
Simbad, o marujo
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Em Bagdá, o rico mercador Simbad manda a música parar e conta ao carregador Hindbad a primeira viagem. Jovem, quase arruinado pelas festas, Simbad embarcou em Basra rumo às Índias. Numa ilha pequena e verde como um prado, acendeu uma fogueira com outros mercadores, sem saber onde estava pisando.
Em Bagdá, na casa do rico mercador Simbad, a mesa estava farta e os músicos tocavam. Entre os convidados estava Hindbad, um pobre carregador que ganhava a vida levando fardos pelas ruas. Quando todos já tinham comido e bebido, Simbad mandou a música parar e começou a contar a história da sua primeira viagem.

Herdei da minha família uma fortuna considerável e, quando era moço, gastei quase tudo em festas e extravagâncias. Um dia, abri os olhos. Percebi que a riqueza acaba depressa quando é mal cuidada e que eu estava desperdiçando o tempo, que é a coisa mais preciosa do mundo. Percebi também que não existe miséria pior do que ser pobre na velhice. Lembrei então de um ditado do grande rei Salomão que meu pai costumava repetir: “É menos triste estar no túmulo do que na pobreza.”
Juntei o que tinha sobrado. Vendi em leilão, na praça do mercado, todos os meus móveis, fiz amizade com alguns mercadores que negociavam por mar e ouvi os conselhos dos mais experientes. Decidi fazer render o pouco dinheiro que me restava e não demorei a agir: fui até Basra e embarquei com vários mercadores num navio que tínhamos equipado juntos, dividindo as despesas.
Saímos pelo golfo Pérsico, rumo às Índias. Nos primeiros dias, enjoei muito com o balanço do mar, mas logo melhorei, e desde então nunca mais senti enjoo. Fomos parando em várias ilhas, onde vendíamos ou trocávamos as nossas mercadorias.
Certa vez, o vento parou de soprar bem diante de uma ilha pequena e baixa, quase rente à água, tão verde que parecia um prado. O capitão mandou recolher as velas e deixou descer quem quisesse. Eu fui um dos que desembarcaram. Com a lenha que tínhamos trazido do navio, acendemos uma fogueira para cozinhar e ficamos ali comendo, bebendo e descansando da viagem.
De repente, a ilha tremeu e nos deu um tranco violento. Do navio, viram o chão se mexer e começaram a gritar:
— Voltem já para cá! Isso não é ilha, é uma baleia!
Era mesmo uma baleia enorme, que dormia na superfície, e o calor da nossa fogueira a tinha acordado. Os mais ligeiros pularam no bote; outros se jogaram na água e foram nadando. Eu ainda estava nas costas da baleia quando ela mergulhou no fundo do mar, e só tive tempo de me agarrar a um pedaço da lenha da fogueira.
Enquanto isso, o capitão recolheu o pessoal do bote e alguns dos que nadavam. Como tinha começado a soprar um vento fresco e bom, mandou içar as velas, e o navio partiu. Com ele foi embora também a minha esperança de alcançá-lo.
Fiquei à mercê das ondas, que me empurravam ora para um lado, ora para outro. Lutei pela vida o resto do dia e a noite inteira. De madrugada, já sem forças, eu achava que ia morrer, quando uma onda, por sorte, me jogou contra uma ilha.

A costa era alta e íngreme, e eu nunca teria conseguido subir se não fossem umas raízes de árvore que pareciam estar ali só para me salvar. Lá em cima, eu me estendi no chão e fiquei meio morto até o sol nascer.

Quando o dia clareou, eu estava muito fraco, pois tinha lutado contra o mar e não tinha comido nada desde a véspera. Mesmo assim, saí me arrastando à procura de alguma planta que desse para comer. Encontrei algumas e tive a sorte de achar também uma fonte de água muito boa, que me deu novo ânimo.
Com as forças de volta, fui andando ilha adentro, sem saber direito para onde. Cheguei a uma bela planície e vi de longe um cavalo pastando. Fui naquela direção, dividido entre o medo e a esperança, porque não sabia se ia encontrar a salvação ou a desgraça. Chegando mais perto, percebi que era uma égua, amarrada a uma estaca.
Estava admirando a beleza do animal quando ouvi a voz de um homem falando debaixo da terra. Logo depois, o homem apareceu, veio até mim e perguntou quem eu era. Contei a minha aventura. Ele então me pegou pela mão e me levou para dentro de uma gruta, onde havia outras pessoas. Elas ficaram tão espantadas de me ver quanto eu de encontrá-las ali.
Comi do que me ofereceram e perguntei o que faziam num lugar tão deserto. Eles me contaram que eram cavalariços do rei Mihrage, que reinava naquela ilha. Todo ano, na mesma época, traziam para lá as éguas do rei e as amarravam como eu tinha visto. Então um cavalo que saía do mar, o cavalo-marinho, vinha até elas e depois tentava atacá-las, mas os cavalariços faziam tanto barulho que ele fugia de volta para o mar. Os potros que as éguas tinham desse cavalo eram do rei e se chamavam cavalos-marinhos.
Disseram também que iam partir no dia seguinte. Se eu tivesse chegado um dia mais tarde, teria morrido com certeza, porque os povoados ficavam muito longe e eu jamais chegaria até eles sem um guia.
Enquanto conversávamos, o cavalo-marinho saiu do mar, como eles tinham dito, e foi até a égua. Quando quis atacá-la, os cavalariços gritaram tão alto que ele largou a égua e mergulhou de novo no mar.

No dia seguinte, fui com eles e com as éguas para a capital da ilha. Lá me apresentaram ao rei Mihrage, que quis saber quem eu era e como tinha ido parar no reino dele. Contei tudo, e ele ficou muito comovido com a minha desgraça. Mandou que cuidassem de mim e me dessem tudo de que eu precisasse, e assim foi feito, com tanta generosidade que eu só tinha a agradecer.
Como eu era mercador, passei a frequentar gente do meu ofício. Procurava principalmente os estrangeiros, para ter notícias de Bagdá e achar alguém com quem pudesse voltar para casa. A capital do rei Mihrage fica à beira-mar e tem um belo porto, onde chegam todos os dias navios de toda parte do mundo. Também gostava de ouvir os sábios da Índia e ia sempre à corte, onde os nobres me faziam mil perguntas sobre o meu país, e eu sobre o deles.
Um dia, fui conhecer a ilha de Cassel, que também pertence ao rei Mihrage. Diziam que lá se ouvia toda noite um som de tambores, e os marinheiros acreditavam que era a morada de um espírito maligno. No caminho, vi peixes gigantescos, de cem e até duzentos côvados, que dão mais medo do que fazem mal: são tão medrosos que fogem quando alguém bate numa tábua. Vi também outros, do tamanho de um braço, com cabeça de coruja.
De volta à capital, eu estava um dia no porto quando um navio chegou e lançou âncora. Logo começaram a descarregar as mercadorias, e os donos mandavam levá-las para os armazéns. Olhei alguns fardos e as marcas que mostravam de quem eram, e vi o meu nome. Examinei tudo com atenção e não tive dúvida: eram os fardos que eu tinha embarcado em Basra. Reconheci também o capitão.

Como eu tinha certeza de que ele me julgava morto, cheguei perto e perguntei de quem eram aqueles fardos.
— Eu levava a bordo um mercador de Bagdá chamado Simbad — respondeu o capitão. — Um dia, paramos perto do que parecia uma ilha, e ele desceu com vários passageiros. Mas aquilo não era ilha nenhuma: era uma baleia enorme, que dormia na superfície. Assim que sentiu o calor da fogueira que acenderam nas costas dela para cozinhar, começou a se mexer e afundou no mar. Quase todos os que estavam em cima se afogaram, e o coitado do Simbad foi um deles. Estes fardos eram dele. Resolvi negociar com eles até encontrar alguém da família, para entregar tudo, junto com o lucro que eu conseguir.
— Capitão — respondi —, eu sou o Simbad que o senhor julga morto. Estou vivo, e estes fardos são meus!
Ao ouvir isso, o capitão exclamou:
— Meu Deus, em quem se pode confiar hoje em dia? Não existe mais honestidade neste mundo! Simbad se afogou quando aquela baleia afundou, tão certo como eu estou aqui, e o senhor tem a coragem de dizer que é ele? Que atrevimento! O senhor parece um homem direito, e no entanto conta uma mentira horrível para ficar com o que não é seu.
— Tenha paciência, capitão — pedi. — Faça o favor de ouvir o que tenho a dizer.
— Pois bem — disse ele. — Fale, estou ouvindo.
Contei então como tinha me salvado e como tinha encontrado os cavalariços do rei Mihrage, que me levaram à corte. O capitão começou a hesitar, e logo se convenceu de que eu não era nenhum impostor, porque chegaram alguns homens do navio dele que me reconheceram e vieram me cumprimentar, felizes de me ver vivo. Por fim, ele mesmo me reconheceu e me abraçou com força.

— Graças a Deus o senhor escapou de um perigo tão grande! — disse ele. — Nem sei dizer a alegria que sinto. Aqui estão os seus bens. Pegue, são seus, faça com eles o que quiser.
Agradeci, elogiei a honestidade dele e, para recompensá-lo, pedi que aceitasse algumas das mercadorias. Mas ele recusou.
Escolhi o que havia de mais precioso nos meus fardos e dei de presente ao rei Mihrage. Ele já sabia da desgraça que tinha me acontecido e quis saber onde eu tinha arranjado coisas tão raras. Quando contei como as tinha recuperado, ficou muito contente por mim, aceitou o presente e me deu outros, de muito mais valor.
Depois me despedi do rei e voltei a embarcar no mesmo navio. Antes de partir, troquei o resto das mercadorias por produtos da terra: madeira de aloé e de sândalo, cânfora, noz-moscada, cravo, pimenta e gengibre. Passamos por várias ilhas e chegamos finalmente a Basra, e de lá vim para esta cidade com cerca de cem mil moedas de ouro.
Minha família me recebeu de braços abertos, e foi uma alegria enorme estar com eles de novo. Comprei boas terras e construí uma casa grande. Foi assim que me estabeleci, decidido a esquecer o que tinha sofrido e a aproveitar os prazeres da vida.
Aqui Simbad parou de contar e mandou os músicos voltarem a tocar. Todos continuaram comendo e bebendo até o anoitecer. Na hora da despedida, o dono da casa mandou trazer uma bolsa com cem moedas de ouro e a entregou ao carregador.
— Tome, Hindbad — disse ele. — Volte para casa e venha amanhã ouvir a continuação das minhas aventuras.
Hindbad foi embora encabulado com tanta honra e com um presente daqueles. Em casa, contou tudo à mulher e aos filhos, que ficaram muito felizes e agradeceram a Deus o bem que lhes chegava pelas mãos de Simbad.
No dia seguinte, o carregador se vestiu com mais capricho e voltou à casa do generoso viajante, que o recebeu sorrindo e com muito carinho. Quando todos os convidados chegaram, a refeição foi servida e se estendeu por muito tempo.
Recontado pela Talerie, fonte: Les Mille et Une Nuits (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)

