Pular para o conteúdo
Um pássaro vermelho e verde, de pescoço dourado, canta num zimbro com uma corrente de ouro e sapatos vermelhos nas garras; embaixo, um homem e uma menina olham.

O Pé de Zimbro

Irmãos Grimm

10 min de leitura a partir dos 8 anos

Debaixo do zimbro, uma mulher corta o dedo e deseja um filho branco como a neve e vermelho como o sangue. O menino nasce, a mãe morre, e a nova mulher do pai quer a fortuna toda para a própria filha, Marleninha. Então ela abre o baú de tampa pesada e chama o menino para pegar uma maçã.


Era uma vez, há uns dois mil anos, um homem rico que tinha uma mulher bonita e devota. Os dois se amavam muito, mas não tinham filhos, por mais que ela rezasse dia e noite.

No pátio da casa deles crescia um pé de zimbro. Num dia de inverno, a mulher estava debaixo dele descascando uma maçã quando cortou o dedo, e o sangue pingou na neve.

Uma mulher de vestido azul, xale e touca branca descasca uma maçã com uma faca debaixo do zimbro, e uma gota de sangue cai na neve aos pés dela.

— Ah — suspirou ela —, se eu tivesse um filho vermelho como o sangue e branco como a neve!

Enquanto falava, sentiu o coração leve, como se aquilo fosse mesmo acontecer.

Os meses foram passando. No sétimo mês, ela comeu muitas frutinhas do zimbro e ficou doente e triste. No oitavo, chamou o marido e disse, chorando:

— Se eu morrer, me enterre debaixo do zimbro.

No fim do nono mês nasceu um menino branco como a neve e vermelho como o sangue. Quando a mãe viu o filho, ficou tão feliz que morreu.

O marido a enterrou debaixo do zimbro e chorou muito. Com o tempo, a dor foi passando, e ele se casou de novo.

Com a segunda mulher, teve uma filha, Marleninha. A madrasta amava a filha, mas odiava o menino: queria a fortuna toda para Marleninha, e o Maligno não a deixava pensar em outra coisa. Ela batia no menino por qualquer coisa, e o pobre não tinha sossego em canto nenhum.

Um dia, Marleninha foi atrás da mãe até o quarto e pediu uma maçã. A madrasta tirou uma do baú, que tinha uma tampa grande e pesada e uma fechadura de ferro afiada.

— Mãe, e o maninho, não vai ganhar uma também? — perguntou Marleninha.

— Vai, quando voltar da escola — respondeu a madrasta, com raiva.

Pela janela, ela viu o menino chegando. Foi como se o Diabo tivesse entrado nela: tomou a maçã da filha, jogou a fruta de volta no baú e fechou a tampa. Quando o menino entrou, ela falou com voz doce e olhar maldoso:

— Meu filho, quer uma maçã?

— Mãe, que cara assustadora você está fazendo! Quero, sim.

— Venha comigo — disse ela, e abriu o baú. — Pegue você mesmo.

Quando o menino se abaixou para pegar a maçã, ela fechou a tampa com toda a força, e a tampa pesada cortou a cabeça dele.

A madrasta ficou apavorada. “Se eu conseguisse fazer todo mundo pensar que não fui eu!”, pensou. Pôs a cabeça de volta no lugar e amarrou um lenço branco em volta do pescoço do menino, para que não se visse nada. Depois sentou o menino numa cadeira diante da porta, com a maçã na mão.

Um menino muito pálido, com um lenço branco no pescoço e uma maçã na mão, está sentado numa cadeira perto da porta; Marleninha estende a mão para ele.

Pouco depois, Marleninha entrou na cozinha, onde a mãe mexia uma panela no fogo, e contou que o maninho estava na porta, muito branco, e não respondia.

— Volte lá — disse a madrasta. — Se ele não responder, dê um tapa na orelha dele.

Marleninha voltou e pediu a maçã ao irmão, mas ele ficou calado. Então ela deu um tapa na orelha dele, e a cabeça caiu no chão. Apavorada, Marleninha correu chorando até a madrasta.

— Ai, mãe, eu arranquei a cabeça do maninho!

— Marleninha, o que você fez? Fique quieta e não conte para ninguém. Agora não tem mais jeito. Vamos fazer chouriço com ele.

Então a madrasta cortou o menino em pedaços e fez chouriço com ele na panela. Marleninha chorava ao lado, e as lágrimas caíam todas na panela, tanto que nem foi preciso pôr sal.

O pai chegou em casa, se sentou para jantar e perguntou pelo filho. A madrasta trouxe uma travessa enorme de chouriço e disse que o menino tinha ido passar seis semanas com um tio-avô da mãe dele.

— Nem se despediu de mim! — disse o pai, e começou a comer.

— Marleninha, por que você está chorando? Seu irmão logo volta. Ah, mulher, que comida gostosa! Me dê mais. Isto não é para vocês. Parece que é tudo meu.

Quanto mais comia, mais queria. Comeu tudo e jogou os ossos debaixo da mesa.

Marleninha tirou da cômoda o lenço de seda mais bonito que tinha, juntou todos os ossos debaixo da mesa e amarrou tudo no lenço. Depois, chorando muito, levou a trouxa para fora e a deixou debaixo do zimbro.

Então o zimbro começou a se mexer. Os galhos se abriam e se fechavam, como mãos que batem palmas. Da árvore subiu uma névoa, e no meio da névoa ardia um fogo. Do fogo saiu voando um pássaro lindo, que cantava maravilhosamente e subiu bem alto no céu. O zimbro voltou a ficar como antes, e o lenço com os ossos tinha sumido. Marleninha ficou alegre e tranquila, como se o irmão ainda estivesse vivo, e entrou em casa para jantar.

Marleninha, com o rosto molhado de lágrimas e as mãos juntas, vê um pássaro vermelho e verde subir do zimbro numa névoa iluminada por fogo.

O pássaro pousou no telhado da casa de um ourives e começou a cantar:

Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

O ourives estava fazendo uma corrente de ouro. Achou a canção tão bonita que correu para a rua com um chinelo num pé e só de meia no outro.

Na rua, o ourives de avental segura uma corrente de ouro e um alicate e olha para o pássaro que canta no alto do telhado; está de meias brancas e chinelo.

— Pássaro, como você canta bonito! Cante de novo para mim.

— Duas vezes de graça eu não canto — disse o pássaro. — Me dê a corrente de ouro, e eu canto de novo.

O ourives deu a corrente. O pássaro a pegou com a garra direita, pousou na frente dele e cantou:

Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

Depois voou até o telhado de um sapateiro e cantou:

Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

O sapateiro saiu correndo e chamou a mulher, os filhos e os aprendizes. Todos vieram olhar o pássaro de penas vermelhas e verdes, com o pescoço de ouro e os olhos brilhando como estrelas.

— Pássaro, cante aquela canção de novo — pediu o sapateiro.

— Duas vezes de graça eu não canto. Você tem que me dar alguma coisa.

— Mulher, traga os sapatos vermelhos que estão lá no sótão.

O pássaro pegou os sapatos com a garra esquerda, voltou para o telhado e cantou:

Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

Então voou até um moinho, onde vinte moleiros talhavam uma pedra de moinho, tec-tec, tec-tec. O pássaro pousou numa tília na frente do moinho e cantou:

Minha mãe me matou,

Um dos moleiros parou de trabalhar.

meu pai me comeu,

Mais dois pararam.

minha irmã, Marleninha,

Mais quatro pararam.

juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou,

Só oito ainda batiam na pedra.

debaixo do zimbro

Só cinco.

os deixou.

Só um.

Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

Então o último também parou e ouviu o fim.

— Pássaro, como você canta bonito! Cante mais uma vez para mim.

— Duas vezes de graça eu não canto. Me deem a pedra de moinho, e eu canto de novo.

— Se ele cantar de novo, a pedra é dele — disseram os outros.

Os vinte moleiros levantaram a pedra com uma trave. O pássaro enfiou a cabeça pelo buraco do meio, como se a pedra fosse um colar, e cantou:

Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

Numa tília junto a um moinho, o pássaro canta com a pedra de moinho no pescoço, a corrente e os sapatos vermelhos nas garras; quatro moleiros olham espantados.

Depois, levando os três presentes, voou até a casa do pai.

Lá dentro, o pai, a madrasta e Marleninha estavam jantando.

— Como estou contente hoje! — disse o pai. — Parece que vou rever um velho amigo.

— Pois eu estou aflita, como se viesse uma tempestade — disse a madrasta.

Marleninha chorava num canto. Então o pássaro pousou no zimbro e cantou:

Minha mãe me matou,

A madrasta tapou os ouvidos e fechou os olhos, mas dentro da cabeça dela rugia uma tempestade.

meu pai me comeu,

— Ah, mulher — disse o pai —, que pássaro lindo! O sol está tão quente, e sinto um cheiro de canela.

minha irmã, Marleninha,

Marleninha encostou a cabeça nos joelhos e chorou ainda mais.

— Vou lá fora ver esse pássaro de perto — disse o pai.

— Não vá! — pediu a madrasta. — Parece que a casa inteira está tremendo e pegando fogo.

Mas o pai saiu e ficou olhando o pássaro:

juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

Então o pássaro deixou cair a corrente de ouro bem em volta do pescoço do pai. O pai entrou contente para mostrar o presente, e a madrasta, apavorada, caiu no chão. O pássaro cantou de novo:

Minha mãe me matou,

— Quem me dera estar bem fundo debaixo da terra, para não ouvir isso! — gritou a madrasta.

meu pai me comeu,

A madrasta caiu de novo, como morta.

minha irmã, Marleninha,

— Eu também vou lá fora ver se o pássaro me dá alguma coisa — disse Marleninha, e saiu.

juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou,

Então o pássaro jogou os sapatos para ela.

debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!

Marleninha calçou os sapatos vermelhos e entrou em casa dançando.

— Saí tão triste e agora estou tão contente! Que pássaro maravilhoso!

A madrasta se levantou de um pulo, com o cabelo em pé como labaredas.

— Parece que o mundo vai acabar! Eu também vou lá fora, ver se meu coração fica mais leve.

Mas, quando ela passou pela porta, o pássaro soltou a pedra de moinho em cima dela, e a madrasta morreu esmagada.

Diante da casa, entre fiapos de fumaça, o menino sorri de mãos dadas com o pai, que usa a corrente de ouro no pescoço, e com Marleninha, de sapatos vermelhos.

O pai e Marleninha ouviram o barulho e saíram. Daquele lugar subiam fumaça e labaredas, e, quando tudo passou, ali estava o menino, vivo de novo. Ele pegou o pai e Marleninha pela mão, e os três, muito felizes, entraram em casa e jantaram juntos.

Que nota você dá para este conto?

Recontado pela Talerie, fonte: Household Tales by Brothers Grimm (abre em uma nova janela) Domínio público

Contos parecidos

Cinderela

9 min de leitura a partir dos 6 anos

Rip Van Winkle

15 min de leitura a partir dos 6 anos

Barba Azul

8 min de leitura a partir dos 8 anos

Os Sete Corvos

6 min de leitura a partir dos 6 anos

Pinóquio

15 min de leitura a partir dos 6 anos

Rumpelstiltskin

4 min de leitura a partir dos 6 anos

A Bela e a Fera

15 min de leitura a partir dos 6 anos

Sobre este conto

Quem pôs “O Pé de Zimbro” no papel, em baixo-alemão, foi Otto Runge; segundo os Grimm, ele o anotou tal como o povo contava. Os irmãos Grimm o publicaram em Berlim em 1812, como número 47 do primeiro volume dos seus contos. Segundo Bolte e Polívka, o conto já tinha saído impresso em 1808.

Entre a edição de 1812 e a de 1857 a história não muda, só a linguagem. O conto fica sempre em baixo-alemão, mas desde a 5ª edição, de 1843, o pássaro canta em alto-alemão. Nossos dois recontos seguem a tradução inglesa de Margaret Hunt, que não diz de qual edição alemã partiu.

O conto nas edições dos Grimm de 1812 e de 1857

Grimm, 1812Grimm, 1857
TítuloVan den Machandel-BoomVon dem Machandelboom
Edição1ª, Berlim7ª, Göttingen
Língua do contobaixo-alemãobaixo-alemão
Canção do pássaroem baixo-alemãoem alto-alemão (desde 1843)
Primeiro verso“Min Moder de mi slacht’t”“mein Mutter der mich schlacht”
Enredoo mesmoo mesmo
Mostrar mais
Minha mãe me matou, meu pai me comeu, minha irmã, Marleninha, juntou cada osso meu, num lenço de seda os atou, debaixo do zimbro os deixou. Kywitt, kywitt, que lindo pássaro sou eu!
Irmãos Grimm, 1812: Min Moder de mi slacht’t, / min Vader de mi att, / min Swester de Marleeniken / söcht alle mine Beeniken, / un bindt se in een siden Dook, / legts unner den Machandelboom; / kywitt, kywitt! ach watt een schön Vagel bin ick!

O que acontece no nosso reconto

Debaixo de um pé de zimbro, uma mulher corta o dedo, vê o sangue na neve e deseja um filho vermelho como o sangue e branco como a neve. O menino nasce, a mãe morre e é enterrada sob a árvore. O pai se casa de novo e tem uma filha, Marleninha. A madrasta quer a fortuna toda para a filha: mata o menino com a tampa do baú de maçãs, faz chouriço com ele e o serve ao pai, que come tudo. Marleninha junta os ossos num lenço de seda e os deixa debaixo do zimbro, e da árvore sai voando um pássaro. Com a sua canção, ele ganha uma corrente de ouro do ourives, sapatos vermelhos do sapateiro e uma pedra de moinho dos moleiros. Em casa, deixa cair a corrente no pescoço do pai, joga os sapatos para Marleninha e solta a pedra em cima da madrasta. Quando a fumaça e as labaredas passam, ali está o menino, vivo de novo, e os três entram para jantar.

Você pode escolher entre dois recontos nossos. Na “Mais suave”, as cenas duras continuam lá, só contadas em poucas linhas: a tampa corta a cabeça do menino, e a madrasta o corta em pedaços. A “Original” segue Hunt de perto e se demora em cada cena; nela, Marleninha chora lágrimas de sangue e deixa os ossos na grama verde. As lágrimas de sangue estão em Hunt; a grama verde vem do texto alemão. É bom saber de antemão: o pai come o próprio filho sem saber, e nenhuma das versões diz que ele chega a descobrir o que comeu; no fim, o menino volta vivo.

Contos parecidos e uma confusão

Os próprios Grimm observaram que o começo, com o dedo cortado, lembra “Branca de Neve”. Também apontaram uma passagem do “Fausto” de Goethe; segundo Bolte e Polívka, Goethe põe os versos do menino morto na boca de uma infanticida que perdeu o juízo, na cena da prisão. Bolte e Polívka registram ainda histórias aparentadas em muitos países da Europa, várias delas com alguma forma da mesma canção. Numa variante inglesa, “The Rose-Tree”, quem canta fala de um irmãozinho, e não de uma irmã. Da Espanha, citam só um conto andaluz chamado “Ursuleta”.

Os sapatos vermelhos que o pássaro dá a Marleninha não têm nada a ver com “Os Sapatos Vermelhos”, de Andersen, que é outro conto da nossa biblioteca. E Marleninha é filha da madrasta, ou seja, meia-irmã do menino.

Fontes

Textos de época

Comentário

Catálogo

Conferido com estas fontes em 2 de novembro de 2026.

Onde mais encontrar este conto