OriginalUrashima Taro
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O pescador Urashima Taro salva uma tartaruga e, levado por ela ao fundo do mar, casa-se com a princesa Otohime no reino do Rei do Mar. De volta à aldeia, Urashima descobre que se passaram trezentos anos, abre na praia a caixa que a princesa lhe deu e, coberto por uma nuvenzinha roxa, fica muito velho e cai morto.
Há muito, muito tempo, na província de Tango, à beira-mar, no Japão, vivia na pequena aldeia de pescadores de Mizunoe um jovem pescador chamado Urashima Taro. O pai dele também tinha sido pescador, e o filho herdara a habilidade dele em dobro, pois Urashima era o pescador mais habilidoso de toda aquela região e conseguia pegar mais bonitos e pargos num só dia do que os companheiros numa semana inteira.
Mas, na pequena aldeia, Urashima era conhecido menos por ser um bom pescador do que pelo coração bondoso. Em toda a vida nunca tinha feito mal a criatura nenhuma, grande ou pequena. Quando era menino, os outros garotos viviam rindo dele, porque ele nunca entrava nas brincadeiras de judiar dos bichos; pelo contrário, sempre tentava impedir aquela crueldade.
Num fim de tarde suave de verão, Urashima voltava para casa depois de um dia de pesca quando deu com um grupo de crianças. Gritavam e falavam todas ao mesmo tempo, a plenos pulmões, e pareciam muito agitadas com alguma coisa. Quando ele chegou perto para ver o que estava acontecendo, viu que estavam maltratando uma tartaruga. Um menino a puxava para um lado, outro a puxava para o outro, um terceiro batia nela com uma vara e o quarto martelava o casco dela com uma pedra.
Urashima sentiu muita pena da pobre tartaruga e resolveu salvá-la. Então falou com os meninos:
— Escutem aqui, meninos, vocês estão tratando tão mal essa pobre tartaruga que ela logo vai morrer!
Os meninos estavam naquela idade em que as crianças parecem achar graça em ser cruéis com os animais, e não deram a menor atenção à bronca delicada de Urashima. Continuaram a judiar da tartaruga como antes. Um dos maiores respondeu:
— E quem liga se ela vive ou morre? A gente não liga. Vamos, pessoal, continuem, continuem!
E começaram a tratar a pobre tartaruga com mais crueldade ainda. Urashima esperou um momento, pensando qual seria a melhor maneira de lidar com os meninos. Resolveu tentar convencê-los a lhe entregar a tartaruga; então sorriu para eles e disse:
— Tenho certeza de que vocês são todos meninos bons e gentis! Que tal me darem essa tartaruga? Eu gostaria tanto de ficar com ela!
— Não, a gente não vai dar a tartaruga — disse um dos meninos. — Por que daria? Fomos nós que pegamos.
— É verdade o que você diz — respondeu Urashima. — Mas não estou pedindo que me deem de graça. Vou pagar por ela; quer dizer, o tio aqui vai comprá-la de vocês. Que tal, meninos?
E mostrou o dinheiro, umas moedas enfiadas num barbante que passava pelo furo no meio de cada uma.
— Olhem, meninos, com este dinheiro vocês podem comprar o que quiserem. Dá para fazer muito mais coisa com este dinheiro do que com essa pobre tartaruga. Vejam só como vocês são bonzinhos de me escutar.

Os meninos não eram maus, de jeito nenhum; eram só travessos. Enquanto Urashima falava, foram conquistados pelo sorriso bondoso e pelas palavras gentis dele e acabaram ficando do lado dele, como se diz no Japão. Pouco a pouco foram todos chegando perto, e o chefe do bando estendeu a tartaruga para ele.
— Está bem, tio, a gente dá a tartaruga se você der o dinheiro!
Urashima pegou a tartaruga e deu o dinheiro aos meninos, que saíram correndo e chamando uns aos outros e logo sumiram de vista.
Então Urashima passou a mão no casco da tartaruga e foi dizendo:
— Ah, coitadinha! Coitadinha! Pronto, pronto, agora você está a salvo! Dizem que a cegonha vive mil anos, mas a tartaruga vive dez mil. Você tem a vida mais longa de todas as criaturas deste mundo, e quase teve essa vida tão preciosa interrompida por aqueles meninos cruéis. Por sorte eu ia passando e salvei você, e a vida ainda é sua. Agora mesmo vou levar você de volta para a sua casa, o mar. Não se deixe pegar outra vez, porque da próxima vez pode não haver ninguém para salvar você!
Enquanto falava, o bondoso pescador caminhava depressa até a praia e subia nas pedras. Ali pôs a tartaruga na água, ficou olhando até ela desaparecer e depois tomou o caminho de casa, porque estava cansado e o sol já tinha se posto.
Na manhã seguinte, Urashima saiu com o barco como de costume. O tempo estava bom, e o mar e o céu estavam azuis e suaves na névoa leve da manhã de verão. Urashima entrou no barco e, distraído, foi remando mar adentro e lançando a linha. Logo passou pelos outros barcos de pesca e os deixou para trás, até que se perderam de vista ao longe, e o barco dele foi se afastando cada vez mais sobre as águas azuis. Sem saber por quê, ele se sentia mais feliz do que nunca naquela manhã, e não conseguia deixar de desejar ter, como a tartaruga que soltara na véspera, milhares de anos de vida, em vez da vida curta de um ser humano.
De repente, Urashima foi tirado do seu devaneio por uma voz que chamava o nome dele:
— Urashima, Urashima!
Clara como um sino e suave como o vento de verão, a voz chegou flutuando sobre o mar.
Urashima se levantou e olhou para todos os lados, achando que algum dos outros barcos o tinha alcançado. Mas, por mais que olhasse a vastidão das águas, não havia sinal de barco nenhum, nem perto nem longe, e por isso a voz não podia ser de gente.
Assustado e querendo saber quem ou o que o tinha chamado com tanta clareza, Urashima olhou em volta e viu que, sem ele perceber, uma tartaruga tinha chegado ao lado do barco. Com surpresa, reconheceu nela a mesma tartaruga que tinha salvado na véspera.

— Ora, Dona Tartaruga — disse Urashima —, foi você que chamou meu nome agora há pouco?
A tartaruga balançou a cabeça várias vezes, dizendo que sim, e respondeu:
— Fui eu, sim. Ontem, graças a você, minha vida foi salva, e vim lhe agradecer e dizer como sou grata pela sua bondade.
— Ora essa — disse Urashima —, é muita gentileza sua. Suba no barco. Eu lhe ofereceria um cachimbo, mas, como você é uma tartaruga, com certeza não fuma.
E o pescador riu da própria brincadeira.
— Hi, hi, hi, hi! — riu a tartaruga. — Saquê é a bebida de que eu mais gosto, mas fumo eu dispenso.
— Ora essa — disse Urashima —, sinto muito não ter saquê no barco para lhe oferecer. Mas suba e venha secar as costas ao sol; as tartarugas adoram isso.
Então a tartaruga subiu no barco com a ajuda do pescador e, depois de uma troca de cumprimentos, perguntou:
— Você já viu o Rin Gin, o Palácio do Rei Dragão do Mar, Urashima?
O pescador balançou a cabeça e respondeu:
— Não. Ano após ano o mar tem sido a minha casa, mas, embora eu já tenha ouvido falar muitas vezes do reino do Rei Dragão debaixo do mar, nunca pus os olhos naquele lugar maravilhoso. Deve ser muito longe, se é que existe!
— É mesmo? Você nunca viu o Palácio do Rei do Mar? Então ainda não viu uma das coisas mais maravilhosas do universo inteiro. Fica longe, no fundo do mar, mas, se eu levar você, chegaremos lá num instante. Se quiser conhecer a terra do Rei do Mar, eu serei sua guia.
— Eu gostaria muito de ir, claro, e é muita bondade sua pensar em me levar. Mas não esqueça que eu sou só um pobre mortal e não sei nadar como uma criatura do mar feito você…
Antes que o pescador pudesse dizer mais, a tartaruga o interrompeu:
— Como assim? Você não precisa nadar. Se montar nas minhas costas, eu levo você sem que tenha trabalho nenhum.
— Mas como é que eu vou montar nas suas costas tão pequenas? — perguntou Urashima.
— Pode parecer absurdo, mas garanto que você consegue. Experimente agora mesmo! Venha, suba nas minhas costas e veja se é tão impossível quanto você pensa!
Quando a tartaruga terminou de falar, Urashima olhou para o casco dela e, coisa estranha, viu que o animal tinha crescido de repente, e tanto que um homem podia sentar com folga nas costas dele.
— Isso é mesmo estranho! — disse Urashima. — Então, Dona Tartaruga, com sua licença, vou subir nas suas costas. Upa!
E pulou em cima dela.
A tartaruga, sem mudar de expressão, como se aquilo tudo fosse a coisa mais comum do mundo, disse:
— Agora vamos com calma.
E, com essas palavras, saltou no mar levando Urashima nas costas. A tartaruga mergulhou fundo na água. Por muito tempo os dois estranhos companheiros viajaram pelo mar. Urashima nunca se cansava, e as roupas dele nem se molhavam. Por fim, bem ao longe, surgiu um portão magnífico e, atrás dele, os telhados compridos e inclinados de um palácio no horizonte.
— Oh! — exclamou Urashima. — Aquilo parece o portão de um grande palácio que vai aparecendo! Dona Tartaruga, sabe me dizer que lugar é aquele que estamos vendo?
— Aquele é o grande portão do Palácio Rin Gin; o telhado grande que você vê atrás do portão é o próprio Palácio do Rei do Mar.
— Então finalmente chegamos ao reino do Rei do Mar e ao palácio dele — disse Urashima.
— Chegamos, sim — respondeu a tartaruga. — E não acha que viemos bem depressa?
Enquanto falava, a tartaruga alcançou o portão.
— Pronto, chegamos. Daqui em diante, por favor, você vai a pé.
A tartaruga passou então à frente e disse ao porteiro:
— Este é Urashima Taro, da terra do Japão. Tive a honra de trazê-lo como visitante a este reino. Por favor, mostre-lhe o caminho.
O porteiro, que era um peixe, logo foi à frente deles e os conduziu pelo portão.
O pargo, o linguado, a solha, a lula e todos os principais vassalos do Rei Dragão do Mar vieram então receber o forasteiro, com mesuras de corte.
— Senhor Urashima, Senhor Urashima! Seja bem-vindo ao Palácio do Mar, a morada do Rei Dragão do Mar. Três vezes bem-vindo, pois veio de uma terra tão distante. E à senhora, Dona Tartaruga, somos muito gratos pelo trabalho de trazer Urashima até aqui.
Depois, voltando-se de novo para Urashima, disseram:
— Por favor, venha por aqui.
E dali em diante o cortejo inteiro de peixes passou a guiá-lo.
Urashima, que não passava de um pobre pescador, não sabia como se portar num palácio. Mas, por mais estranho que tudo aquilo fosse para ele, não sentiu vergonha nem acanhamento e seguiu com toda a calma os seus gentis guias até o interior do palácio. Quando chegou à entrada, uma linda princesa veio recebê-lo, acompanhada das suas damas. Era mais bonita do que qualquer ser humano e vestia roupas soltas, vermelhas e de um verde suave como o lado de baixo de uma onda, e fios de ouro cintilavam nas dobras do vestido. Os lindos cabelos negros caíam soltos sobre os ombros, como os das filhas de reis de muitas centenas de anos atrás, e, quando ela falava, a voz soava como música sobre a água. Urashima ficou maravilhado olhando para ela e não conseguiu dizer nada. Depois se lembrou de que devia fazer uma reverência, mas, antes que pudesse se curvar bem fundo, a princesa o tomou pela mão, levou-o até um belo salão, conduziu-o ao lugar de honra, na cabeceira, e pediu que se sentasse.

— Urashima Taro, é uma enorme alegria para mim receber você no reino do meu pai — disse a princesa. — Ontem você libertou uma tartaruga, e mandei buscá-lo para lhe agradecer por ter salvado a minha vida, pois aquela tartaruga era eu. Agora, se quiser, você vai viver aqui para sempre, na terra da eterna juventude, onde o verão nunca morre e a tristeza nunca chega. E, se você quiser, eu serei sua esposa, e viveremos juntos e felizes para sempre!
Ao ouvir essas palavras doces e olhar aquele rosto lindo, Urashima sentiu o coração se encher de espanto e de alegria. Perguntando-se se não estaria sonhando, respondeu:
— Mil vezes obrigado pelas suas palavras tão gentis. Não há nada que eu desejasse mais do que ter permissão para ficar aqui com você, nesta terra tão bonita, de que ouvi falar tantas vezes mas que nunca tinha visto até hoje. Mais do que as palavras podem dizer, este é o lugar mais maravilhoso que já vi.
Enquanto ele falava, apareceu um cortejo de peixes, todos com trajes de cerimônia de cauda comprida. Um a um, em silêncio e com passos solenes, foram entrando no salão, trazendo em bandejas de coral iguarias de peixe e de algas como ninguém seria capaz de imaginar, e esse banquete maravilhoso foi servido diante dos noivos. O casamento foi celebrado com um esplendor deslumbrante, e houve uma grande festa no reino do Rei do Mar. Assim que os jovens noivos beberam juntos o vinho da taça nupcial, três vezes três goles, tocou-se música, cantaram-se canções, e peixes de escamas de prata e caudas de ouro chegaram das ondas e dançaram. Urashima se divertiu de todo o coração. Nunca na vida tinha se sentado a um banquete tão maravilhoso.
Quando o banquete terminou, a princesa perguntou ao noivo se ele gostaria de passear pelo palácio e ver tudo o que havia para ver. Então o pescador, feliz, seguiu a esposa, a filha do Rei do Mar, e ela lhe mostrou todas as maravilhas daquela terra encantada, onde a juventude e a alegria andam de mãos dadas e nem o tempo nem a velhice conseguem tocá-las. O palácio era feito de coral e enfeitado de pérolas, e as belezas e maravilhas do lugar eram tantas que não há palavras para descrevê-las.
Mas, para Urashima, mais maravilhoso do que o palácio era o jardim em volta dele. Ali se via ao mesmo tempo a paisagem das quatro estações; as belezas do verão e do inverno, da primavera e do outono se mostravam todas de uma vez ao visitante deslumbrado.
Primeiro, quando olhou para o leste, viu as ameixeiras e as cerejeiras em plena flor, os rouxinóis cantando nas alamedas cor-de-rosa e as borboletas voando de flor em flor.
Olhando para o sul, todas as árvores estavam verdes, no auge do verão, e a cigarra durante o dia e o grilo durante a noite cantavam bem alto.
Olhando para o oeste, os bordos de outono ardiam como um céu de pôr do sol, e os crisântemos estavam no seu esplendor.
Olhando para o norte, Urashima levou um susto com a mudança, porque o chão estava branco de neve, prateado, as árvores e os bambus também estavam cobertos de neve, e o lago tinha uma grossa camada de gelo.

E a cada dia havia novas alegrias e novas maravilhas para Urashima, e a felicidade dele era tão grande que ele se esqueceu de tudo, até da casa que tinha deixado, dos pais e da sua própria terra. Passaram-se três dias sem que ele pensasse uma única vez em tudo o que deixara para trás. Então voltou a si, lembrou-se de quem era e de que não pertencia àquela terra maravilhosa nem ao palácio do Rei do Mar, e disse consigo mesmo:
— Ai de mim! Não posso continuar aqui, porque tenho em casa um pai e uma mãe já velhinhos. O que terá acontecido com eles todo esse tempo? Como devem ter ficado aflitos nestes dias em que não voltei como de costume! Preciso voltar agora mesmo, sem deixar passar nem mais um dia.
E começou a se preparar às pressas para a viagem.
Depois foi até a sua linda esposa, a princesa, e, curvando-se bem diante dela, disse:
— Fui muito feliz com você durante muito tempo, Princesa Otohime — pois esse era o nome dela —, e você foi mais bondosa comigo do que as palavras podem dizer. Mas agora preciso me despedir. Tenho de voltar para os meus velhos pais.
Então a Princesa Otohime começou a chorar e disse, baixinho e com tristeza:
— Não está bem aqui, Urashima, para querer me deixar tão cedo? Por que tanta pressa? Fique comigo só mais um dia!
Mas Urashima tinha se lembrado dos velhos pais, e no Japão o dever para com os pais é mais forte do que tudo, mais forte até do que o prazer ou o amor. Por isso ele não se deixou convencer e respondeu:
— Preciso mesmo ir. Não pense que quero deixar você. Não é isso. Preciso ir ver os meus velhos pais. Deixe-me ir por um dia, e eu volto para você.
— Então — disse a princesa, com tristeza —, não há o que fazer. Vou mandar você hoje mesmo de volta para o seu pai e a sua mãe e, em vez de tentar segurar você aqui mais um dia, vou lhe dar isto como lembrança do nosso amor. Por favor, leve com você.
E trouxe para ele uma linda caixa laqueada, amarrada com um cordão de seda e borlas de seda vermelha.

Urashima já tinha recebido tanta coisa da princesa que sentiu certo remorso em aceitar o presente, e disse:
— Não me parece certo aceitar mais um presente seu, depois de tantos favores que já recebi das suas mãos, mas, como é seu desejo, vou aceitar.
E depois acrescentou:
— Diga-me, que caixa é esta?
— Esta — respondeu a princesa — é a tamatebako, a caixa do tesouro, e guarda uma coisa muito preciosa. Você não pode abrir esta caixa, aconteça o que acontecer! Se abrir, uma coisa terrível vai lhe acontecer! Agora prometa que nunca vai abrir esta caixa!
E Urashima prometeu que nunca, nunca abriria a caixa, acontecesse o que acontecesse.
Depois se despediu da Princesa Otohime e desceu até a beira do mar, com a princesa e as damas dela atrás. Ali encontrou uma grande tartaruga à espera dele.
Urashima montou depressa nas costas da tartaruga, e ela o levou embora sobre o mar brilhante, rumo ao leste. Ele olhava para trás e acenava para a Princesa Otohime, até que por fim não pôde mais vê-la, e a terra do Rei do Mar e os telhados do palácio maravilhoso se perderam lá longe, muito longe. Então, com o rosto voltado ansioso para a sua terra, ficou procurando ver surgir as colinas azuis no horizonte, à sua frente.
Por fim a tartaruga o levou até a baía que ele conhecia tão bem, à mesma praia de onde tinha partido. Urashima pisou na areia e olhou em volta, enquanto a tartaruga voltava nadando para o reino do Rei do Mar.
Mas que medo estranho é esse que toma conta de Urashima, enquanto ele está ali parado, olhando em volta? Por que ele encara com tanta insistência as pessoas que passam, e por que elas, por sua vez, param e ficam olhando para ele? A praia é a mesma, as colinas são as mesmas, mas as pessoas que ele vê passando têm rostos muito diferentes daqueles que ele conhecia tão bem.
Sem entender o que aquilo podia significar, Urashima segue depressa para a sua antiga casa. Até ela parece diferente, mas há uma casa naquele mesmo lugar, e ele chama:
— Pai, cheguei!
Ia entrando quando viu sair de lá um homem desconhecido.
“Talvez meus pais tenham se mudado enquanto eu estava fora e ido morar em outro lugar”, pensou o pescador. Sem saber por quê, começou a sentir uma estranha aflição.
— Com licença — disse ele ao homem, que o encarava. — Até poucos dias atrás eu morava nesta casa. Meu nome é Urashima Taro. Para onde foram os meus pais, que deixei aqui?
O rosto do homem ficou muito confuso e, sem tirar os olhos do rosto de Urashima, ele disse:
— Como é? Você é Urashima Taro?
— Sou — disse o pescador. — Eu sou Urashima Taro!
— Ha, ha! — riu o homem. — Não faça essas brincadeiras. É verdade que, há muito tempo, um homem chamado Urashima Taro viveu nesta aldeia, mas essa é uma história de trezentos anos atrás. Não tem como ele estar vivo hoje!
Quando ouviu essas palavras estranhas, Urashima ficou com medo e disse:
— Por favor, por favor, não brinque comigo, estou muito confuso. Eu sou mesmo Urashima Taro, e com certeza não vivi trezentos anos. Até quatro ou cinco dias atrás eu morava neste lugar. Por favor, diga o que eu quero saber, sem mais brincadeiras.
Mas o rosto do homem foi ficando cada vez mais sério, e ele respondeu:
— Pode ser que você seja Urashima Taro, pode ser que não, eu não sei. Mas o Urashima Taro de que eu ouvi falar é um homem que viveu há trezentos anos. Será que você é o espírito dele, que voltou para visitar a antiga casa?
— Por que está zombando de mim? — disse Urashima. — Não sou espírito nenhum! Sou um homem vivo. Não está vendo os meus pés?
E, tum, tum, bateu os pés no chão, primeiro um e depois o outro, para mostrar ao homem, porque no Japão dizem que os fantasmas não têm pés.

— Mas Urashima Taro viveu há trezentos anos, isso é tudo o que eu sei; está escrito nas crônicas da aldeia — insistiu o homem, que não conseguia acreditar no que o pescador dizia.
Urashima ficou perdido, sem saber o que pensar e cheio de aflição. Ficou parado, olhando tudo em volta, terrivelmente intrigado. De fato, alguma coisa no aspecto de todas as coisas estava diferente do que ele lembrava antes de partir, e ele foi tomado pela sensação horrível de que o homem talvez dissesse a verdade. Parecia estar num sonho estranho. Os poucos dias que tinha passado no palácio do Rei do Mar, além do mar, não tinham sido dias: tinham sido centenas de anos, e nesse tempo os pais dele tinham morrido, e também todas as pessoas que ele tinha conhecido, e a aldeia tinha posto a história dele por escrito. Não adiantava ficar ali nem mais um minuto. Precisava voltar para a sua linda esposa, além do mar.
Urashima voltou para a praia, levando na mão a caixa que a princesa lhe dera. Mas qual era o caminho? Sozinho, não conseguia encontrá-lo! De repente se lembrou da caixa, a tamatebako.
— Quando me deu a caixa, a princesa me disse para nunca abri-la, que ela guardava uma coisa muito preciosa. Mas agora que não tenho casa, agora que perdi tudo o que me era querido aqui e meu coração está apertado de tristeza, numa hora como esta, se eu abrir a caixa, com certeza vou encontrar alguma coisa que me ajude, alguma coisa que me mostre o caminho de volta para a minha linda princesa, além do mar. Não me resta mais nada a fazer. Sim, sim, vou abrir a caixa e olhar dentro!
E assim o coração dele consentiu nessa desobediência, e ele tentou se convencer de que fazia a coisa certa ao quebrar a promessa.
Devagar, bem devagar, desatou o cordão de seda vermelha; devagar e cheio de curiosidade, levantou a tampa da caixa preciosa. E o que encontrou? Coisa estranha: só uma linda nuvenzinha roxa, que subiu da caixa em três fios suaves. Por um instante a nuvem cobriu o rosto dele e ficou pairando sobre ele, como se não quisesse ir embora, e depois se afastou flutuando como vapor sobre o mar.

Urashima, que até aquele momento era como um jovem forte e bonito de vinte e quatro anos, de repente ficou muito, muito velho. As costas se curvaram com a idade, os cabelos ficaram brancos como a neve, o rosto se encheu de rugas, e ele caiu morto na praia.
Pobre Urashima! Por causa da sua desobediência, nunca mais pôde voltar ao reino do Rei do Mar nem para a linda princesa que vivia além do mar.
Criancinhas, nunca desobedeçam a quem sabe mais do que vocês, porque a desobediência foi o começo de todas as misérias e tristezas da vida.
Recontado pela Talerie, fonte: Japanese Fairy Tales (abre em uma nova janela)Licença: Domínio públicoCopie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório.CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
