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Velho de barba branca comprida e roupas rasgadas sentado num morro gramado ao amanhecer, com a espingarda ao lado e um rio largo entre as montanhas.

Rip Van Winkle

Washington Irving

15 min de leitura a partir dos 6 anos

Rip Van Winkle mora ao pé das montanhas Catskill e foge de qualquer trabalho que dê lucro. Cansado das broncas da mulher, ele sobe a montanha com o cachorro Wolf para caçar esquilos. No fim da tarde, alguém grita o nome dele de longe, e um velho de roupas holandesas antigas pede ajuda com um barril.


Quem já subiu o rio Hudson de barco com certeza se lembra das montanhas Catskill. Ao pé delas havia uma aldeia muito antiga, fundada pelos primeiros colonos holandeses.

Ali morava, muitos anos atrás, quando o país ainda era uma colônia da Inglaterra, um homem simples e bondoso chamado Rip Van Winkle. Era um bom vizinho e um marido dominado pela mulher, e talvez por isso fosse tão manso e tão querido por todos.

As mulheres da aldeia ficavam sempre do lado dele e punham a culpa de toda briga na senhora Van Winkle. As crianças adoravam Rip, que fazia brinquedos para elas, contava histórias de fantasmas e as deixava subir nas costas dele.

O grande defeito de Rip era não suportar nenhum trabalho que desse lucro. Passava o dia inteiro pescando numa pedra molhada, mesmo que nenhum peixe beliscasse a isca, e nunca negava ajuda a um vizinho, nem no serviço mais pesado. Cuidava da vida de todo mundo, menos da própria.

Rip, ainda de barba escura, pesca sentado numa pedra coberta de musgo à beira do rio, com o cachorro Wolf dormindo enrolado ao lado e montanhas ao fundo.

No sítio dele, dizia Rip, não adiantava trabalhar: as cercas viviam caindo e a chuva sempre começava bem na hora do serviço. Assim, a terra foi encolhendo até sobrar só uma rocinha de milho e batatas. Os filhos andavam esfarrapados, e o pequeno Rip era a cara do pai e prometia herdar os costumes dele junto com as calças velhas.

Se o deixassem em paz, Rip teria passado a vida assobiando. Mas a mulher não parava de falar da preguiça dele e da ruína da família, de manhã, de tarde e de noite. Ele só encolhia os ombros, balançava a cabeça e olhava para o céu, o que provocava uma nova enxurrada de broncas. Então saía de casa, porque, para um marido dominado pela mulher, o único lado da casa que lhe pertence é o lado de fora.

O único aliado de Rip era o cachorro, Wolf, que levava tanta bronca quanto o dono e que, em casa, enfiava o rabo entre as pernas e disparava porta afora ao ver uma vassoura.

Por muito tempo, quando era expulso de casa, Rip se consolava num banco em frente à pequena estalagem da aldeia, cuja tabuleta era um retrato do rei Jorge III, de bochechas bem vermelhas. Ali os desocupados do lugar passavam os dias de verão, e às vezes Derrick Van Bummel, o mestre-escola, lia para eles um jornal velho.

Quem mandava no grupo era Nicholas Vedder, o dono da estalagem, que quase nunca falava e só fumava o cachimbo.

Mas até desse refúgio a mulher de Rip acabou expulsando o marido. Aparecia de repente no meio da roda e dizia poucas e boas a todos, sem poupar nem Nicholas Vedder, a quem acusava de incentivar a vadiagem do marido.

Ao pobre Rip só restava pegar a espingarda e sair andando pelo mato. Às vezes se sentava ao pé de uma árvore e dividia com Wolf o que levava na sacola.

— Pobre Wolf — dizia ele. — A sua dona faz você levar uma vida de cão. Mas não ligue, meu amigo: enquanto eu viver, nunca vai faltar quem fique do seu lado!

Wolf abanava o rabo e olhava para o dono com olhos tristes, como se também sentisse pena dele.

Num belo dia de outono, caçando esquilos, Rip subiu sem perceber até um dos pontos mais altos das montanhas Catskill. No fim da tarde, cansado, ele se deitou num pequeno morro gramado, à beira de um precipício. Começava a escurecer, e Rip suspirou ao pensar na recepção que a mulher lhe faria.

Quando ia começar a descer, ouviu uma voz ao longe, chamando:

— Rip Van Winkle! Rip Van Winkle!

Olhou em volta e só viu um corvo cruzando a montanha. Achou que era imaginação e já ia se virando para descer quando o mesmo grito ecoou no ar parado da tarde:

— Rip Van Winkle! Rip Van Winkle!

Wolf arrepiou o pelo, rosnou baixinho e se encolheu junto do dono, olhando com medo para o vale. Lá embaixo, um vulto estranho subia devagar pelas pedras, curvado sob o peso de alguma coisa. Imaginando que fosse um vizinho precisando de ajuda, Rip desceu depressa.

O desconhecido era um velho baixo e atarracado, de barba grisalha, vestido à moda holandesa antiga. Levava no ombro um barril que parecia cheio de bebida e fez sinal para que Rip o ajudasse.

Rip desconfiou um pouco, mas ajudou com a boa vontade de sempre. Revezando-se para carregar o barril, os dois subiram por uma grota estreita, que parecia o leito seco de uma enxurrada. De vez em quando, Rip ouvia um ronco comprido, como trovão distante, vindo de uma fenda entre os rochedos, bem na direção em que iam. Pensou que fosse uma trovoada passageira e seguiu em frente.

Rip, de barba escura, ajuda um velho baixo de barba grisalha e roupas holandesas antigas a carregar um barril por uma grota de pedras, com Wolf logo atrás.

Atravessaram a fenda e chegaram a uma clareira escondida, cercada de paredões de pedra. Durante toda a subida, os dois não trocaram uma palavra.

No meio da clareira, um grupo de homens esquisitos jogava boliche com nove pinos. Vestiam roupas antigas como as do guia, e todos tinham barba. Um deles, velho e corpulento, de chapéu de pluma, parecia ser o comandante.

O mais estranho era que, embora estivessem se divertindo, aqueles homens tinham o rosto sério e não diziam nada. Rip nunca tinha visto uma festa tão tristonha. Só se ouvia o barulho das bolas, que ecoavam pelas montanhas como trovões.

Quando os dois se aproximaram, os jogadores pararam e ficaram olhando para Rip, imóveis como estátuas, até Rip sentir os joelhos tremerem. O guia despejou a bebida em grandes canecões e fez sinal para que ele servisse o grupo. Morrendo de medo, Rip obedeceu. Os homens beberam em silêncio e voltaram ao jogo.

Numa clareira cercada de rochedos, velhos de chapéu de pluma e roupas antigas esperam entre bolas e pinos de boliche, e Rip enche um canecão com uma jarra.

Aos poucos, o medo foi passando. Quando ninguém estava olhando, Rip provou a bebida, que tinha gosto de um ótimo gim holandês. Um gole puxava outro, e ele voltou ao canecão tantas vezes que a vista ficou turva, a cabeça foi pendendo, e ele caiu num sono profundo.

Acordou no morro gramado de onde tinha visto o velho do vale pela primeira vez. Era uma manhã clara.

“Não é possível que eu tenha dormido aqui a noite inteira”, pensou Rip. “Ah, aquele canecão! Aquele maldito canecão! O que é que eu vou dizer à minha mulher?”

Procurou a espingarda, mas, no lugar da arma limpa e bem cuidada, encontrou uma espingarda velha, com o cano coberto de ferrugem e a coronha roída de cupim. Desconfiou que aqueles jogadores carrancudos o tinham embebedado para roubar a arma dele. Wolf também tinha sumido. Chamou o cachorro e assobiou, mas só o eco respondeu.

Rip resolveu voltar à clareira e pedir de volta o cachorro e a espingarda. Ao se levantar, sentiu as juntas duras. Achou a grota por onde tinha subido na véspera, mas, para espanto dele, agora descia por ela um riacho espumante, que pulava de pedra em pedra. E, no lugar da fenda, havia só um paredão de rocha, alto e liso, de onde a água despencava. Da passagem para a clareira não restava nem sinal.

Mais uma vez, chamou o cachorro, mas só lhe responderam uns corvos lá no alto, que pareciam caçoar dele. A manhã ia passando e a fome apertava. Com o coração pesado, ele pôs a espingarda enferrujada no ombro e tomou o caminho de casa.

Perto da aldeia, cruzou com várias pessoas, mas não reconheceu ninguém. Todas o encaravam com espanto e, logo em seguida, alisavam o queixo. De tanto ver aquele gesto, Rip, sem querer, fez o mesmo, e descobriu, assombrado, que a barba tinha crescido mais de um palmo!

Na aldeia, um bando de meninos que ele não conhecia corria atrás dele, apontando para a barba grisalha, e os cachorros latiam quando ele passava. Havia casas novas, nomes estranhos nas portas, rostos estranhos nas janelas.

“Aquele canecão de ontem à noite deixou a minha pobre cabeça toda atrapalhada”, pensou.

Custou a achar a própria casa. Chegou perto em silêncio, esperando ouvir a qualquer momento a voz esganiçada da senhora Van Winkle. Mas a casa estava em ruínas: o telhado tinha desabado, e as portas pendiam soltas das dobradiças. Um cachorro magro e faminto, parecido com Wolf, rondava por ali. Rip o chamou pelo nome, mas o bicho rosnou, mostrou os dentes e foi embora.

— Até o meu cachorro se esqueceu de mim! — suspirou o pobre Rip.

Lá dentro, tudo estava vazio e abandonado. Diante disso, Rip esqueceu o medo da mulher e chamou bem alto por ela e pelos filhos. Os cômodos ecoaram a voz dele por um instante, e depois tudo voltou ao silêncio.

Rip, já velho e de barba branca, parado na porta da casa em ruínas, com o telhado desabado, teias de aranha e a espingarda encostada na parede.

Correu então para a estalagem, mas ela também tinha sumido. No lugar dela havia um casarão de madeira com uma placa: “Hotel União, de Jonathan Doolittle”. Em frente, num mastro alto, tremulava uma bandeira de estrelas e listras. Na tabuleta, Rip reconheceu o rosto vermelho do rei Jorge, mas até ele estava mudado: o casaco era azul, a mão segurava uma espada em vez do cetro, e embaixo estava escrito em letras grandes: “GENERAL WASHINGTON”.

Rip, velho e espantado, coça a cabeça numa rua da aldeia diante de uma bandeira de estrelas e listras e de uma tabuleta escrita GENERAL WASHINGTON.

Havia muita gente na porta, mas nenhum rosto conhecido. No lugar de Nicholas Vedder e de Van Bummel, um sujeito magro e azedo, com os bolsos cheios de panfletos, discursava sobre eleições, liberdade, direitos dos cidadãos e heróis de setenta e seis, palavras que soavam como grego para Rip.

Com aquela barba, a espingarda enferrujada e as crianças atrás dele, Rip logo chamou a atenção de todos. O orador quis saber em quem ele ia votar, mas Rip não entendeu a pergunta. Então um senhor de chapéu de três bicos, com ar de quem sabe tudo, abriu caminho com os cotovelos, parou na frente dele e perguntou em tom severo:

— O que o senhor veio fazer na eleição, de espingarda no ombro e com essa gente toda atrás? Está querendo armar uma confusão na aldeia?

— Ai, senhores! — exclamou Rip, assustado. — Eu sou um homem pobre e sossegado, nascido aqui, e um súdito leal do rei, que Deus o abençoe!

Na mesma hora, todo mundo começou a gritar:

— Um tory! Um espião! Fora com ele!

Com muito custo, o homem do chapéu de três bicos acalmou a multidão e perguntou quem ele estava procurando. Rip garantiu, humilde, que só queria encontrar uns vizinhos que costumavam ficar por ali.

— Pois bem, quem são eles?

— Onde está Nicholas Vedder? — perguntou Rip.

Houve um silêncio. Depois, um velho respondeu com voz fininha:

— Nicholas Vedder? Ora, morreu faz dezoito anos!

— E Brom Dutcher?

— Foi para o exército no começo da guerra e nunca mais voltou.

— E Van Bummel, o mestre-escola?

— Também foi para a guerra. Virou general e agora está no Congresso.

Rip ficou de coração partido. Cada resposta falava de coisas que ele não entendia, e ele se sentiu sozinho no mundo. Perdeu a coragem de perguntar por mais amigos e gritou, desesperado:

— Será que ninguém aqui conhece Rip Van Winkle?

— Ah, Rip Van Winkle! — exclamaram dois ou três. — Claro! Está ali, encostado naquela árvore.

Rip olhou e viu a cópia exata de si mesmo no dia em que tinha subido a montanha: a mesma cara de preguiça e os mesmos farrapos. O pobre homem ficou completamente perdido. Quando o homem do chapéu de três bicos quis saber como ele se chamava, Rip exclamou:

— Só Deus sabe! Eu não sou eu… aquele ali sou eu… não, aquele é outro que se meteu no meu lugar… Ontem à noite eu era eu, mas dormi na montanha, trocaram a minha espingarda, tudo mudou, e agora não sei mais quem eu sou!

As pessoas se entreolharam e bateram com o dedo na testa. Alguém cochichou que era melhor tirar a espingarda do velho, e o homem do chapéu de três bicos se afastou bem depressa.

Nesse momento, uma moça bonita abriu caminho para ver o velho de barba grisalha. Trazia no colo uma criança gorducha, que se assustou com ele e começou a chorar.

— Quieto, Rip — disse ela. — Quieto, seu bobinho. O velho não vai fazer mal a você.

O nome da criança, o jeito da mãe, o tom da voz dela, tudo isso despertou lembranças em Rip.

— Qual é o seu nome, minha senhora? — perguntou ele.

— Judith Gardenier.

— E o nome do seu pai?

— Ah, coitado! Ele se chamava Rip Van Winkle, mas faz vinte anos que saiu de casa com a espingarda e nunca mais se ouviu falar dele. O cachorro voltou sozinho. Eu era só uma menininha.

Rip só tinha mais uma pergunta, e a fez com a voz trêmula:

— E a sua mãe, onde está?

— Ela também morreu, faz pouco tempo. Ficou tão furiosa com um mascate da Nova Inglaterra que uma veia se rompeu.

Pelo menos nisso havia algum consolo. Rip não se conteve mais e abraçou a filha e a criança.

Numa rua movimentada da aldeia, ao entardecer, Rip abraça a filha, uma moça de vestido e lenço amarelos com uma criança chorando no colo.

— Eu sou seu pai! — exclamou. — Antes eu era o jovem Rip Van Winkle, agora sou o velho Rip Van Winkle! Será que ninguém conhece o pobre Rip Van Winkle?

Todos ficaram pasmos. Então uma velhinha saiu da multidão, cambaleando, olhou bem para o rosto dele e exclamou:

— É ele mesmo! É Rip Van Winkle! Seja bem-vindo, meu velho vizinho. Mas onde é que você se meteu esses vinte anos todos?

Rip contou a história depressa, porque para ele os vinte anos tinham sido uma noite só. Alguns vizinhos piscaram uns para os outros, e o homem do chapéu de três bicos balançou a cabeça.

Resolveram, então, ouvir o velho Peter Vanderdonk, o morador mais antigo da aldeia. Ele reconheceu Rip na hora e confirmou a história. Contou que o grande Hendrick Hudson, o descobridor do rio, voltava às montanhas Catskill a cada vinte anos com a tripulação do navio Meia-Lua. O pai de Peter os tinha visto uma vez, com as roupas holandesas antigas, jogando boliche na montanha, e o próprio Peter, numa tarde de verão, tinha ouvido o barulho das bolas, como trovões distantes.

Depois disso, o povo voltou a cuidar da eleição. Judith levou o pai para morar com ela, numa casa confortável. O marido dela era um fazendeiro alegre e robusto, e Rip reconheceu nele um dos meninos que antigamente viviam subindo nas costas do futuro sogro. O filho, aquela cópia do pai encostada na árvore, foi trabalhar no sítio, mas tinha herdado a mania de cuidar de tudo, menos do próprio serviço.

Já na idade em que um homem pode ficar à toa sem que ninguém reclame, Rip voltou a se sentar no banco à porta da estalagem e passou a ser respeitado como um dos patriarcas da aldeia. Demorou um pouco para entender que tinha havido uma guerra e que ele já não era súdito do rei Jorge III, e sim um cidadão livre dos Estados Unidos.

De política, entendia pouco. Mas havia uma tirania que tinha acabado de verdade para ele: a da mulher. Podia, enfim, entrar e sair de casa quando quisesse. Mesmo assim, sempre que alguém falava nela, Rip encolhia os ombros, balançava a cabeça e olhava para o céu, e ninguém sabia se era tristeza ou alegria.

Ele contava a história a todo forasteiro que chegava ao hotel, até que todo mundo na região a sabia de cor. Alguns diziam que Rip tinha perdido o juízo, mas os velhos moradores holandeses acreditavam em tudo.

À noite, sob a luz de um lampião, Rip está sentado num banco à porta da estalagem, com a espingarda ao lado, contando a história a moradores atentos.

Até hoje, quando troveja numa tarde de verão nas montanhas Catskill, eles dizem que é Hendrick Hudson com a tripulação, jogando boliche. E os maridos dominados pela mulher, naquelas redondezas, suspiram por um gole do canecão de Rip Van Winkle.

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Recontado pela Talerie, fonte: The Sketch-Book of Geoffrey Crayon (abre em uma nova janela) Domínio público

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Sobre este conto

“Rip Van Winkle” foi escrito por Washington Irving e saiu em 1819, em Nova York, no primeiro número de “The Sketch Book of Geoffrey Crayon, Gent.”, publicado em fascículos sob o pseudônimo Geoffrey Crayon. Irving apresenta o conto como um texto achado entre os papéis do falecido Diedrich Knickerbocker, outro narrador inventado.

A redação de Irving quase não mudou depois de 1819. Em edições posteriores, a nota do fim passou a citar o imperador Frederico Barba-Ruiva em vez de Carlos V, e o conto ganhou um pós-escrito com lendas das montanhas Catskill. Nossas duas versões partem do texto do Project Gutenberg e deixam de fora a nota e o pós-escrito.

O conto de Irving e uma lenda alemã mais antiga

Irving (1819)Otmar, “Der Ziegenhirt” (1800)
Quem dormeRip, aldeão preguiçoso, dominado pela mulherPeter Klaus, pastor de cabras de Sittendorf
Ondemontanhas Catskill, perto do rio Hudsono Kyffhäuser
Como chega láajuda um velho a carregar um barrilsegue uma cabra por uma fenda em muros velhos
Quem jogahomens calados em roupas holandesas antigasdoze cavaleiros sérios que não dizem nada
O jogoboliche; Rip serve a bebidaboliche; Peter levanta os pinos
A bebidagim holandêsvinho de uma jarra que nunca seca
Quanto tempovinte anosvinte anos
O sinaltodos alisam o queixo; a barba cresceutodos levam a mão ao queixo; a barba cresceu
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Será que ninguém aqui conhece Rip Van Winkle?
Washington Irving, The Sketch-Book (Project Gutenberg): Does nobody here know Rip Van Winkle?

O que fazem as nossas duas versões

Recontamos o texto de Irving em duas versões, e você pode escolher qual ler: a “Mais suave”, com 80 parágrafos, e a “Original”, mais longa, com 136. Nenhuma delas traz a moldura de Knickerbocker; as duas começam no rio Hudson e nas montanhas Catskill. A “Mais suave” corta algumas falas, como a pergunta se Rip é federalista ou democrata e as duas hipóteses de Judith sobre o sumiço do pai: na “Original”, ela diz que ninguém sabe se ele se matou com um tiro ou se foi levado pelos indígenas. Nas duas, quem explica quem eram os homens do boliche é o velho Peter Vanderdonk: segundo ele, Hendrick Hudson volta às montanhas a cada vinte anos com a tripulação do Meia-Lua.

Rip adormece depois de beber do gim dos desconhecidos. Quando volta, fica sabendo que a mulher morreu: uma veia se rompeu num acesso de raiva contra um mascate. O conto trata a notícia como um alívio para ele, e nenhuma cena mostra alguém se machucando.

Histórias parecidas e uma confusão

Em 1800, com o pseudônimo Otmar, Johann Karl Christoph Nachtigal publicou em Bremen o livro “Volcks-Sagen”, com a lenda “Der Ziegenhirt”. Nela, o pastor Peter Klaus encontra no Kyffhäuser doze cavaleiros calados que jogam boliche, bebe do vinho deles, dorme e volta vinte anos depois; conta à filha Marie quem é, e então as pessoas o reconhecem. No mesmo livro, “Der verzauberte Kaiser” mostra o imperador Frederico num trono de ouro dentro dessa montanha, com a barba ruiva atravessando a mesa de pedra. A nota no fim do conto de Irving admite que se poderia suspeitar que a história de Rip nasceu de uma pequena superstição alemã sobre o Kyffhäuser, mas garante, de brincadeira, que tudo é verdade. Nenhuma fonte que lemos diz que Irving conhecia o livro de Otmar.

Outro sono longo do nosso site é o de “A Bela Adormecida”, que dura cem anos por causa de um feitiço. Rip dorme vinte, o texto não fala em feitiço, e ele acorda sozinho no morro.

Fontes

Textos de época

Conferido com estas fontes em 30 de outubro de 2026.

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