OriginalO Fantasma de Canterville
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O senhor Otis, ministro americano, compra Canterville Chase com os móveis e com o fantasma. Quando sir Simon aparece à uma da manhã arrastando correntes, o ministro lhe oferece um vidrinho de lubrificante. Insultado como nunca em trezentos anos, o velho fantasma resolve se vingar.
Quando o senhor Hiram B. Otis, ministro dos Estados Unidos na Inglaterra, comprou Canterville Chase, todo mundo lhe disse que ele estava fazendo uma grande tolice, porque não havia a menor dúvida de que a casa era mal-assombrada. Na verdade, o próprio lorde Canterville, homem de uma honradez escrupulosa, tinha achado que era seu dever contar isso ao senhor Otis quando os dois se sentaram para acertar o negócio.
— Nós mesmos já não fazemos questão de morar lá — disse lorde Canterville — desde que minha tia-avó, a duquesa viúva de Bolton, levou um susto do qual nunca se recuperou de verdade. Ela estava se vestindo para o jantar quando duas mãos de esqueleto pousaram nos ombros dela.
— E sinto que devo lhe dizer, senhor Otis — continuou ele —, que o fantasma já foi visto por vários membros vivos da minha família e também pelo pároco, o reverendo Augustus Dampier, que é professor do King’s College, em Cambridge. Depois do infeliz acidente da duquesa, nenhum dos criados mais novos quis ficar conosco, e lady Canterville quase não dormia à noite, por causa dos barulhos misteriosos que vinham do corredor e da biblioteca.
— Lorde Canterville — respondeu o ministro —, eu fico com os móveis e com o fantasma pelo preço da avaliação. Venho de um país moderno, onde temos tudo o que o dinheiro pode comprar. Com todos os nossos rapazes espertos fazendo a festa no Velho Mundo e levando embora os seus melhores atores e as suas primas-donas, imagino que, se existisse mesmo um fantasma na Europa, ele logo estaria lá em casa, num dos nossos museus públicos ou viajando pelas estradas como atração.
— Receio que o fantasma exista — disse lorde Canterville, sorrindo —, embora talvez tenha resistido às propostas dos seus audaciosos empresários. Ele é muito conhecido há três séculos, desde 1584, para ser exato, e sempre aparece antes da morte de alguém da nossa família.
— Bem, o médico da família também aparece, lorde Canterville. Mas fantasma não existe, meu senhor, e duvido que as leis da natureza vão ser suspensas para agradar a aristocracia britânica.
— Os senhores, na América, são mesmo muito naturais — respondeu lorde Canterville, que não tinha entendido bem a última observação do senhor Otis. — E, se o senhor não se importa de ter um fantasma em casa, tudo bem. Só não se esqueça de que eu avisei.
Poucas semanas depois, a compra foi fechada, e, no fim da temporada de Londres, o ministro e a família foram para Canterville Chase. A senhora Otis, que, quando solteira, como senhorita Lucretia R. Tappan, da Rua 53 Oeste, tinha sido uma das moças mais admiradas de Nova York, era agora uma senhora de meia-idade muito bonita, de olhos lindos e perfil magnífico.
Muitas senhoras americanas, quando deixam a terra natal, passam a ter um ar de quem vive adoentada, achando que isso é uma forma de refinamento europeu, mas a senhora Otis nunca tinha caído nesse erro. Tinha uma saúde de ferro e uma disposição realmente admirável. Em muitos aspectos, aliás, era bem inglesa, e servia de excelente exemplo de que hoje em dia temos tudo em comum com a América, menos, é claro, a língua.
O filho mais velho, que os pais tinham batizado de Washington num momento de patriotismo, coisa que ele nunca deixou de lamentar, era um rapaz louro e bem-apessoado. Tinha se preparado para a diplomacia americana conduzindo o cotilhão no Cassino de Newport por três temporadas seguidas, e até em Londres era conhecido como um excelente dançarino. Gardênias e a nobreza eram suas únicas fraquezas. No mais, era extremamente sensato.
A senhorita Virginia E. Otis era uma mocinha de quinze anos, ágil e graciosa como uma corça, com um belo ar de liberdade nos grandes olhos azuis. Era uma amazona admirável. Certa vez, montada no seu pônei, tinha apostado corrida com o velho lorde Bilton, duas voltas em torno do parque, e ganhado por um corpo e meio, bem diante da estátua de Aquiles.
O jovem duque de Cheshire, que assistia à corrida, ficou tão encantado que a pediu em casamento ali mesmo, e naquela mesma noite os tutores o mandaram de volta para o colégio de Eton, debulhado em lágrimas.
Depois de Virginia vinham os gêmeos, que todo mundo chamava de “as Estrelas e Listras”, como a bandeira, porque viviam levando varadas no colégio. Eram meninos encantadores e, tirando o digno ministro, os únicos republicanos de verdade da família.
Como Canterville Chase fica a sete milhas de Ascot, a estação de trem mais próxima, o senhor Otis tinha telegrafado pedindo uma charrete para buscá-los, e eles partiram muito animados. Era uma linda tarde de julho, e o ar estava perfumado pelos pinheirais.
De vez em quando ouviam um pombo-torcaz arrulhando, todo encantado com a própria voz, ou viam, no fundo das samambaias que farfalhavam, o peito lustroso de um faisão. Esquilinhos espiavam dos galhos das faias quando eles passavam, e os coelhos fugiam pelo mato e pelos montinhos cobertos de musgo, com o rabinho branco para cima.
Quando entraram na alameda de Canterville Chase, porém, o céu de repente se encheu de nuvens, uma calma estranha pareceu prender o ar, um grande bando de gralhas passou em silêncio por cima deles e, antes que chegassem à casa, já tinham caído umas gotas grossas de chuva.
De pé na escadaria, esperando por eles, estava uma velha de vestido de seda preta, muito bem arrumada, com touca e avental brancos. Era a senhora Umney, a governanta, que a senhora Otis, a pedido insistente de lady Canterville, tinha concordado em manter no cargo. Quando desceram da charrete, ela fez para cada um uma reverência profunda e disse, de um jeito antiquado e curioso:
— Sejam bem-vindos a Canterville Chase.
Seguindo a governanta, atravessaram o belo saguão do tempo dos Tudor e chegaram à biblioteca, uma sala comprida e baixa, forrada de carvalho preto, que tinha no fundo um grande vitral. Ali encontraram o chá servido. Tiraram os agasalhos, se sentaram e começaram a olhar em volta, enquanto a senhora Umney os servia.
De repente, a senhora Otis reparou numa mancha de um vermelho apagado no chão, bem ao lado da lareira, e, sem ter a menor ideia do que aquilo significava, disse à senhora Umney:
— Acho que derramaram alguma coisa ali.
— Sim, senhora — respondeu a velha governanta em voz baixa. — Ali foi derramado sangue.
— Que horror! — exclamou a senhora Otis. — Não gosto nem um pouco de manchas de sangue numa sala de estar. Isso tem de ser limpo imediatamente.
A velha sorriu e respondeu com a mesma voz baixa e misteriosa:
— É o sangue de lady Eleanore de Canterville, que foi assassinada neste exato lugar pelo próprio marido, sir Simon de Canterville, em 1575. Sir Simon viveu mais nove anos e então desapareceu de repente, em circunstâncias muito misteriosas. O corpo dele nunca foi encontrado, mas o espírito culpado ainda assombra a casa. A mancha de sangue é muito admirada pelos turistas e pelas visitas, e não sai de jeito nenhum.
— Que bobagem! — exclamou Washington Otis. — O Tira-Manchas Campeão e Detergente Paragon, da Pinkerton, limpa isso num instante.
Antes que a governanta, apavorada, pudesse impedir, ele já estava de joelhos, esfregando o chão depressa com uma barrinha de alguma coisa que parecia um cosmético preto. Em poucos momentos não se via mais nenhum sinal da mancha.
— Eu sabia que o Pinkerton dava conta! — exclamou, triunfante, olhando em volta para a família, que o admirava.
Mal ele disse essas palavras, um relâmpago terrível iluminou a sala escura, um trovão medonho fez todos se levantarem de um salto, e a senhora Umney desmaiou.

— Que tempo horroroso! — disse o ministro americano, calmamente, acendendo um charuto comprido. — Acho que este velho país tem tanta gente que não sobra tempo bom para todo mundo. Sempre fui da opinião de que a emigração é a única saída para a Inglaterra.
— Hiram, querido — exclamou a senhora Otis —, o que a gente faz com uma mulher que desmaia?
— Desconte do salário dela, como se fosse louça quebrada — respondeu o ministro. — Aí ela não desmaia mais.
E, de fato, em poucos momentos a senhora Umney voltou a si. Não havia dúvida, porém, de que estava muito abalada, e ela avisou o senhor Otis, muito séria, de que alguma desgraça estava para cair sobre a casa.
— Já vi coisas com estes olhos, senhor — disse ela —, de deixar arrepiado o cabelo de qualquer cristão, e muitas e muitas noites passei sem pregar o olho por causa das coisas horríveis que acontecem aqui.
O senhor Otis e a esposa, porém, garantiram com carinho à boa senhora que não tinham medo de fantasmas. A velha governanta pediu as bênçãos da Providência para os novos patrões, acertou um aumento de salário e foi para o quarto, cambaleando.
A tempestade rugiu furiosa a noite inteira, mas nada de especial aconteceu. Na manhã seguinte, porém, quando desceram para o café, encontraram a terrível mancha de sangue de novo no chão.
— A culpa não pode ser do Detergente Paragon — disse Washington —, porque já usei em tudo quanto é coisa. Deve ser o fantasma.
Então esfregou a mancha outra vez, mas na manhã seguinte ela apareceu de novo. Na terceira manhã, a mesma coisa, embora o próprio senhor Otis tivesse trancado a biblioteca à noite e levado a chave para cima.
A essa altura, a família inteira estava muito interessada. O senhor Otis começou a desconfiar de que tinha sido dogmático demais ao negar a existência de fantasmas; a senhora Otis anunciou que ia entrar para a Sociedade de Pesquisas Psíquicas; e Washington preparou uma longa carta aos senhores Myers e Podmore sobre “A Permanência das Manchas Sanguíneas Ligadas ao Crime”. Naquela noite, todas as dúvidas sobre a existência real dos fantasmas acabaram para sempre.
O dia tinha sido quente e ensolarado, e, no frescor do fim da tarde, a família inteira saiu para passear de carruagem. Só voltaram às nove horas, e então jantaram alguma coisa leve. A conversa não tratou de fantasmas em nenhum momento, de modo que não havia nem mesmo aquele estado de expectativa que tantas vezes vem antes dos fenômenos psíquicos.
Os assuntos, pelo que eu soube mais tarde pelo próprio senhor Otis, foram apenas os de qualquer conversa entre americanos cultos da boa sociedade. Falaram da imensa superioridade de Fanny Davenport sobre Sarah Bernhardt como atriz; da dificuldade de encontrar milho verde, panquecas de trigo-sarraceno e canjica, mesmo nas melhores casas inglesas; da importância de Boston no desenvolvimento da alma universal; das vantagens do sistema de etiquetas para bagagem nas viagens de trem; e da doçura do sotaque de Nova York comparado à fala arrastada de Londres. Ninguém mencionou o sobrenatural, e ninguém falou em sir Simon de Canterville.
Às onze horas a família se recolheu, e às onze e meia todas as luzes estavam apagadas. Algum tempo depois, o senhor Otis acordou com um barulho estranho no corredor, do lado de fora do quarto. Parecia um tinido de metal e dava a impressão de chegar mais perto a cada instante. Ele se levantou na mesma hora, riscou um fósforo e olhou as horas. Era uma hora em ponto.
Estava muito calmo; tomou o próprio pulso e viu que não tinha nem sinal de febre. O barulho estranho continuava, e junto com ele o senhor Otis ouviu, bem claro, o som de passos. Calçou os chinelos, tirou um frasquinho comprido da maleta de toalete e abriu a porta.
Bem na frente dele, sob o luar pálido, viu um velho de aspecto terrível. Os olhos eram vermelhos como brasas acesas; o cabelo grisalho e comprido caía sobre os ombros em mechas embaraçadas; as roupas, de um corte antiquíssimo, estavam sujas e esfarrapadas, e dos pulsos e dos tornozelos pendiam algemas pesadas e grilhões enferrujados.
— Meu caro senhor — disse o senhor Otis —, faço questão absoluta de que o senhor lubrifique essas correntes, e para isso lhe trouxe um vidrinho do Lubrificante Sol Nascente de Tammany. Dizem que resolve com uma única aplicação, e a embalagem traz vários depoimentos nesse sentido, de alguns dos nossos pastores mais eminentes. Vou deixá-lo aqui para o senhor, ao lado das velas do quarto, e terei prazer em lhe arranjar mais, se precisar.
Com essas palavras, o ministro dos Estados Unidos pôs o vidrinho sobre uma mesa de mármore, fechou a porta e voltou para a cama.
Por um momento, o fantasma de Canterville ficou completamente imóvel, numa indignação muito natural. Depois atirou o vidrinho com violência no chão encerado e fugiu pelo corredor, soltando gemidos cavernosos e uma luz verde e sinistra. Mas, bem quando chegava ao alto da grande escadaria de carvalho, uma porta se escancarou, apareceram duas figurinhas vestidas de branco, e um travesseiro enorme passou zunindo rente à cabeça dele!
Não havia tempo a perder. Às pressas, ele recorreu à Quarta Dimensão do Espaço como meio de fuga, sumiu através dos lambris, e a casa ficou em completo silêncio.
Ao chegar a um pequeno aposento secreto na ala esquerda, ele se encostou num raio de luar para recuperar o fôlego e tentou entender a situação. Nunca, numa carreira brilhante e ininterrupta de trezentos anos, tinha sido insultado de maneira tão grosseira.
Pensou na duquesa viúva, a quem tinha dado um susto terrível quando ela se olhava no espelho, coberta de rendas e diamantes; nas quatro criadas que tiveram uma crise de nervos só porque ele lhes sorriu por entre as cortinas de um dos quartos de hóspedes; e no pároco, cuja vela ele tinha soprado numa noite em que o pobre homem voltava tarde da biblioteca, e que desde então vivia sob os cuidados de sir William Gull, um verdadeiro mártir dos nervos.
Pensou também na velha madame de Tremouillac, que, ao acordar cedo certa manhã e ver um esqueleto sentado numa poltrona junto ao fogo, lendo o diário dela, passou seis semanas de cama com uma febre cerebral. Quando sarou, ela fez as pazes com a Igreja e rompeu relações com aquele famoso descrente, o senhor de Voltaire.
O fantasma se lembrou ainda da noite terrível em que o perverso lorde Canterville foi encontrado sufocando no quarto de vestir, com o valete de ouros entalado no meio da garganta. Pouco antes de morrer, o lorde confessou que tinha roubado de Charles James Fox cinquenta mil libras no clube Crockford’s, por meio daquela mesma carta, e jurou que o fantasma o tinha obrigado a engoli-la.
Todas as suas grandes façanhas lhe voltaram à memória: desde o mordomo que se matou com um tiro na despensa porque tinha visto uma mão verde batendo na vidraça até a bela lady Stutfield, que precisava usar sempre uma fita de veludo preto no pescoço para esconder a marca de cinco dedos queimados na pele branca, e que acabou se afogando no lago das carpas, no fim da Alameda do Rei.
Com o egoísmo entusiasmado do verdadeiro artista, ele repassou suas atuações mais célebres e sorriu com amargura ao lembrar sua última aparição como “Rúben Vermelho, ou o Bebê Estrangulado”, sua estreia como “Gibeão Descarnado, o Sugador de Sangue do Charco de Bexley” e o furor que tinha causado numa linda noite de junho só por jogar boliche com os próprios ossos na quadra de tênis.
E, depois de tudo isso, vinham uns americanos modernos e miseráveis lhe oferecer o Lubrificante Sol Nascente e jogar travesseiros na cabeça dele! Era absolutamente insuportável. Além do mais, nenhum fantasma da história tinha sido tratado assim. Resolveu, então, se vingar, e ficou até o amanhecer numa atitude de profunda meditação.
Na manhã seguinte, quando a família Otis se reuniu para o café, falaram bastante do fantasma. O ministro dos Estados Unidos estava, naturalmente, um pouco aborrecido ao ver que seu presente não tinha sido aceito.
— Não tenho nenhuma vontade de fazer mal ao fantasma — disse ele —, e devo dizer que, considerando há quanto tempo ele mora nesta casa, não acho nada educado jogar travesseiros nele.
Era uma observação muito justa, e lamento dizer que os gêmeos caíram na gargalhada.
— Por outro lado — continuou o ministro —, se ele se recusar mesmo a usar o Lubrificante Sol Nascente, vamos ter de tirar as correntes dele. Ninguém consegue dormir com um barulho desses do lado de fora dos quartos.
No resto da semana, porém, ninguém foi incomodado. A única coisa que chamou a atenção foi a mancha de sangue, que reaparecia sem parar no chão da biblioteca. Era mesmo muito estranho, porque o senhor Otis trancava a porta todas as noites, e as janelas ficavam bem fechadas.
A cor da mancha, que mudava como um camaleão, também deu muito o que falar. Em certas manhãs era de um vermelho apagado, quase cor de tijolo; depois ficava cor de vermelhão, depois de um roxo intenso, e uma vez, quando desceram para as orações em família, segundo os ritos simples da Igreja Episcopal Reformada Livre Americana, a encontraram de um verde-esmeralda brilhante.
Essas mudanças de caleidoscópio, naturalmente, divertiam muito a família, e todas as noites se faziam apostas sobre a cor do dia seguinte. A única pessoa que não entrava na brincadeira era a pequena Virginia. Por algum motivo que ninguém explicava, a mancha sempre a deixava muito aflita, e na manhã em que ela apareceu verde-esmeralda a menina quase chorou.
A segunda aparição do fantasma foi num domingo à noite. Pouco depois de irem para a cama, todos se assustaram com um estrondo terrível no saguão. Desceram correndo e viram que uma grande armadura antiga tinha se soltado do suporte e caído no chão de pedra. Numa cadeira de espaldar alto estava sentado o fantasma de Canterville, esfregando os joelhos, com uma expressão de dor aguda no rosto.
Os gêmeos, que tinham levado as zarabatanas, dispararam na mesma hora duas bolinhas nele, com aquela pontaria que só se consegue depois de muito treino em cima do professor de caligrafia. O ministro dos Estados Unidos, enquanto isso, apontava o revólver para ele e mandava, conforme a etiqueta da Califórnia, que pusesse as mãos para cima!

O fantasma se ergueu com um grito selvagem de raiva e passou por eles como uma neblina, apagando a vela de Washington Otis e deixando todos na mais completa escuridão. No alto da escada, recuperou o controle e resolveu soltar sua célebre gargalhada demoníaca.
Aquela gargalhada já lhe tinha sido muito útil mais de uma vez. Diziam que tinha deixado branca, numa única noite, a peruca de lorde Raker, e com certeza tinha feito três governantas francesas de lady Canterville pedirem demissão antes do fim do mês.
Sir Simon soltou, então, a mais horrível das suas gargalhadas, até a velha abóbada ecoar e ecoar. Mas, mal o eco medonho tinha se apagado, uma porta se abriu, e a senhora Otis saiu de roupão azul-claro.
— Receio que o senhor não esteja nada bem — disse ela —, por isso lhe trouxe um vidro da tintura do doutor Dobell. Se for indigestão, o senhor vai ver que é um remédio excelente.
O fantasma a fuzilou com os olhos, furioso, e começou imediatamente a se preparar para virar um enorme cachorro preto. Era um talento pelo qual tinha fama merecida, e o médico da família sempre atribuiu a esse talento a demência permanente do tio de lorde Canterville, o honorável Thomas Horton.
O barulho de passos que se aproximavam, porém, o fez hesitar no seu plano cruel. Ele se contentou em ficar levemente fosforescente e desapareceu com um gemido profundo de cemitério, bem quando os gêmeos chegavam perto dele.
Ao chegar ao quarto, desmoronou por completo e foi tomado pela mais violenta agitação. A grosseria dos gêmeos e o materialismo vulgar da senhora Otis eram, naturalmente, muito irritantes, mas o que mais o afligia de verdade era não ter conseguido vestir a armadura.
Tinha esperado que até americanos modernos se emocionassem diante de um Espectro de Armadura, nem que fosse, na falta de motivo mais sensato, por respeito ao seu poeta nacional, Longfellow, cujos versos graciosos o tinham ajudado a passar muitas horas de tédio quando os Canterville estavam em Londres.
Além disso, a armadura pertencia a sir Simon. Ele a tinha usado com grande sucesso no torneio de Kenilworth, e ninguém menos que a própria Rainha Virgem tinha feito elogios a ele por isso. Mas, quando a vestiu, ficou completamente esmagado pelo peso do enorme peitoral e do capacete de aço, caiu pesadamente no chão de pedra, esfolou os dois joelhos e machucou os nós dos dedos da mão direita.
Durante alguns dias ficou muito doente e mal saiu do quarto, a não ser para manter a mancha de sangue em bom estado. Cuidando-se muito, porém, acabou se recuperando e resolveu fazer uma terceira tentativa de assustar o ministro dos Estados Unidos e a família.
Escolheu para a aparição a sexta-feira, 17 de agosto, e passou quase o dia todo examinando o guarda-roupa. Por fim, ficou com um grande chapéu de abas caídas com uma pena vermelha, uma mortalha com babados nos pulsos e no pescoço e uma adaga enferrujada. Ao anoitecer, caiu uma tempestade violenta, e o vento soprava tão forte que todas as janelas e portas da velha casa tremiam e batiam. Era exatamente o tipo de tempo de que ele gostava.
O plano era este. Iria em silêncio até o quarto de Washington Otis, ficaria balbuciando coisas sem sentido para ele do pé da cama e se apunhalaria três vezes na garganta, ao som de uma música baixa. Tinha uma raiva especial de Washington, porque sabia muito bem que era o rapaz quem vivia apagando a famosa mancha de sangue dos Canterville com o Detergente Paragon da Pinkerton.
Depois de deixar aquele jovem imprudente e atrevido num estado de pavor absoluto, seguiria para o quarto do ministro dos Estados Unidos e da esposa. Lá, poria uma mão úmida e gelada na testa da senhora Otis, enquanto sussurrava no ouvido do marido, que tremeria de medo, os segredos medonhos do ossário.
Quanto à pequena Virginia, ainda não tinha se decidido. Ela nunca o tinha insultado de jeito nenhum, e era bonita e meiga. Uns gemidos cavernosos de dentro do guarda-roupa, pensou ele, seriam mais que suficientes; ou, se isso não a acordasse, poderia puxar a colcha com dedos trêmulos e tortos.
Já aos gêmeos, estava decidido a dar uma lição. A primeira coisa a fazer era, claro, sentar no peito deles, para provocar aquela sensação sufocante de pesadelo. Depois, como as camas ficavam bem juntas, ficaria de pé entre elas na forma de um cadáver verde e gelado, até os meninos ficarem paralisados de medo.
Por fim, jogaria longe a mortalha e rastejaria pelo quarto, com os ossos branqueados e um olho girando na órbita, no papel de “Daniel Mudo, ou o Esqueleto do Suicida”. Com esse papel tinha causado grande efeito mais de uma vez, e o considerava tão bom quanto o seu famoso “Martinho Maníaco, ou o Mistério Mascarado”.
Às dez e meia, ouviu a família ir para a cama. Durante algum tempo foi incomodado pelas gargalhadas dos gêmeos, que, com a alegria despreocupada de colegiais, evidentemente estavam se divertindo antes de dormir. Às onze e quinze, porém, tudo ficou quieto e, quando bateu meia-noite, ele saiu.
A coruja batia nas vidraças, o corvo grasnava no velho teixo, e o vento rondava a casa gemendo como uma alma penada; mas a família Otis dormia sem desconfiar do destino que a esperava, e, bem acima da chuva e da tempestade, ele ouvia o ronco regular do ministro dos Estados Unidos.
O fantasma saiu dos lambris pé ante pé, com um sorriso maligno na boca cruel e enrugada, e a lua escondeu o rosto numa nuvem quando ele passou diante da grande janela de sacada, onde estavam pintados em azul e ouro o seu brasão e o da esposa que ele tinha assassinado. Foi deslizando sem parar, como uma sombra maligna, e a própria escuridão parecia ter nojo dele quando passava.
Uma vez achou que alguém chamava e parou; mas era só um cachorro uivando na Fazenda Vermelha, e ele seguiu em frente, resmungando estranhas pragas do século dezesseis e, de vez em quando, brandindo a adaga enferrujada no ar da meia-noite. Por fim chegou à curva do corredor que levava ao quarto do infeliz Washington.
Sir Simon parou ali por um momento, com o vento agitando em volta da cabeça as longas mechas grisalhas e torcendo em dobras grotescas e fantásticas o horror sem nome da mortalha. Então o relógio bateu o quarto de hora, e ele sentiu que tinha chegado o momento. Deu uma risadinha e virou a curva; mas, mal fez isso, soltou um gemido lastimoso de pavor, recuou e escondeu o rosto lívido nas mãos compridas e ossudas.
Bem na frente dele estava um espectro horrível, imóvel como uma estátua e monstruoso como o sonho de um louco! A cabeça era careca e lustrosa; o rosto, redondo, gordo e branco; e uma risada medonha parecia ter retorcido as feições num sorriso eterno. Dos olhos saíam raios de luz escarlate, a boca era um poço largo de fogo, e uma roupa horrorosa, parecida com a dele, envolvia com suas neves silenciosas aquele corpo de gigante.
No peito havia um cartaz com uma escrita estranha em letras antigas; parecia uma lista de vergonhas, um registro de pecados terríveis, um calendário medonho de crimes. E, com a mão direita, o espectro erguia bem alto uma espada curva de aço reluzente.

Como nunca tinha visto um fantasma antes, sir Simon ficou, naturalmente, apavorado e, depois de dar mais uma olhada rápida naquela aparição horrenda, fugiu de volta para o quarto. Enquanto disparava pelo corredor, tropeçou na mortalha comprida e acabou deixando cair a adaga enferrujada dentro das botas de montaria do ministro, onde o mordomo a encontrou de manhã. Já sozinho no seu aposento, ele se jogou numa cama estreita e escondeu o rosto debaixo das cobertas.
Depois de algum tempo, porém, o velho e valente espírito dos Canterville falou mais alto, e ele resolveu ir conversar com o outro fantasma assim que o dia clareasse. Por isso, bem quando a aurora começava a pratear as colinas, voltou ao lugar onde tinha visto pela primeira vez a aparição medonha. Achava que, afinal de contas, dois fantasmas valiam mais do que um, e que, com a ajuda do novo amigo, poderia enfrentar os gêmeos sem perigo.
Ao chegar lá, porém, deu com uma cena terrível. Alguma coisa tinha acontecido ao espectro, porque a luz tinha se apagado de todo nos olhos ocos, a espada reluzente tinha caído da mão, e ele estava encostado na parede, numa posição forçada e desconfortável.
Sir Simon correu para a frente e o agarrou nos braços. Para seu horror, a cabeça escorregou e rolou pelo chão, o corpo tombou de lado, e o fantasma se viu abraçado a uma cortina de cama de algodão branco, com uma vassoura, um cutelo de cozinha e um nabo oco caídos aos pés!
Sem entender aquela transformação curiosa, agarrou o cartaz com uma pressa febril e ali, na luz cinzenta da manhã, leu estas palavras terríveis:
O PHANTASMA DOS OTIS O Unico, Verdadeyro e Originall Assombraçam. Cuydado com as Imitaçoens: todas as outras sam falsas.
Num instante entendeu tudo. Tinha sido enganado, ludibriado, passado para trás! O velho olhar dos Canterville voltou aos olhos dele; rangeu as gengivas sem dentes e, erguendo as mãos murchas bem alto acima da cabeça, jurou, na linguagem pitoresca da escola antiga, que, quando o galo Chantecler tocasse duas vezes sua alegre corneta, correria sangue, e o Assassinato andaria pelo mundo com pés silenciosos.
Mal tinha terminado esse juramento terrível quando, do telhado vermelho de um sítio distante, um galo cantou. Ele deu uma risada longa, baixa e amarga, e esperou. Esperou hora após hora, mas o galo, por algum motivo estranho, não cantou de novo.
Por fim, às sete e meia, a chegada das criadas o obrigou a desistir da vigília medonha, e ele voltou para o quarto a passos duros, pensando no juramento inútil e no plano frustrado. Lá, consultou vários livros de cavalaria antiga, de que gostava muitíssimo, e descobriu que, todas as vezes que aquele juramento tinha sido usado, Chantecler sempre tinha cantado uma segunda vez.
— Que o diabo carregue essa ave malcriada! — resmungou. — Já houve tempo em que, com a minha boa lança, eu lhe atravessaria o pescoço e a faria cantar para mim, nem que fosse na hora da morte!
Depois se recolheu num confortável caixão de chumbo e ficou lá até a noite.
No dia seguinte, o fantasma estava muito fraco e cansado. A emoção terrível das últimas quatro semanas começava a fazer efeito. Estava com os nervos em frangalhos e se sobressaltava com o menor ruído. Ficou cinco dias sem sair do quarto e, por fim, decidiu abrir mão da mancha de sangue no chão da biblioteca. Se a família Otis não a queria, era claro que não a merecia.
Eram, evidentemente, pessoas que viviam num plano baixo e material da existência, completamente incapazes de apreciar o valor simbólico dos fenômenos sensíveis. A questão das aparições e do desenvolvimento dos corpos astrais, é claro, era bem diferente, e não dependia dele.
Era seu dever solene aparecer no corredor uma vez por semana e balbuciar coisas sem sentido da grande janela de sacada na primeira e na terceira quarta-feira de cada mês, e ele não via como poderia fugir dessas obrigações com honra. É bem verdade que a vida dele tinha sido muito perversa; por outro lado, porém, era extremamente cuidadoso em tudo o que dizia respeito ao sobrenatural.
Nos três sábados seguintes, portanto, percorreu o corredor como sempre, entre a meia-noite e as três da manhã, tomando todas as precauções possíveis para não ser ouvido nem visto. Tirava as botas, pisava o mais leve possível nas velhas tábuas carcomidas pelo cupim, usava uma grande capa de veludo preto e tinha o cuidado de lubrificar as correntes com o Lubrificante Sol Nascente.
Sou obrigado a reconhecer que foi com muita dificuldade que ele se convenceu a adotar essa última forma de proteção. Mas certa noite, enquanto a família jantava, entrou de mansinho no quarto do senhor Otis e levou o vidrinho. No começo se sentiu um pouco humilhado, mas depois teve o bom senso de admitir que a invenção tinha lá suas vantagens e, até certo ponto, servia aos seus propósitos.
Mesmo assim, não o deixaram em paz. Viviam esticando barbantes no corredor, e ele tropeçava neles no escuro. Uma vez, vestido para o papel de “Isaac Negro, ou o Caçador do Bosque de Hogley”, levou um tombo feio ao pisar numa pista de manteiga que os gêmeos tinham feito desde a porta da Sala das Tapeçarias até o alto da escada de carvalho.
Esse último insulto o enfureceu tanto que ele decidiu fazer um esforço final para afirmar sua dignidade e sua posição social. Resolveu visitar os jovens e insolentes alunos de Eton na noite seguinte, no seu célebre papel de “Ruperto Destemido, ou o Conde sem Cabeça”.
Fazia mais de setenta anos que não aparecia com aquele disfarce. Na verdade, não o usava desde que tinha assustado com ele a linda lady Barbara Modish, que rompeu de repente o noivado com o avô do atual lorde Canterville e fugiu para Gretna Green com o belo Jack Castletown, declarando que nada no mundo a faria entrar para uma família que deixava um fantasma tão horrível passear pelo terraço ao entardecer.
O pobre Jack morreu depois num duelo, com um tiro de lorde Canterville, no campo de Wandsworth, e lady Barbara morreu de desgosto em Tunbridge Wells antes do fim do ano; de modo que, em todos os sentidos, tinha sido um grande sucesso.
Era, porém, uma maquiagem muito difícil, se me permitem usar uma palavra tão teatral para um dos maiores mistérios do sobrenatural, ou, para empregar um termo mais científico, do mundo supranatural, e o fantasma levou três horas inteiras para se preparar. Por fim tudo estava pronto, e ele ficou muito satisfeito com a própria aparência.
As grandes botas de montaria que faziam parte da fantasia estavam um pouquinho largas, e ele só conseguiu achar uma das duas pistolas de cavaleiro, mas, no geral, estava bem contente. À uma e quinze, saiu deslizando dos lambris e seguiu pelo corredor sem fazer barulho.
Ao chegar ao quarto dos gêmeos, que, devo mencionar, se chamava Quarto da Cama Azul por causa da cor das cortinas, encontrou a porta entreaberta. Querendo fazer uma entrada de efeito, escancarou a porta, e uma jarra pesada de água despencou bem em cima dele. A jarra passou a poucos centímetros do ombro esquerdo, mas a água o deixou encharcado até os ossos.
No mesmo instante, ouviu gargalhadas abafadas vindas da cama de dossel. O choque para os seus nervos foi tão grande que ele fugiu para o quarto o mais depressa que pôde, e no dia seguinte estava de cama com um resfriado forte. O único consolo em toda aquela história foi não ter levado a cabeça junto; se tivesse levado, as consequências poderiam ter sido muito sérias.
Ele perdeu, então, toda a esperança de assustar aquela família americana tão grosseira. Em geral, se contentava em andar pelos corredores de chinelos de feltro, com um grosso cachecol vermelho no pescoço por medo das correntes de ar e um pequeno arcabuz, para o caso de ser atacado pelos gêmeos.
O golpe final veio no dia 19 de setembro. Tinha descido até o grande saguão de entrada, certo de que pelo menos ali ninguém o incomodaria, e se divertia fazendo comentários sarcásticos sobre as grandes fotografias do ministro dos Estados Unidos e da esposa, tiradas no estúdio Saroni, que agora ocupavam o lugar dos retratos da família Canterville.
O fantasma estava vestido com simplicidade, mas com capricho: uma mortalha comprida, salpicada de terra de cemitério, uma tira de linho amarelo amarrando o queixo, uma lanterninha e a pá de um coveiro. Estava, na verdade, vestido para o papel de “Jonas sem Cova, ou o Ladrão de Cadáveres do Celeiro de Chertsey”, uma das suas criações mais notáveis. Os Canterville tinham todos os motivos para se lembrar dela, porque tinha sido a verdadeira origem da briga deles com o vizinho, lorde Rufford.
Eram mais ou menos duas e quinze da madrugada, e, até onde ele podia perceber, ninguém estava acordado. Mas, quando ia andando devagar para a biblioteca, para ver se ainda restava algum vestígio da mancha de sangue, de repente pularam em cima dele, de um canto escuro, duas figuras que agitavam os braços acima da cabeça e lhe berraram no ouvido:
— BUUU!
Tomado de pânico, o que nessas circunstâncias era muito natural, ele correu para a escada, mas lá estava Washington Otis à espera, com o grande esguicho do jardim. Cercado de inimigos por todos os lados, quase sem saída, sumiu dentro do grande fogão de ferro, que por sorte não estava aceso, e teve de refazer o caminho pelos canos e pelas chaminés. Chegou ao quarto num estado terrível de sujeira, desordem e desespero.
Depois disso, nunca mais foi visto em nenhuma expedição noturna. Os gêmeos ficaram de tocaia várias vezes e espalhavam cascas de nozes pelos corredores todas as noites, para grande aborrecimento dos pais e dos criados, mas não adiantou nada. Era evidente que o fantasma estava tão magoado que não ia mais aparecer.
O senhor Otis voltou, então, à sua grande obra sobre a história do Partido Democrata, em que trabalhava fazia alguns anos; a senhora Otis organizou uma maravilhosa mariscada à moda americana, que deixou o condado inteiro admirado; os meninos se dedicaram ao lacrosse, ao euchre, ao pôquer e a outros jogos nacionais americanos; e Virginia passeava pelas estradinhas no seu pônei, acompanhada do jovem duque de Cheshire, que tinha vindo passar a última semana das férias em Canterville Chase.
Todos achavam que o fantasma tinha ido embora, e o senhor Otis chegou a escrever uma carta dizendo isso a lorde Canterville, que respondeu manifestando grande alegria com a notícia e mandando os melhores cumprimentos à digna esposa do ministro.
Os Otis, porém, estavam enganados, porque o fantasma continuava na casa. Embora agora estivesse quase inválido, não estava nada disposto a deixar as coisas como estavam, principalmente depois de saber que entre os hóspedes estava o jovem duque de Cheshire.
O tio-avô do duque, lorde Francis Stilton, tinha apostado certa vez cem guinéus com o coronel Carbury que jogaria dados com o fantasma de Canterville. Na manhã seguinte, foi encontrado caído no chão da sala de jogo, num estado de paralisia tão completo que, embora tenha vivido até muito velho, nunca mais conseguiu dizer nada além de “Duplo seis”.
A história ficou famosa na época, embora, naturalmente, por respeito aos sentimentos das duas nobres famílias, todos tenham feito o possível para abafá-la; quem quiser um relato completo de todas as circunstâncias vai encontrá-lo no terceiro volume das Memórias do Príncipe Regente e Seus Amigos, de lorde Tattle.
O fantasma, portanto, estava muito ansioso para mostrar que não tinha perdido sua influência sobre os Stilton, com quem, aliás, tinha um parentesco distante: uma prima-irmã dele tinha se casado em segundas núpcias com o senhor de Bulkeley, de quem, como todo mundo sabe, os duques de Cheshire descendem em linha direta.
Por isso, sir Simon se preparou para aparecer ao pequeno namorado de Virginia no seu célebre papel de “O Monge Vampiro, ou o Beneditino sem Sangue”. Era um número tão horrível que, quando a velha lady Startup o viu, numa fatídica véspera de Ano-Novo, em 1764, começou a dar os gritos mais agudos, que terminaram num violento ataque de apoplexia. Morreu três dias depois, não sem antes deserdar os Canterville, que eram os parentes mais próximos dela, e deixar todo o dinheiro para o seu boticário de Londres.
Na última hora, porém, o medo dos gêmeos o impediu de sair do quarto, e o pequeno duque dormiu em paz debaixo do grande dossel de plumas do Quarto Real, sonhando com Virginia.
Poucos dias depois, Virginia e o seu cavaleiro de cabelos cacheados foram cavalgar nos prados de Brockley, e ela rasgou tanto o traje de montaria ao passar por uma cerca viva que, quando voltaram para casa, resolveu subir pela escada dos fundos para ninguém a ver.
Quando passava correndo pela Sala das Tapeçarias, cuja porta por acaso estava aberta, teve a impressão de ver alguém lá dentro. Pensando que fosse a criada da mãe, que às vezes levava a costura para lá, deu uma olhada para pedir que ela consertasse o traje.
Para sua imensa surpresa, porém, era o próprio fantasma de Canterville! Estava sentado junto à janela, vendo voar pelo ar o ouro desfeito das árvores que amareleciam e as folhas vermelhas dançarem loucamente pela longa alameda. Apoiava a cabeça na mão, e toda a sua postura era de um desânimo profundo.
Parecia, na verdade, tão abandonado e tão maltratado que a pequena Virginia, cuja primeira ideia tinha sido fugir e se trancar no quarto, se encheu de pena e resolveu tentar consolá-lo. Os passos dela eram tão leves, e a tristeza dele tão funda, que o fantasma só percebeu que ela estava ali quando ela falou.

— Sinto muita pena do senhor — disse ela —, mas meus irmãos voltam amanhã para Eton, e então, se o senhor se comportar, ninguém vai incomodá-lo.
— É um absurdo me pedir que eu me comporte — respondeu ele, olhando espantado para a linda menina que tinha tido a ousadia de lhe dirigir a palavra —, um completo absurdo. Eu preciso sacudir minhas correntes, gemer pelos buracos das fechaduras e andar por aí à noite, se é isso que a senhorita quer dizer. É a minha única razão de existir.
— Isso não é razão nenhuma para existir, e o senhor sabe que foi muito mau. A senhora Umney nos contou, no primeiro dia em que chegamos aqui, que o senhor matou a sua mulher.
— Bem, isso eu admito — disse o fantasma, irritado —, mas foi um assunto puramente de família, que não dizia respeito a mais ninguém.
— É muito errado matar alguém — disse Virginia, que às vezes tinha uma doce seriedade puritana, herdada de algum velho antepassado da Nova Inglaterra.
— Ah, detesto a severidade barata da moral abstrata! Minha mulher era muito sem graça, nunca engomava direito as minhas golas de babados e não entendia nada de cozinha. Imagine que uma vez eu cacei um cervo no Bosque de Hogley, um animal novo e magnífico, e sabe como ela mandou servi-lo à mesa? Enfim, agora não importa mais, porque tudo isso acabou, e não acho que tenha sido muito gentil da parte dos irmãos dela me matar de fome, mesmo que eu a tenha matado.
— Matar o senhor de fome? Ah, senhor Fantasma, quer dizer, sir Simon, o senhor está com fome? Tenho um sanduíche na minha maleta. O senhor quer?
— Não, obrigado, eu não como mais nada; mas é muita bondade da senhorita, mesmo assim, e a senhorita é muito mais simpática do que o resto da sua família horrível, grosseira, vulgar e desonesta.
— Pare! — exclamou Virginia, batendo o pé. — O senhor é que é grosseiro, horrível e vulgar, e, quanto à desonestidade, sabe muito bem que roubou as tintas da minha caixa para retocar aquela mancha de sangue ridícula na biblioteca. Primeiro levou todos os meus vermelhos, até o vermelhão, e eu não pude mais pintar o pôr do sol; depois levou o verde-esmeralda e o amarelo-cromo, e no fim só me sobraram o anil e o branco, e eu só podia pintar cenas de luar, que são sempre tristes de ver e nada fáceis de pintar.
— Eu nunca contei nada a ninguém — continuou ela —, embora estivesse muito aborrecida. E foi tudo muito ridículo; afinal, quem já ouviu falar de sangue verde-esmeralda?
— Bem, na verdade — disse o fantasma, meio sem jeito —, o que eu podia fazer? Hoje em dia é muito difícil conseguir sangue de verdade, e, como foi o seu irmão quem começou tudo com o Detergente Paragon, não vi por que não usar as suas tintas. Quanto à cor, isso é sempre questão de gosto: os Canterville, por exemplo, têm sangue azul, o mais azul da Inglaterra; mas sei que vocês, americanos, não ligam para essas coisas.
— O senhor não entende nada disso, e a melhor coisa que pode fazer é emigrar e cultivar um pouco o espírito. Meu pai vai ter o maior prazer em lhe dar a passagem de graça, e, embora a alfândega cobre caro por qualquer espírito, até pelos que vêm engarrafados, não vai haver problema nenhum, porque os fiscais são todos democratas. Chegando a Nova York, o senhor com certeza vai fazer um enorme sucesso. Conheço muita gente lá que daria cem mil dólares para ter um avô, e muito mais que isso para ter um fantasma de família.
— Acho que eu não ia gostar da América.
— Imagino que seja porque lá não temos ruínas nem antiguidades — disse Virginia, com ironia.
— Não têm ruínas! Não têm antiguidades! — respondeu o fantasma. — Vocês têm a sua marinha e os seus modos.
— Boa noite. Vou pedir ao meu pai que dê aos gêmeos mais uma semana de férias.
— Por favor, não vá embora, senhorita Virginia! — exclamou ele. — Estou tão sozinho e tão infeliz, e já não sei mais o que fazer. Quero dormir e não consigo.
— Isso é um absurdo! Basta ir para a cama e apagar a vela. Às vezes é muito difícil ficar acordado, principalmente na igreja, mas dormir não tem dificuldade nenhuma. Até os bebês sabem fazer isso, e eles não são lá muito espertos.
— Faz trezentos anos que eu não durmo — disse ele, com tristeza, e os lindos olhos azuis de Virginia se arregalaram de espanto. — Faz trezentos anos que eu não durmo, e estou tão cansado.
Virginia ficou muito séria, e os lábios dela tremeram como pétalas de rosa. Ela se aproximou e, ajoelhada ao lado dele, ergueu os olhos para aquele velho rosto enrugado.
— Pobre, pobre fantasma — murmurou ela. — O senhor não tem um lugar onde possa dormir?
— Muito longe, depois dos pinheirais — respondeu ele, numa voz baixa, como num sonho —, existe um jardinzinho. Lá a grama cresce alta e espessa, lá estão as grandes estrelas brancas da flor da cicuta, lá o rouxinol canta a noite inteira. A noite inteira ele canta, e a lua fria, de cristal, olha lá de cima, e o teixo estende seus braços de gigante sobre os que dormem.
Os olhos de Virginia se turvaram de lágrimas, e ela escondeu o rosto nas mãos.
— O senhor está falando do Jardim da Morte — sussurrou.
— Sim, da morte. A morte deve ser tão bonita. Deitar na terra macia e escura, com a grama balançando por cima da cabeça, e escutar o silêncio. Não ter ontem nem amanhã. Esquecer o tempo, perdoar a vida, ficar em paz. A senhorita pode me ajudar. A senhorita pode abrir para mim as portas da casa da Morte, porque o amor está sempre com a senhorita, e o amor é mais forte que a morte.
Virginia estremeceu, um arrepio frio percorreu o corpo dela, e por alguns momentos houve silêncio. Ela se sentia como se estivesse num sonho terrível.
Então o fantasma falou de novo, e a voz dele soava como o suspiro do vento.
— A senhorita já leu a velha profecia no vitral da biblioteca?
— Ah, muitas vezes — exclamou a menina, levantando os olhos. — Sei de cor. Está pintada em letras pretas esquisitas, difíceis de ler. São só seis versos:
Quando a menina dourada fizer rezar a boca culpada, quando a amendoeira seca der flor e uma criança chorar pelo pecador, então a casa vai se aquietar e a paz em Canterville vai morar.
— Mas não sei o que eles querem dizer.
— Querem dizer — respondeu ele, com tristeza — que a senhorita tem de chorar comigo pelos meus pecados, porque eu não tenho lágrimas, e rezar comigo pela minha alma, porque eu não tenho fé. E então, se a senhorita sempre foi doce, boa e gentil, o Anjo da Morte terá piedade de mim. A senhorita vai ver vultos medonhos na escuridão, e vozes malvadas vão sussurrar no seu ouvido, mas não vão lhe fazer mal, porque contra a pureza de uma criança as forças do inferno nada podem.
Virginia não respondeu, e o fantasma torcia as mãos, desesperado, olhando para a cabecinha dourada e inclinada da menina. De repente, ela se levantou, muito pálida, com um brilho estranho nos olhos.
— Não tenho medo — disse com firmeza. — Vou pedir ao Anjo que tenha piedade do senhor.
Ele se ergueu da cadeira com um gritinho de alegria, tomou a mão dela, se curvou sobre essa mão com uma elegância antiga e a beijou. Os dedos dele eram frios como gelo, e os lábios queimavam como fogo, mas Virginia não vacilou enquanto ele a conduzia pela sala escura.
Na tapeçaria verde e desbotada havia caçadorzinhos bordados. Eles tocavam suas cornetas enfeitadas com borlas e, com as mãozinhas, faziam sinal para ela voltar.
— Volte, pequena Virginia! — gritavam. — Volte!
O fantasma, porém, apertou ainda mais a mão dela, e Virginia fechou os olhos para não ver os caçadores. Bichos horríveis, com rabo de lagarto e olhos esbugalhados, piscavam para ela da lareira esculpida e murmuravam:
— Cuidado, pequena Virginia, cuidado! Talvez a gente nunca mais veja você.
Mas o fantasma deslizou ainda mais depressa, e Virginia não deu ouvidos. Quando chegaram ao fim da sala, ele parou e murmurou umas palavras que ela não entendeu. Ela abriu os olhos e viu a parede se desfazendo devagar, como uma névoa, e uma grande caverna negra diante dela. Um vento frio e cortante soprou em volta dos dois, e ela sentiu alguma coisa puxando seu vestido.

— Depressa, depressa — gritou o fantasma —, senão vai ser tarde demais.
E, num instante, os lambris se fecharam atrás deles, e a Sala das Tapeçarias ficou vazia.
Uns dez minutos depois, tocou o sino do chá, e, como Virginia não desceu, a senhora Otis mandou um dos criados chamá-la. Pouco depois ele voltou dizendo que não tinha encontrado a senhorita Virginia em lugar nenhum.
Como a menina costumava ir ao jardim todo fim de tarde colher flores para a mesa do jantar, a senhora Otis a princípio não se preocupou. Mas, quando bateram seis horas e Virginia não apareceu, a mãe ficou realmente aflita e mandou os meninos procurá-la lá fora, enquanto ela mesma e o senhor Otis vasculhavam todos os cômodos da casa.
Às seis e meia os meninos voltaram e disseram que não tinham achado nenhum sinal da irmã. Todos estavam muito agitados e já não sabiam o que fazer, quando o senhor Otis de repente se lembrou de que, poucos dias antes, tinha dado permissão a um grupo de ciganos para acampar no parque.
Partiu imediatamente para o Vale de Blackfell, onde sabia que eles estavam, com o filho mais velho e dois empregados da fazenda. O pequeno duque de Cheshire, louco de aflição, implorou que o deixassem ir também, mas o senhor Otis não permitiu, com medo de que houvesse briga.
Chegando ao lugar, porém, viu que os ciganos tinham ido embora, e era evidente que tinham partido às pressas, porque o fogo ainda estava aceso e havia uns pratos largados na grama. Depois de mandar Washington e os dois homens vasculharem a região, voltou correndo para casa e despachou telegramas para todos os inspetores de polícia do condado, pedindo que ficassem atentos a uma menina que tinha sido raptada por vagabundos ou ciganos.
Em seguida mandou trazer o cavalo e, depois de insistir para que a esposa e os três meninos se sentassem para jantar, saiu pela estrada de Ascot com um cavalariço. Mal tinha percorrido umas duas milhas, porém, ouviu alguém galopando atrás dele. Olhou para trás e viu o pequeno duque chegando no seu pônei, muito vermelho e sem chapéu.

— Me desculpe, senhor Otis — disse o menino, ofegante —, mas não consigo jantar enquanto a Virginia estiver sumida. Por favor, não fique zangado comigo. Se o senhor tivesse deixado a gente ficar noivo no ano passado, nada disso teria acontecido. O senhor não vai me mandar de volta, vai? Eu não posso voltar! Eu não volto!
O ministro não conseguiu deixar de sorrir para aquele rapazinho bonito e levado, e ficou muito comovido com a dedicação dele a Virginia. Então se inclinou do cavalo, deu uns tapinhas carinhosos no ombro do menino e disse:
— Bem, Cecil, se você não quer voltar, acho que vai ter de vir comigo; mas vou precisar lhe comprar um chapéu em Ascot.
— Ah, deixe o chapéu pra lá! Eu quero a Virginia! — exclamou o pequeno duque, rindo.
E os dois galoparam até a estação de trem. Lá, o senhor Otis perguntou ao chefe da estação se alguém parecido com Virginia tinha sido visto na plataforma, mas não conseguiu nenhuma notícia dela. O chefe da estação, porém, telegrafou para as estações de toda a linha, nos dois sentidos, e garantiu que todos ficariam de olho.
Depois de comprar um chapéu para o pequeno duque numa loja de tecidos cujo dono já estava fechando as portas, o senhor Otis seguiu para Bexley, um vilarejo a umas quatro milhas dali, que, segundo lhe disseram, era um conhecido ponto de parada dos ciganos, porque ao lado havia um grande campo aberto.
Lá acordaram o guarda do vilarejo, mas não conseguiram nenhuma informação, e, depois de percorrer o campo inteiro, viraram os cavalos na direção de casa. Chegaram a Canterville Chase por volta das onze horas, mortos de cansaço e com o coração quase partido. Washington e os gêmeos os esperavam na casa do portão, com lanternas, porque a alameda estava muito escura. Não tinham encontrado o menor sinal de Virginia.
Os ciganos tinham sido alcançados nos prados de Brockley, mas ela não estava com eles. Explicaram a partida repentina dizendo que tinham se enganado com a data da feira de Chorton e saído às pressas com medo de chegar atrasados. Na verdade, tinham ficado muito tristes ao saber do sumiço de Virginia, porque eram muito gratos ao senhor Otis por ter deixado que acampassem no parque, e quatro deles tinham ficado para ajudar na busca.
O fundo do lago das carpas tinha sido revirado, e a propriedade inteira, vasculhada, sem nenhum resultado. Era evidente que, pelo menos naquela noite, Virginia estava perdida para eles, e foi no mais profundo desânimo que o senhor Otis e os meninos subiram até a casa, com o cavalariço vindo atrás com os dois cavalos e o pônei.
No saguão encontraram um grupo de criados assustados, e, deitada num sofá da biblioteca, estava a pobre senhora Otis, quase fora de si de medo e aflição, enquanto a velha governanta lhe molhava a testa com água-de-colônia. O senhor Otis insistiu logo para que ela comesse alguma coisa e mandou servir a ceia para todos.
Foi uma refeição triste, em que quase ninguém falou, e até os gêmeos estavam assustados e quietos, porque gostavam muito da irmã. Quando terminaram, o senhor Otis, apesar dos pedidos do pequeno duque, mandou todo mundo para a cama. Disse que não havia mais nada a fazer naquela noite e que de manhã telegrafaria à Scotland Yard pedindo que mandassem uns detetives imediatamente.
Bem quando saíam da sala de jantar, o relógio da torre começou a bater meia-noite, e, quando soou a última badalada, ouviram um estrondo e um grito agudo e repentino. Um trovão terrível sacudiu a casa, uma música que não era deste mundo flutuou pelo ar, um painel no alto da escada se abriu com um baque, e, no patamar, muito pálida e branca, com um pequeno cofre na mão, apareceu Virginia.
Num instante todos correram até ela. A senhora Otis a apertou apaixonadamente nos braços, o duque a cobriu de beijos, e os gêmeos fizeram uma dança de guerra selvagem em volta do grupo.
— Meu Deus, menina, onde você estava? — disse o senhor Otis, bastante zangado, pensando que ela tinha feito alguma brincadeira boba com eles. — Cecil e eu rodamos o condado inteiro a cavalo procurando você, e sua mãe quase morreu de susto. Nunca mais faça brincadeiras desse tipo.
— Só com o fantasma! Só com o fantasma! — gritaram os gêmeos, pulando em volta.
— Minha querida, graças a Deus você apareceu; nunca mais saia de perto de mim — murmurou a senhora Otis, beijando a menina, que tremia, e alisando o ouro embaraçado do cabelo dela.
— Pai — disse Virginia, calmamente —, eu estive com o fantasma. Ele morreu, e você precisa vir vê-lo. Ele tinha sido muito mau, mas se arrependeu de verdade de tudo o que fez, e antes de morrer me deu esta caixa de joias lindas.
A família inteira olhou para ela num espanto mudo, mas ela estava muito séria e compenetrada. Então se virou e os levou pela abertura nos lambris, por um corredor secreto e estreito, com Washington atrás, segurando uma vela acesa que tinha pegado da mesa. Por fim chegaram a uma grande porta de carvalho, cravejada de pregos enferrujados.
Virginia a tocou, e a porta girou nas dobradiças pesadas. Todos se viram num quartinho baixo, de teto abobadado, com uma única janelinha gradeada. Presa na parede havia uma enorme argola de ferro, e acorrentado a ela estava um esqueleto descarnado, estendido de comprido no chão de pedra. Parecia tentar alcançar, com os longos dedos sem carne, um prato de madeira e uma jarra antigos, colocados um pouco além do seu alcance.
A jarra, evidentemente, já tinha estado cheia de água, porque estava coberta por dentro de um bolor verde. No prato não havia nada além de um montinho de pó. Virginia se ajoelhou ao lado do esqueleto, juntou as mãozinhas e começou a rezar em silêncio, enquanto os outros olhavam, assombrados, a terrível tragédia cujo segredo agora se revelava.
— Olhem! — exclamou de repente um dos gêmeos, que estava espiando pela janela para tentar descobrir em que ala da casa ficava aquele quarto. — Olhem! A velha amendoeira seca floresceu. Dá para ver as flores direitinho ao luar.
— Deus o perdoou — disse Virginia, séria, ficando de pé, e uma luz linda pareceu iluminar o rosto dela.
— Você é um anjo! — exclamou o jovem duque, que passou o braço em volta do pescoço dela e lhe deu um beijo.
Quatro dias depois desses acontecimentos curiosos, um cortejo fúnebre saiu de Canterville Chase por volta das onze da noite. O carro fúnebre era puxado por oito cavalos pretos, cada um com um grande penacho de plumas de avestruz balançando na cabeça, e o caixão de chumbo estava coberto por um rico pano roxo, com o brasão dos Canterville bordado a ouro. Ao lado do carro e das carruagens caminhavam os criados com tochas acesas, e todo o cortejo era impressionante.
Lorde Canterville, que tinha vindo especialmente do País de Gales para o enterro, ia à frente do luto, sentado na primeira carruagem com a pequena Virginia. Depois vinham o ministro dos Estados Unidos e a esposa, depois Washington e os três meninos, e na última carruagem ia a senhora Umney. Todos achavam que, como o fantasma a tinha assustado por mais de cinquenta anos, ela tinha o direito de vê-lo partir de vez.
Tinham cavado uma cova funda num canto do cemitério, bem debaixo do velho teixo, e o reverendo Augustus Dampier leu as orações fúnebres da forma mais solene. Terminada a cerimônia, os criados, seguindo um antigo costume da família Canterville, apagaram as tochas, e, enquanto baixavam o caixão na cova, Virginia se adiantou e pôs sobre ele uma grande cruz feita de flores de amendoeira brancas e cor-de-rosa.

Nesse momento, a lua saiu de trás de uma nuvem e inundou de prata silenciosa o pequeno cemitério, e num bosque distante um rouxinol começou a cantar. Virginia pensou na descrição que o fantasma tinha feito do Jardim da Morte, os olhos dela se encheram de lágrimas, e ela quase não disse uma palavra durante a volta para casa.
Na manhã seguinte, antes de lorde Canterville partir para Londres, o senhor Otis teve uma conversa com ele sobre as joias que o fantasma tinha dado a Virginia. Eram absolutamente magníficas, sobretudo um colar de rubis com um antigo engaste veneziano, uma verdadeira obra-prima do século dezesseis, e valiam tanto que o senhor Otis tinha sérios escrúpulos em deixar a filha aceitá-las.
— Lorde Canterville — disse ele —, sei que neste país a lei que proíbe vender os bens de família vale tanto para joias como para terras, e para mim está bem claro que estas joias são, ou deveriam ser, herança da sua família. Por isso, peço ao senhor que as leve para Londres e as considere simplesmente uma parte dos seus bens que lhe foi devolvida em circunstâncias estranhas. Quanto à minha filha, ela é apenas uma criança e, fico feliz em dizer, ainda tem pouco interesse por esses enfeites de luxo inútil.
— Além disso — continuou o ministro —, a senhora Otis, que, devo dizer, não é nenhuma leiga em matéria de arte, porque teve o privilégio de passar vários invernos em Boston quando moça, me informa que estas pedras valem muito dinheiro e, se postas à venda, alcançariam um preço altíssimo. Nessas circunstâncias, lorde Canterville, tenho certeza de que o senhor vai entender que me é impossível permitir que fiquem com alguém da minha família. Todas essas vaidades e quinquilharias, por mais apropriadas ou necessárias que sejam à dignidade da aristocracia britânica, estariam completamente fora de lugar entre pessoas criadas nos princípios severos, e creio que imortais, da simplicidade republicana.
— Talvez eu deva mencionar — acrescentou ele — que Virginia deseja muito que o senhor a deixe ficar com a caixa, como lembrança do seu infeliz e desencaminhado antepassado. Como é muito antiga e, por isso mesmo, está bastante estragada, talvez o senhor ache conveniente atender ao pedido dela. De minha parte, confesso que fico muito surpreso ao ver uma filha minha simpatizar com qualquer coisa da Idade Média, e só consigo explicar isso pelo fato de Virginia ter nascido num dos seus subúrbios de Londres, pouco depois de a senhora Otis voltar de uma viagem a Atenas.
Lorde Canterville ouviu muito sério o discurso do digno ministro, puxando de vez em quando o bigode grisalho para esconder um sorriso que insistia em aparecer. Quando o senhor Otis terminou, ele lhe apertou a mão com cordialidade e disse:
— Meu caro senhor, sua encantadora filhinha prestou ao meu desafortunado antepassado, sir Simon, um serviço muito importante, e eu e minha família devemos muito à coragem e à fibra extraordinárias dela. As joias são claramente da menina, e, palavra de honra, acho que, se eu tivesse o coração duro de tirá-las dela, aquele velho malvado sairia da cova em quinze dias para me infernizar a vida.
— Quanto a serem herança de família — continuou ele —, nada é herança se não estiver mencionado num testamento ou num documento legal, e ninguém sabia que estas joias existiam. Garanto ao senhor que não tenho mais direito a elas do que o seu mordomo, e, quando a senhorita Virginia crescer, imagino que vai gostar de ter coisas bonitas para usar.
— E o senhor se esquece, senhor Otis — acrescentou lorde Canterville —, de que ficou com os móveis e com o fantasma pelo preço da avaliação, e tudo o que pertencia ao fantasma passou imediatamente para as suas mãos. Por mais ativo que sir Simon andasse pelo corredor à noite, perante a lei ele estava morto, e o senhor adquiriu os bens dele por compra.
O senhor Otis ficou bastante aflito com a recusa de lorde Canterville e lhe pediu que reconsiderasse a decisão, mas o bondoso nobre se manteve firme e acabou convencendo o ministro a deixar a filha ficar com o presente que o fantasma lhe tinha dado.
E, quando, na primavera de 1890, a jovem duquesa de Cheshire foi apresentada na primeira recepção da rainha por ocasião do seu casamento, as joias dela foram o assunto da admiração geral. É que Virginia tinha ganhado a coroa de duquesa, que é a recompensa de todas as boas meninas americanas, e se casou com o seu jovem namorado assim que ele atingiu a maioridade.
Os dois eram tão encantadores e se amavam tanto que todo mundo ficou feliz com o casamento, menos a velha marquesa de Dumbleton, que tinha tentado fisgar o duque para uma das suas sete filhas solteiras e dado nada menos que três jantares caríssimos com esse objetivo, e, por estranho que pareça, o próprio senhor Otis.
Ele gostava muito do jovem duque como pessoa, mas, em teoria, era contra os títulos de nobreza e, para usar suas próprias palavras, “não estava livre do receio de que, em meio às influências debilitantes de uma aristocracia amante dos prazeres, os verdadeiros princípios da simplicidade republicana acabassem esquecidos”. As objeções dele, porém, foram completamente vencidas, e acredito que, quando ele atravessou a nave da igreja de St. George, em Hanover Square, com a filha pelo braço, não havia homem mais orgulhoso em toda a Inglaterra.
O duque e a duquesa, depois da lua de mel, foram para Canterville Chase e, no dia seguinte à chegada, caminharam à tarde até o cemitério solitário junto aos pinheirais. No começo tinha havido muita dificuldade quanto à inscrição na lápide de sir Simon, mas por fim decidiram gravar nela apenas as iniciais do velho cavalheiro e os versos do vitral da biblioteca:
Quando a menina dourada fizer rezar a boca culpada, quando a amendoeira seca der flor e uma criança chorar pelo pecador, então a casa vai se aquietar e a paz em Canterville vai morar.
A duquesa tinha levado umas rosas lindas, que espalhou sobre o túmulo, e, depois de ficarem ali algum tempo, os dois foram passeando até as ruínas do coro da velha abadia. Lá a duquesa se sentou numa coluna caída, enquanto o marido se deitava aos pés dela, fumando um cigarro e olhando para os lindos olhos da esposa. De repente ele jogou o cigarro fora, segurou a mão dela e disse:
— Virginia, uma esposa não deve ter segredos com o marido.
— Cecil querido! Eu não tenho segredos com você.
— Tem, sim — respondeu ele, sorrindo. — Você nunca me contou o que aconteceu quando ficou trancada com o fantasma.
— Nunca contei para ninguém, Cecil — disse Virginia, séria.
— Eu sei, mas podia contar para mim.
— Por favor, não me peça isso, Cecil, eu não posso contar. Pobre sir Simon! Devo muito a ele. É, não ria, Cecil, devo mesmo. Ele me fez ver o que é a vida, o que significa a morte e por que o amor é mais forte que as duas.
O duque se levantou e beijou a esposa com carinho.
— Pode guardar seu segredo enquanto o seu coração for meu — murmurou.
— Ele sempre foi seu, Cecil.
— E um dia você vai contar para os nossos filhos, não vai?
Virginia ficou vermelha.
Recontado pela Talerie, fonte: Lord Arthur Savile's Crime and Other Stories (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
