OriginalSão Nicolau
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Nicolau joga ouro pela janela de um vizinho pobre para salvar as três filhas dele e depois se torna bispo de Mira, socorre o povo faminto e salva três generais. Quando o santo morre, do túmulo de mármore corre um óleo santo que cura doentes, e soldados de Bari levam os ossos dele depois que os turcos destroem Mira.
Nicolau nasceu em Patara, uma cidade da Lícia, filho de pais ricos e piedosos. O pai se chamava Epifânio, e a mãe, Joana. No próprio dia em que nasceu, quando lhe davam o primeiro banho, o menino se ergueu e ficou de pé na bacia. E, durante toda a primeira infância, só mamava duas vezes por semana: na quarta e na sexta-feira.
Quando ficou mais velho, fugia das brincadeiras pouco recomendáveis dos companheiros e passava o tempo nas igrejas. Guardava de cor tudo o que ouvia ali das Sagradas Escrituras.
Os pais morreram, e Nicolau ficou muito rico. Então procurou um jeito de usar toda aquela riqueza, não para ser elogiado pelas pessoas, mas para a glória de Deus.
Perto dele morava um homem de família bastante nobre que tinha caído na pobreza. Era tão pobre que estava a ponto de entregar as três filhas à prostituição, para viver do dinheiro que elas ganhassem desse jeito. Quando soube disso, Nicolau ficou horrorizado com um crime tão grande.
Certa noite, ele embrulhou um pedaço de ouro num pano e o jogou pela janela, para dentro da casa do vizinho. Depois fugiu, sem que ninguém o visse. Na manhã seguinte, ao se levantar, o homem encontrou o ouro. Deu graças a Deus e começou logo a preparar o casamento da filha mais velha.
Algum tempo depois, o servo de Deus fez a mesma coisa e jogou outro pedaço de ouro pela janela. Ao encontrá-lo, o vizinho louvou a Deus em voz alta, cheio de alegria. E prometeu a si mesmo que, dali em diante, ia ficar acordado para descobrir quem vinha socorrê-lo assim, na pobreza em que vivia.
Poucos dias depois, um pedaço de ouro duas vezes maior caiu dentro da casa, e dessa vez o vizinho ouviu o barulho que ele fez ao bater no chão. Saiu correndo atrás de Nicolau, que fugia, e implorou que ele parasse, porque queria ver o rosto dele. Correu tanto que acabou alcançando o rapaz e o reconheceu.
O homem se jogou aos pés dele e quis beijá-los. Mas Nicolau não aceitou nenhum agradecimento e o fez prometer que guardaria segredo, até a morte, sobre o bem que tinha recebido.

Algum tempo depois, morreu o bispo da cidade de Mira, e todos os bispos da região se reuniram para escolher quem ficaria no lugar dele. Entre eles havia um bispo velho, de grande autoridade, cuja opinião todos os outros seguiam. Esse velho bispo pediu a todos que jejuassem e rezassem.
Durante a noite, ouviu uma voz que lhe mandava ficar de manhã à porta da igreja e consagrar como bispo o primeiro homem que visse entrar. Logo contou aos outros bispos o que tinha ouvido e foi esperar diante da porta da igreja.
E, por milagre, Nicolau, mandado por Deus, chegou à igreja antes de clarear e foi o primeiro a entrar. O velho bispo se aproximou dele e perguntou:
— Qual é o seu nome?
Nicolau era simples como uma pomba. Baixou a cabeça e respondeu:
— Nicolau, servo de Vossa Santidade.

Então os bispos o vestiram com paramentos brilhantes e o sentaram na cadeira de bispo. Mas, mesmo cercado de honras, ele continuou humilde e sério como antes. Passava as noites rezando, castigava o próprio corpo e evitava a companhia das mulheres. Recebia todos com humildade, e as palavras dele davam fruto; aconselhava com empenho e repreendia com severidade. Uma crônica conta também que São Nicolau esteve no Concílio de Niceia.
Um dia, uns marinheiros que estavam em perigo no mar rezaram assim, chorando:
— Nicolau, servo de Deus, se é verdade o que nos contaram do senhor, mostre isso para nós agora!
No mesmo instante apareceu diante deles alguém que tinha o rosto do santo e que lhes disse:
— Vocês me chamaram, aqui estou!
E começou a ajudá-los com as velas, as cordas e tudo o mais que havia no barco. Logo a tempestade parou.

Salvos, os marinheiros desembarcaram e foram à igreja onde Nicolau estava. Reconheceram o santo assim que o viram, embora nunca o tivessem encontrado. Agradeceram por terem escapado da morte, mas ele lhes disse que agradecessem a Deus: o mérito era só da misericórdia divina e da fé que eles mesmos tinham.
Houve um tempo em que toda a província da diocese de São Nicolau foi atingida por uma fome terrível, tão grande que ninguém tinha nada para comer. Então o homem de Deus soube que havia no porto uns navios carregados de trigo. Foi lá sem demora e pediu aos marujos que socorressem o povo faminto e deixassem ao menos cem medidas de trigo de cada navio.
Mas eles responderam:
— Padre, não temos coragem. Nossa carga foi pesada em Alexandria, e temos de entregar tudo nos celeiros do imperador!
— Façam assim mesmo o que eu peço — respondeu o santo —, e eu prometo, em nome de Deus, que os fiscais do imperador não vão encontrar nada faltando na carga de vocês!
Os marujos obedeceram. Quando chegaram ao destino, entregaram aos celeiros imperiais a mesma quantidade de trigo que tinha sido pesada em Alexandria. Viram o milagre, espalharam a notícia por toda parte e louvaram a Deus pelo que o servo dele tinha feito.
E Nicolau repartiu o trigo que eles tinham deixado conforme a necessidade de cada um. O trigo rendeu de um jeito tão milagroso que não só deu para alimentar a região durante dois anos, como ainda sobrou bastante para semear os campos.
Antigamente, o povo daquela região adorava ídolos. E, mesmo no tempo de São Nicolau, alguns camponeses ainda tinham o costume de praticar certos ritos pagãos debaixo de uma árvore consagrada à deusa Diana. Para acabar com essa idolatria, o santo mandou cortar a árvore.
Então o demônio, furioso, preparou um óleo contra a natureza, que queimava dentro da água e em cima das pedras. Depois tomou a forma de uma freira, subiu num barco e se aproximou de uns peregrinos que navegavam para visitar São Nicolau. E disse a eles:
— Que pena eu não poder ir com vocês até o santo homem! Mas, ao menos, em lembrança de mim, passem este óleo nas paredes da igreja e da casa dele.
O barco do demônio se afastou, e logo os viajantes viram outro barco se aproximar. Nele estava Nicolau, que lhes perguntou:
— O que foi que aquela mulher disse a vocês, e o que ela deu?
Os peregrinos contaram tudo o que tinha acontecido.
— Aquela mulher não é freira coisa nenhuma — disse Nicolau. — É a própria Diana, a deusa sem pudor. Se vocês querem uma prova, joguem o óleo dela no mar!
Assim que os peregrinos o jogaram, o óleo pegou fogo em cima da água, prova clara de que era coisa contra a natureza. Então o segundo barco desapareceu. Mas, quando chegaram à igreja de São Nicolau, os peregrinos reconheceram nele o homem que estava naquele barco.
Certa vez, um povo se revoltou contra o Império Romano, e o imperador mandou contra ele três generais: Nepociano, Urso e Apílio. No caminho, um vento contrário os obrigou a parar num porto da diocese de São Nicolau. O santo os convidou para jantar na casa dele, porque queria proteger o seu povo dos saques dos soldados.
Enquanto o santo estava fora, o cônsul tinha aceitado dinheiro e condenado à morte três soldados inocentes. Assim que soube disso, Nicolau pediu aos hóspedes que o acompanhassem e correu com eles até o lugar da execução. Lá encontrou os três soldados já de joelhos, com o rosto coberto, e o carrasco já erguendo a espada sobre a cabeça deles.
Cheio de zelo, Nicolau se lançou com coragem contra o carrasco, arrancou a espada da mão dele, desamarrou os três inocentes e os levou consigo, sãos e salvos. Depois correu até o tribunal do cônsul e arrombou a porta, que estava fechada.

O cônsul logo veio cumprimentá-lo, todo apressado. Mas o santo o empurrou para longe e disse:
— Inimigo de Deus, traidor da lei, como você se atreve a nos olhar de frente, com um crime tão horrível na consciência?
Nicolau o encheu de censuras. Mas, a pedido dos generais, e vendo que o cônsul estava arrependido, concordou em perdoá-lo. Depois disso, os três generais receberam a bênção do santo e seguiram viagem. Venceram os revoltosos sem derramar sangue e voltaram para o imperador, que os recebeu com grandes honras.
Mas alguns homens da corte ficaram com inveja do favor que os três generais tinham conquistado e subornaram o prefeito do palácio. Comprado por esses homens, o prefeito foi dizer ao imperador que os três generais tinham traído Sua Majestade. Louco de raiva, o imperador mandou prendê-los na mesma hora e ordenou que fossem mortos durante a noite, sem nem serem interrogados.
Quando souberam pelo carcereiro o que os esperava, os três generais rasgaram os mantos e choraram amargamente. Mas, de repente, um deles, Nepociano, se lembrou de que o bem-aventurado Nicolau, pouco tempo antes, tinha salvado da morte três inocentes diante dos olhos deles. E convenceu os companheiros a pedir a ajuda do santo.
E, de fato, atendendo à oração deles, São Nicolau apareceu naquela noite ao imperador Constantino e disse:
— Por que você mandou prender esses generais injustamente e os condenou à morte, se eles são inocentes? Levante-se depressa e mande soltá-los agora mesmo! Senão, vou pedir a Deus que mande contra você uma guerra; você vai cair nela e ser jogado às feras!
O imperador perguntou:
— Quem é você, que entra de noite no meu palácio e se atreve a falar assim comigo?
— Sou Nicolau, bispo da cidade de Mira.
Da mesma forma, o santo apareceu ao prefeito e o encheu de pavor, dizendo:
— Insensato, por que você concordou com a morte de três inocentes? Vá depressa fazer tudo para que sejam soltos! Senão, seu corpo vai ser comido pelos vermes, e sua casa vai ser destruída num instante.
— Quem é você, que me faz ameaças assim? — perguntou o prefeito.
— Saiba que eu sou Nicolau, bispo da cidade de Mira!
Ao acordar, o imperador e o prefeito contaram um ao outro o sonho que tinham tido e mandaram buscar depressa os três prisioneiros.
— Vocês são feiticeiros? Foram vocês que nos mandaram essas visões para nos enganar? — perguntou o imperador.
— Não somos feiticeiros, Vossa Majestade — responderam os generais. — Somos inocentes do crime de que nos acusam.
— Vocês conhecem um homem chamado Nicolau? — perguntou então o imperador.
Ao ouvir esse nome, os três levantaram as mãos para o céu e pediram a Deus que, pelos méritos de São Nicolau, os livrasse do perigo em que estavam.
Quando soube por eles da vida e dos milagres do santo, o imperador disse:
— Vão e agradeçam a Deus, que salvou vocês por causa da oração desse Nicolau! E contem a ele o que eu fiz e levem presentes da minha parte. Peçam a ele que não me faça mais ameaças, mas que reze a Deus por mim e pelo meu império!
Alguns dias depois, os generais foram procurar o servo de Deus. Ajoelhados diante dele, disseram:
— Padre, o senhor é o verdadeiro servo de Deus!
E contaram em detalhes tudo o que tinha acontecido. Nicolau levantou as mãos para o céu e louvou a Deus. Depois de instruir bem os três nas verdades da fé, mandou que voltassem para casa.
Quando o Senhor quis chamar São Nicolau para junto de si, o santo pediu a Deus que lhe mandasse os seus anjos. Ao ver os anjos chegando, baixou a cabeça e rezou o salmo que começa assim: “Em ti, Senhor, esperei”. Depois entregou a alma, ao som de uma música que vinha do céu. Isso aconteceu no ano do Senhor de 343.
Nicolau foi enterrado num túmulo de mármore. Da cabeça do santo começou a brotar uma fonte de óleo, e dos pés, uma fonte de água. Ainda hoje corre do corpo de Nicolau um óleo santo que devolve a saúde a muitos doentes.
Um dia, esse óleo parou de correr. Isso aconteceu quando o sucessor de São Nicolau, um homem muito bom, foi tirado do cargo por gente invejosa. Mas, assim que o bispo voltou ao seu lugar, o óleo recomeçou a correr.
Muito tempo depois, os turcos destruíram a cidade de Mira. E, quando quarenta e sete soldados da cidade de Bari passaram por lá, quatro monges abriram para eles o túmulo de São Nicolau. Os soldados pegaram os ossos do santo, que boiavam no óleo, e os levaram para Bari, no ano do Senhor de 1087.
Recontado pela Talerie, fonte: La Légende dorée (abre em uma nova janela)Licença: Domínio públicoCopie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório.CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
