
O Pé de Zimbro
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Debaixo do zimbro, uma mulher corta o dedo e deseja um filho branco como a neve e vermelho como o sangue. O menino nasce, a mãe morre, e a nova mulher do pai quer a fortuna toda para a própria filha, Marleninha. Então ela abre o baú de tampa pesada e chama o menino para pegar uma maçã.
Era uma vez, há uns dois mil anos, um homem rico que tinha uma mulher bonita e devota. Os dois se amavam muito, mas não tinham filhos, por mais que ela rezasse dia e noite.
No pátio da casa deles crescia um pé de zimbro. Num dia de inverno, a mulher estava debaixo dele descascando uma maçã quando cortou o dedo, e o sangue pingou na neve.

— Ah — suspirou ela —, se eu tivesse um filho vermelho como o sangue e branco como a neve!
Enquanto falava, sentiu o coração leve, como se aquilo fosse mesmo acontecer.
Os meses foram passando. No sétimo mês, ela comeu muitas frutinhas do zimbro e ficou doente e triste. No oitavo, chamou o marido e disse, chorando:
— Se eu morrer, me enterre debaixo do zimbro.
No fim do nono mês nasceu um menino branco como a neve e vermelho como o sangue. Quando a mãe viu o filho, ficou tão feliz que morreu.
O marido a enterrou debaixo do zimbro e chorou muito. Com o tempo, a dor foi passando, e ele se casou de novo.
Com a segunda mulher, teve uma filha, Marleninha. A madrasta amava a filha, mas odiava o menino: queria a fortuna toda para Marleninha, e o Maligno não a deixava pensar em outra coisa. Ela batia no menino por qualquer coisa, e o pobre não tinha sossego em canto nenhum.
Um dia, Marleninha foi atrás da mãe até o quarto e pediu uma maçã. A madrasta tirou uma do baú, que tinha uma tampa grande e pesada e uma fechadura de ferro afiada.
— Mãe, e o maninho, não vai ganhar uma também? — perguntou Marleninha.
— Vai, quando voltar da escola — respondeu a madrasta, com raiva.
Pela janela, ela viu o menino chegando. Foi como se o Diabo tivesse entrado nela: tomou a maçã da filha, jogou a fruta de volta no baú e fechou a tampa. Quando o menino entrou, ela falou com voz doce e olhar maldoso:
— Meu filho, quer uma maçã?
— Mãe, que cara assustadora você está fazendo! Quero, sim.
— Venha comigo — disse ela, e abriu o baú. — Pegue você mesmo.
Quando o menino se abaixou para pegar a maçã, ela fechou a tampa com toda a força, e a tampa pesada cortou a cabeça dele.
A madrasta ficou apavorada. “Se eu conseguisse fazer todo mundo pensar que não fui eu!”, pensou. Pôs a cabeça de volta no lugar e amarrou um lenço branco em volta do pescoço do menino, para que não se visse nada. Depois sentou o menino numa cadeira diante da porta, com a maçã na mão.

Pouco depois, Marleninha entrou na cozinha, onde a mãe mexia uma panela no fogo, e contou que o maninho estava na porta, muito branco, e não respondia.
— Volte lá — disse a madrasta. — Se ele não responder, dê um tapa na orelha dele.
Marleninha voltou e pediu a maçã ao irmão, mas ele ficou calado. Então ela deu um tapa na orelha dele, e a cabeça caiu no chão. Apavorada, Marleninha correu chorando até a madrasta.
— Ai, mãe, eu arranquei a cabeça do maninho!
— Marleninha, o que você fez? Fique quieta e não conte para ninguém. Agora não tem mais jeito. Vamos fazer chouriço com ele.
Então a madrasta cortou o menino em pedaços e fez chouriço com ele na panela. Marleninha chorava ao lado, e as lágrimas caíam todas na panela, tanto que nem foi preciso pôr sal.
O pai chegou em casa, se sentou para jantar e perguntou pelo filho. A madrasta trouxe uma travessa enorme de chouriço e disse que o menino tinha ido passar seis semanas com um tio-avô da mãe dele.
— Nem se despediu de mim! — disse o pai, e começou a comer.
— Marleninha, por que você está chorando? Seu irmão logo volta. Ah, mulher, que comida gostosa! Me dê mais. Isto não é para vocês. Parece que é tudo meu.
Quanto mais comia, mais queria. Comeu tudo e jogou os ossos debaixo da mesa.
Marleninha tirou da cômoda o lenço de seda mais bonito que tinha, juntou todos os ossos debaixo da mesa e amarrou tudo no lenço. Depois, chorando muito, levou a trouxa para fora e a deixou debaixo do zimbro.
Então o zimbro começou a se mexer. Os galhos se abriam e se fechavam, como mãos que batem palmas. Da árvore subiu uma névoa, e no meio da névoa ardia um fogo. Do fogo saiu voando um pássaro lindo, que cantava maravilhosamente e subiu bem alto no céu. O zimbro voltou a ficar como antes, e o lenço com os ossos tinha sumido. Marleninha ficou alegre e tranquila, como se o irmão ainda estivesse vivo, e entrou em casa para jantar.

O pássaro pousou no telhado da casa de um ourives e começou a cantar:
Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
O ourives estava fazendo uma corrente de ouro. Achou a canção tão bonita que correu para a rua com um chinelo num pé e só de meia no outro.

— Pássaro, como você canta bonito! Cante de novo para mim.
— Duas vezes de graça eu não canto — disse o pássaro. — Me dê a corrente de ouro, e eu canto de novo.
O ourives deu a corrente. O pássaro a pegou com a garra direita, pousou na frente dele e cantou:
Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
Depois voou até o telhado de um sapateiro e cantou:
Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
O sapateiro saiu correndo e chamou a mulher, os filhos e os aprendizes. Todos vieram olhar o pássaro de penas vermelhas e verdes, com o pescoço de ouro e os olhos brilhando como estrelas.
— Pássaro, cante aquela canção de novo — pediu o sapateiro.
— Duas vezes de graça eu não canto. Você tem que me dar alguma coisa.
— Mulher, traga os sapatos vermelhos que estão lá no sótão.
O pássaro pegou os sapatos com a garra esquerda, voltou para o telhado e cantou:
Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
Então voou até um moinho, onde vinte moleiros talhavam uma pedra de moinho, tec-tec, tec-tec. O pássaro pousou numa tília na frente do moinho e cantou:
Minha mãe me matou,
Um dos moleiros parou de trabalhar.
meu pai me comeu,
Mais dois pararam.
minha irmã, Marleninha,
Mais quatro pararam.
juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou,
Só oito ainda batiam na pedra.
debaixo do zimbro
Só cinco.
os deixou.
Só um.
Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
Então o último também parou e ouviu o fim.
— Pássaro, como você canta bonito! Cante mais uma vez para mim.
— Duas vezes de graça eu não canto. Me deem a pedra de moinho, e eu canto de novo.
— Se ele cantar de novo, a pedra é dele — disseram os outros.
Os vinte moleiros levantaram a pedra com uma trave. O pássaro enfiou a cabeça pelo buraco do meio, como se a pedra fosse um colar, e cantou:
Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

Depois, levando os três presentes, voou até a casa do pai.
Lá dentro, o pai, a madrasta e Marleninha estavam jantando.
— Como estou contente hoje! — disse o pai. — Parece que vou rever um velho amigo.
— Pois eu estou aflita, como se viesse uma tempestade — disse a madrasta.
Marleninha chorava num canto. Então o pássaro pousou no zimbro e cantou:
Minha mãe me matou,
A madrasta tapou os ouvidos e fechou os olhos, mas dentro da cabeça dela rugia uma tempestade.
meu pai me comeu,
— Ah, mulher — disse o pai —, que pássaro lindo! O sol está tão quente, e sinto um cheiro de canela.
minha irmã, Marleninha,
Marleninha encostou a cabeça nos joelhos e chorou ainda mais.
— Vou lá fora ver esse pássaro de perto — disse o pai.
— Não vá! — pediu a madrasta. — Parece que a casa inteira está tremendo e pegando fogo.
Mas o pai saiu e ficou olhando o pássaro:
juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
Então o pássaro deixou cair a corrente de ouro bem em volta do pescoço do pai. O pai entrou contente para mostrar o presente, e a madrasta, apavorada, caiu no chão. O pássaro cantou de novo:
Minha mãe me matou,
— Quem me dera estar bem fundo debaixo da terra, para não ouvir isso! — gritou a madrasta.
meu pai me comeu,
A madrasta caiu de novo, como morta.
minha irmã, Marleninha,
— Eu também vou lá fora ver se o pássaro me dá alguma coisa — disse Marleninha, e saiu.
juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou,
Então o pássaro jogou os sapatos para ela.
debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
Marleninha calçou os sapatos vermelhos e entrou em casa dançando.
— Saí tão triste e agora estou tão contente! Que pássaro maravilhoso!
A madrasta se levantou de um pulo, com o cabelo em pé como labaredas.
— Parece que o mundo vai acabar! Eu também vou lá fora, ver se meu coração fica mais leve.
Mas, quando ela passou pela porta, o pássaro soltou a pedra de moinho em cima dela, e a madrasta morreu esmagada.

O pai e Marleninha ouviram o barulho e saíram. Daquele lugar subiam fumaça e labaredas, e, quando tudo passou, ali estava o menino, vivo de novo. Ele pegou o pai e Marleninha pela mão, e os três, muito felizes, entraram em casa e jantaram juntos.
Recontado pela Talerie, fonte: Household Tales by Brothers Grimm (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
