeceu na mesma hora. Levantou voo do barco, batendo as asas no ar com alegria. Logo chegou à ilha e tomou posição no telhado, bem no meio do castelo, e gritou com toda a força:

— Ogros, escutem todos! O grande general japonês Momotaro chegou para lutar com vocês e tomar esta fortaleza. Se querem salvar a vida, rendam-se agora mesmo e, como prova da rendição, quebrem os chifres que crescem na testa de vocês. Se não se renderem já e resolverem lutar, nós, o faisão, o cachorro e o macaco, vamos matar vocês todos a bicadas e a mordidas!

Os ogros chifrudos olharam para cima e, vendo só um faisão, deram risada.

— Um faisão do mato, essa é boa! É ridículo ouvir palavras dessas de uma coisinha à toa como você. Espere só até levar uma pancada de uma das nossas barras de ferro!

Os ogros ficaram furiosos de verdade. Sacudiram os chifres e as cabeleiras vermelhas com raiva e correram para vestir as calças de pele de tigre, para ficar com uma cara mais medonha. Depois trouxeram as barras grandes de ferro e correram até onde o faisão estava pousado, por cima das cabeças deles, para derrubá-lo. O faisão se jogava para o lado, escapava do golpe e atacava a cabeça ora de um, ora de outro. Voava em roda deles, batendo as asas no ar com tanta fúria e sem parar um instante, que os ogros começaram a se perguntar se tinham pela frente um pássaro só ou muitos outros.

Enquanto isso, Momotaro tinha levado o barco até a terra. Na chegada, ele viu que a costa era um paredão e que o castelo grande estava cercado de muros altos e portões de ferro, e era muito bem fortificado.

Momotaro desembarcou e, na esperança de achar alguma entrada, subiu a trilha na direção do alto, com o macaco e o cachorro atrás. Logo encontraram duas moças bonitas lavando roupa num riacho. Momotaro viu que as roupas estavam manchadas de sangue e que, enquanto as duas lavavam, as lágrimas escorriam depressa pelo rosto delas. Ele parou e falou com as duas:

— Quem são vocês e por que estão chorando?

— Somos prisioneiras do rei dos ogros. Fomos arrancadas das nossas casas e trazidas para esta ilha e, embora sejamos filhas de daimiôs, que são grandes senhores, somos obrigadas a servir a ele, e um dia ele vai nos matar — e as moças ergueram as roupas manchadas de sangue — e nos comer, e não há ninguém para nos socorrer!

E, com aquele pensamento horrível, as lágrimas voltaram mais fortes.

— Eu vou salvar vocês — disse Momotaro. — Não chorem mais, só me mostrem como eu faço para entrar no castelo.

Então as duas foram na frente e mostraram a Momotaro uma portinha nos fundos, na parte mais baixa do muro do castelo, tão pequena que ele mal conseguiu passar, rastejando.

O faisão, que esse tempo todo lutava com bravura, viu Momotaro e o pequeno bando entrarem pelos fundos.

No telhado do castelo, o faisão ataca ogros chifrudos que erguem barras de ferro; embaixo, o cachorro e o macaco entram por uma portinha baixa no muro branco.

O ataque de Momotaro foi tão furioso que os ogros não conseguiram resistir. No começo o inimigo era um pássaro só, o faisão, mas agora que Momotaro, o cachorro e o macaco tinham chegado, os ogros se atrapalharam, porque os quatro inimigos lutavam como se fossem cem, de tão fortes que eram. Alguns ogros caíram do parapeito do castelo e se espatifaram nas pedras lá embaixo; outros caíram no mar e se afogaram; muitos morreram debaixo dos golpes dos três animais.

No fim, só o chefe dos ogros ficou de pé. Ele resolveu se render, porque sabia que o inimigo era mais forte do que qualquer homem mortal.

Chegou humilde diante de Momotaro e jogou a barra de ferro no chão; e, de joelhos aos pés do vencedor, quebrou os chifres da própria cabeça em sinal de rendição, porque eles eram a marca da sua força e do seu poder.

De joelhos nas pedras do pátio, o chefe dos ogros curva a cabeça diante do rapaz; dois chifres quebrados no chão, duas moças livres entre moedas de ouro.

— Eu tenho medo do senhor — disse ele, manso. — Não consigo enfrentar o senhor. Dou todo o tesouro escondido neste castelo, se o senhor me poupar a vida!

Momotaro riu.

— Não combina com você, ogro grandalhão, implorar clemência, não é mesmo? Não posso poupar a sua vida perversa, por mais que você implore, porque você matou e torturou muita gente e roubou o nosso país durante muitos anos.

Então Momotaro amarrou o chefe dos ogros e o entregou aos cuidados do macaco. Feito isso, entrou em todos os cômodos do castelo, soltou os prisioneiros e juntou todo o tesouro que encontrou.

O cachorro e o faisão levaram a carga para casa, e foi assim que Momotaro voltou em triunfo para a sua terra, levando o chefe dos ogros como prisioneiro.

As duas pobres moças, filhas de daimiôs, e os outros que os ogros malvados tinham carregado para a ilha, para fazer deles seus escravos, foram levados em segurança e entregues às suas famílias.

O país inteiro fez de Momotaro um herói na volta triunfal, e todos se alegraram porque a terra estava enfim livre dos ogros ladrões, que por muito tempo tinham sido o terror daquelas bandas.

A alegria dos dois velhos foi maior do que nunca, e o tesouro que Momotaro trouxe para casa permitiu que eles vivessem em paz e com fartura até o fim dos seus dias.

Recontado pela Talerie, Fonte: Japanese Fairy Tales (abre em uma nova janela)

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