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Uma jovem de vestido azul, de costas na galeria comprida de janelas altas, ergue uma vela e uma chavinha; no fundo, uma porta baixa e escura, fechada.

Barba Azul

Charles Perrault

8 min de leituraa partir dos 8 anos

Barba Azul deixa à jovem esposa as chaves de toda a casa e proíbe que ela abra o quartinho do fim da galeria. A mancha da chavinha denuncia a mulher, e ela só escapa do cutelo porque os irmãos dela chegam a cavalo, de espada na mão: Barba Azul cai morto e toda a fortuna dele passa a ser dela.


Era uma vez um homem que tinha casas bonitas na cidade e no campo, baixela de ouro e prata, móveis estofados com bordados e carruagens douradas. Mas tinha também uma barba azul, e essa barba o deixava tão feio e tão assustador que todo mundo fugia quando ele aparecia.

Uma vizinha dele, senhora de boa família, tinha duas filhas. Barba Azul pediu uma delas em casamento. Nenhuma das duas quis, porque não conseguia aceitar um marido com a barba daquela cor.

Havia ainda outra coisa que as afastava dele. Barba Azul já tinha sido casado várias vezes, e ninguém sabia dizer o que havia acontecido com aquelas mulheres.

Para que o conhecessem melhor, ele levou as duas moças, a mãe delas e três ou quatro amigas para uma de suas casas de campo, e lá ficaram oito dias inteiros.

Foram oito dias de passeios, caçadas e pescarias, de bailes, jantares e ceias. Tudo correu tão bem que a barba já não parecia tão azul à filha mais nova, e ela começou a achar que o dono da casa era um homem muito agradável. Assim que voltaram para a cidade, o casamento ficou combinado.

Barba Azul ri à cabeceira da mesa, à luz das velas, enquanto a moça sentada a seu lado o observa; outros convidados jantam em volta.

Um mês depois, Barba Azul disse à esposa que precisava viajar, por seis semanas pelo menos, para tratar de um negócio importante. Pediu que ela se divertisse bastante enquanto ele estivesse fora.

— Chame suas amigas, leve todas ao campo se quiser, mande servir o que houver de melhor — disse ele. — Aqui estão as chaves dos dois grandes guarda-móveis, estas são as da baixela de ouro e prata que só usamos nas festas, estas abrem os cofres do meu dinheiro, estas as caixas das minhas pedras preciosas, e esta é a chave-mestra de todos os aposentos.

Depois separou uma chave pequena das outras.

— Esta chavinha abre o quartinho que fica no fim da galeria comprida, lá embaixo. Abra tudo, entre onde quiser. Mas nesse quartinho eu proíbo você de entrar, e proíbo de tal modo que, se abrir aquela porta, pode esperar de mim o pior dos castigos.

Barba Azul entrega o molho de chaves à esposa numa sala de janelas altas e ergue entre os dedos a chavinha dourada, olhando sério para ela.

Ela prometeu obedecer em tudo. Ele subiu na carruagem e partiu.

As vizinhas e as amigas nem esperaram ser chamadas. Estavam loucas para ver as riquezas daquela casa, onde nunca tinham tido coragem de entrar enquanto o dono estava nela.

Percorreram os quartos, as salas e os camarins, cada um mais bonito que o outro. Subiram aos guarda-móveis e não se cansavam de admirar as tapeçarias, as camas, os sofás, as mesinhas e os espelhos em que a gente se via dos pés à cabeça.

Não paravam de elogiar a sorte da amiga. Ela, porém, não se divertia com nada daquilo. Só conseguia pensar na chavinha e na porta do andar de baixo.

A curiosidade apertou tanto que, sem se importar de deixar as visitas sozinhas, ela desceu por uma escadinha escondida, com tanta pressa que quase caiu duas ou três vezes.

Diante da porta, parou. Lembrou-se da proibição do marido e pensou no mal que poderia lhe acontecer se desobedecesse. Mas a tentação era forte demais. Pegou a chavinha e abriu a porta, tremendo.

No começo não viu nada, porque as janelas estavam fechadas. Aos poucos, na penumbra, foi entendendo o que era aquele quartinho: ali Barba Azul guardava o segredo da casa, e ali ele tinha matado, uma depois da outra, as mulheres com quem tinha se casado antes dela. Nenhuma tinha escapado.

Quase morreu de medo. A chave, que ela tinha acabado de tirar da fechadura, caiu da mão dela.

Quando conseguiu respirar de novo, apanhou a chave do chão, fechou a porta e subiu para o quarto. Tentou se acalmar e não conseguiu.

Foi então que reparou: a chave estava manchada. Limpou uma vez, duas, três. A mancha não saía.

À luz de uma vela, sentada a uma mesa de madeira, a esposa esfrega a chavinha com um pano, assustada; a mancha escura continua ali.

Lavou, esfregou com areia, esfregou com pedra, e foi tudo inútil. Aquela chave era enfeitiçada, e não havia jeito de deixá-la limpa. Quando a mancha sumia de um lado, aparecia do outro.

Naquela mesma noite, Barba Azul voltou de viagem. Contou que tinha recebido cartas no caminho, avisando que o negócio já estava resolvido a seu favor. A esposa fez o possível para parecer feliz com a volta tão rápida.

No dia seguinte ele pediu as chaves. Ela entregou, mas com a mão tão trêmula que ele adivinhou na hora tudo o que tinha acontecido.

— E a chave do quartinho? — perguntou ele. — Por que não está com as outras?

— Devo ter deixado lá em cima, na mesa — respondeu ela.

— Então traga ainda hoje — disse Barba Azul.

Ela adiou o quanto pôde, mas no fim teve de buscar a chave. Barba Azul olhou bem para ela.

— Por que há uma mancha nesta chave? — perguntou.

— Não sei — respondeu a pobre mulher, branca como cera.

— Não sabe? — disse ele. — Pois eu sei muito bem. Você quis entrar no quartinho. Então vai entrar, minha senhora, e vai ficar ao lado das damas que entraram antes de você.

Ela se jogou aos pés do marido, chorando, e pediu perdão com todo o arrependimento do mundo por não ter obedecido. Teria comovido até uma pedra. Mas Barba Azul tinha o coração de pedra.

— Você tem de morrer, minha senhora — disse ele. — E agora mesmo.

— Se tenho de morrer — respondeu ela, com os olhos cheios de lágrimas —, me dê ao menos um pouco de tempo para rezar.

— Dou a você alguns minutos — disse Barba Azul. — Nem um instante a mais.

Quando ficou sozinha, chamou a irmã, Ana.

— Ana, suba até o alto da torre, por favor. Nossos irmãos prometeram vir me ver hoje. Se você avistar os dois, faça sinal para que se apressem.

Ana subiu até o alto da torre, e de vez em quando a pobre esposa chamava do quarto:

— Ana, minha irmã Ana, você não vê ninguém chegando?

E Ana respondia:

— Só vejo o sol que doura a poeira e o capim que verdeja no campo.

Ana se debruça na janela da torre, a mão em pala sobre os olhos, e olha a estrada vazia no meio do campo verde; embaixo, a irmã chama por ela.

Enquanto isso, lá embaixo, com um cutelo na mão, Barba Azul gritava com toda a força:

— Desça já, ou eu subo aí!

— Só mais um instante, por favor — pedia a esposa.

E logo chamava baixinho:

— Ana, minha irmã Ana, você não vê ninguém chegando?

— Só vejo o sol que doura a poeira e o capim que verdeja no campo.

— Desça agora — gritava Barba Azul —, ou eu subo aí!

— Já vou — respondia ela, e chamava outra vez:

— Ana, minha irmã Ana, você não vê ninguém chegando?

— Vejo uma poeira grande que vem vindo por ali — respondeu Ana.

— São os nossos irmãos?

— Ai, não, minha irmã. É um rebanho de ovelhas.

— Você não vai descer? — gritava Barba Azul.

— Só mais um instante — pedia a esposa.

E chamou mais uma vez:

— Ana, minha irmã Ana, você não vê ninguém chegando?

— Vejo dois cavaleiros que vêm por ali, mas ainda estão bem longe — respondeu Ana.

E, um momento depois, gritou cheia de alegria:

— Graças a Deus, são os nossos irmãos! Estou acenando com toda a força para que se apressem.

Barba Azul começou a gritar tão alto que a casa inteira tremeu. A pobre mulher desceu e se atirou aos pés dele, despenteada e em lágrimas.

— Isso não adianta nada — disse ele. — Você tem de morrer.

Segurou-a pelos cabelos com uma das mãos e, com a outra, levantou o cutelo no ar. Ela olhou para ele e pediu um instantinho, só um instantinho, para se recompor.

— Não, não — disse Barba Azul. — Encomende sua alma a Deus.

E ergueu o braço.

Nesse exato momento, bateram na porta com tanta força que Barba Azul parou de repente. A porta se abriu e entraram dois cavaleiros de espada na mão, que correram direto para cima dele.

Dois cavaleiros de chapéu de plumas entram a galope pelo portão aberto, de espada na mão; Barba Azul foge pelo pátio de pedra e a esposa ergue as mãos.

Eram os irmãos da moça, um da cavalaria e o outro mosqueteiro. Barba Azul saiu correndo para se salvar, mas os dois o alcançaram antes que ele chegasse à escadaria, e ali Barba Azul caiu morto.

A pobre mulher estava tão sem forças que nem conseguiu se levantar para abraçar os irmãos.

Barba Azul não tinha herdeiros, e assim tudo o que era dele passou a ser dela. Com uma parte da fortuna, ela casou a irmã Ana com um fidalgo. Com outra parte, comprou patentes de capitão para os dois irmãos.

E com o resto, casou-se ela mesma com um homem bom, que a fez esquecer os dias ruins que tinha passado ao lado de Barba Azul.

Recontado pela Talerie, Fonte: La Barbe bleue (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público